Resenha de livroTítulo: Ouvindo Estrelas - A Luta, a Ousadia e a Glória de um dosMaiores Produtores Musicais do Brasil
Autor: Marco MazzolaEditora: Planeta (304 páginas,R$ 39,90)Cotação: * * * 1/2A partir da década de 70, a trajetória de Marco Mazzola no mundo do disco passou a se entrelaçar com a história da indústria fonográfica brasileira. Em sua autobiografia
Ouvindo Estrelas, o produtor escreve com texto fluente sobre a arte de produzir disco. O livro não é um manual técnico, embora contenha uma ou outra dica para manuseio de uma mesa de som - ofício no qual este carioca é um mestre. É, como já avisa o rótulo
autobiografia exposto entre parêntesis na capa, um relato da vida e obra de um produtor que se tornou grife na indústria brasileira.
Por mais que apresente um perfil idealizado de si mesmo, como já denuncia o subtítulo do livro, Mazzola tem muito o que contar. E conta suas peripécias musicais em narrativa enxuta, escrita com objetividade. Farejador de talentos e de hits, Mazzola começou a brilhar na indústria da música em1973 com a produção dos dois primeiros discos de Raul Seixas para a Philips, a companhia hoje incorporada à Universal Music. Foram
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Krig-Ha, Bandolo! que deram credibilidade ao então iniciante produtor que. Prestigiado, ele em 1976 incentivaria a contratação de Belchior, estourado na voz de Elis Regina (
Como Nossos Pais), mas sem chance na indústria após o fiasco comercial de um LP gravado em 1974 para a Continental.
Por conta dessa bem-sucedida fase inicial na Philips, Mazzola já foi levado - ainda em 1976 - por André Midani para a então nascente filial brasileira da WEA (hoje Warner Music). Na nova companhia, na função de diretor artístico, ele contratou Marina Lima, investiu nas Frenéticas (a gravação do sucesso
Dancin' Days nos Estados Unidos teve o seu dedo, embora os discos do grupo tivessem sido produzidos pelo estreante Liminha) e - em mais uma prova de seu aguçado faro do sucesso - convenceu Gilberto Gil a gravar
Não Chores Mais, a versão do reggae
No Woman no Cry (Bob Marley) que Gil fizera para disco de Zezé Motta. Gil relutou, mas gravou e obteve um dos maiores êxitos de sua carreira. Estouro nacional!!!
Diplomático, Mazzola obviamente evita relatar no livro fatos que possam melindrar as estrelas com quem trabalhou. Contudo, os melhores momentos de sua autobiografia são justamente os que revelam detalhes saborosos de bastidores. Como o ciúme de Elis Regina quando Mazzola, entusiasmado, vivia falando de Marina. Ou a luta para implantar em 1980 a gravadora Ariola no Brasil, contratando nomes como Chico Buarque e Milton Nascimento a peso de ouro e apostando em estrelas que começavam a brilhar - caso de Elba Ramalho, que estouraria em 1981 com o forró
Bate Coração. Luta que teve lances dramáticos em outubro de 1981 quando - apesar de todo o sucesso artístico e comercial da nova gravadora - a matriz alemã decidiu fechar a recém-fundada filial brasileira da Ariola e vendê-la para a PolyGram por um dólar... E Mazzola ficou na nova/velha companhia para levantar os ânimos.
Foi em 1981 que Mazzola - sempre político - conseguiu convencer Ney Matogrosso a pôr voz no forró
Homem com H, rejeitado pelo cantor num primeiro momento. A música foi hit em todo o Brasil. Com o mesmo faro, Mazzola fez João Bosco incluir a balada
Papel Machê - feita por Bosco para Zizi Possi - em seu álbum
Gagabirô. Outro hit. Em 1986, já na CBS, Mazzola teria um papel decisivo na construção do fenômeno RPM. Ele produziria o LP
Rádio Pirata ao Vivo, que venderia mais de dois milhões de cópias. Foi na CBS (atual Sony Music) que Mazzola ajudou Simone a ganhar vendas e a perder prestígio em série ruim de álbuns pautados por fórmulas comerciais. E que arregimentaria o violonista Paco de Lucia para fazer um solo em
Oceano (hit de Djavan em 1989). Nessa época, foi Mazzola também que fez a conexão de Paul Simon com o baticum do Olodum, em gravação que daria visibilidade mundial ao grupo baiano a partir do lançamento do álbum
The Rhythms of the Saints, editado por Simon em 1990. A gravação foi uma odisséia.
Em 1989, Mazzola inaugurou o seu estúdio Impressão Digital com equipamentos de última geração e, em 1996, antecipando o
boom de selos
indies que mudariam a face do mercado fonográfico nos anos 2000, ele inaugurou sua gravadora MZA Music, para a qual contratou artistas como Renata Arruda, Chico César, Zeca Baleiro e Rita Ribeiro. Aliás, ao produzir em 1997 o CD
Acústico MTV de Gal Costa, Mazzola incentivaria a cantora a convidar Baleiro para a vitoriosa gravação. Não teve o mesmo sucesso, contudo, ao tentar convencer Baleiro, Chico César e Rita Ribeiro a gravar CD em trio, revelando nas entrelinhas a falta de afinidade entre os três astros. Em contrapartida, obteve êxito no projeto de atrair Martinho da Vila - então desprestigiado na Sony Music - para o elenco da MZA.
Em que pesem os elogios superlativos ao autobiografado, o livro
Ouvindo Estrelas apresenta narrativa envolvente para quem se interessa pelos bastidores da indústria do disco. E teria ainda mais valor se seu texto tivesse passado por uma rigorosa checagem de dados. Mazzola foi traído pela memória em algumas passagens. Na página 121, ele credita a Baden Powell a faixa-título do disco
Essa Mulher, gravado por Elis Regina em 1979 (
Essa Mulher é da lavra de Joyce e Ana Terra. O samba inédito que Baden deu a Elis foi
Cai Dentro). Mais adiante, na página 211, o autor narra a sua alegria ao ver a música
Naquela Estação projetada na trilha da novela global
Renascer, quando, na realidade, o hit do primeiro LP de Adriana Calcanhotto, gravado em 1990, entrou na trilha sonora da novela
Rainha da Sucata (em 1993,
Renascer propagou
Mentiras, o sucesso do segundo disco da cantora gaúcha). Bem mais grave é a atribuição (nas páginas 52 e 53) da letra de
Ouro de Tolo a Paulo Coelho. Raul Seixas compôs sozinho a melodia e a letra da música, lançada em 1973. Contudo, tais lapsos de memória nunca tiram o brilho da narrativa auobiográfica de Marco Mazzola - ele próprio uma estrela por conta de seu domínio técnico e de seu faro para o sucesso. Mazzola lutou, ousou e - sim - já saboreia a glória de ser um dos maiores produtores de discos do Brasil. Ouça a sua estrela.