Caixa '10.000 Anos à Frente' resume bem Raul
Resenha de caixa de CDsTítulo: 10.000 Anos à Frente
Artista: Raul Seixas
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * * * *
A rigor, a caixa 10.000 Anos à Frente nada acrescenta à coleção de quem já comprou as criteriosas reedições dos álbuns gravados por Raul Seixas (1945 - 1989) para a extinta gravadora Philips entre 1973 e 1977. Postas nas lojas pela Universal Music em 2005, para celebrar os 60 anos que o artista baiano teria completado na ocasião, tais reedições remasterizadas - com a adição de faixas-bônus - são exatamente as mesmas que foram embaladas na atual caixa (a rigor, as únicas diferenças são o selo estampado nos CDs e os textos do libreto em que o jornalista Silvio Essinger contextualiza cada um dos seis títulos). Contudo, 10.000 Anos à Frente é ideal para quem quer tomar contato com a obra de Raul porque expõe o supra-sumo dessa obra superestimada. Por ter adquirido aura mitológica, o Maluco Beleza é idolatrado com cegueira por fãs que preferem ignorar o fato de que a discografia do artista foi ficando menos inspirada a partir de 1978, apesar de eventuais acertos. 10.000 Anos à Frente reapresenta os álbuns que justificam o carimbo de artista inovador posto em Raul Seixas. Krig-Ha, Bandolo! (1973), o primeiro álbum de inéditas do artista, é um deles, resistindo bem ao tempo com seu rock embebido em brasilidade. Mosca na Sopa, Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Al Capone e How Could I Know são alguns clássicos que deram ao álbum imediato status de obra-prima e projetaram a música desafiadora de Raulzito, intrusa mosca na sopa conformista da classe média brasileira iludida pelo falso milagre econômico alardeado pelo governo esmagador do presidente Emílio Garrastazu Médici (1905 - 1985). Na sequência, Gita (1974) roça o alto nível de seu antecessor, entre baladas como O Medo da Chuva e O Trem das 7 (esta em rota interiorana que conduz a música aos trilhos do sertão) e rocks como o hino Sociedade Alternativa. Instantâneo hit radiofônico e televisivo, a faixa-título, Gita, exemplificou os caminhos místicos percorridos na época por Raul e seu parceiro, Paulo Coelho. Já no posterior Novo Aeon (1975) Raul voltou a espetar o conformismo da classe média de forma mais aguda. Hino de fé na vida, Tente Outra Vez é a música deste álbum que tem atravessado gerações, mas o repertório é coeso, destacando também É Fim de Mês, Rock do Diabo, A Maçã, Tu És o MDC da Minha Vida (sarcástico flerte com a música dita cafona da época) e, sobretudo, a faixa-título, Novo Aeon, country rock da pesada. Por sua vez, Há Dez Mil Anos Atrás (1976) já sinalizou o desgaste da parceria de Raul com Paulo Coelho, que se dissolveria em breve. Contudo, o estouro imediato da música que inspirou o título do disco, Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás, disfarçou o fato de que a obra de Raul Seixas começava a perder o vigor (embora, no todo, o álbum seja bom). Tanto que, na sequência, o artista antes tão visionário se voltou para o passado do rock'n'roll no viril álbum Raul Rock Seixas (1977), título de covers que tem similaridade com o último CD da caixa, 30 Anos de Rock (1985), que, a bem da verdade, nada mais é do que o primeiro real disco do cantor, pois foi lançado em 1973 com o título de Os 24 Maiores Sucesso da Era do Rock e sem o devido crédito para Raul Seixas, então ainda em busca de um lugar no mercado fonográfico brasileiro. No geral, apesar de um ou outro álbum ser ligeiramente inferior, o conteúdo da caixa 10.000 Anos à Frente traz o supra-sumo da obra inicialmente inovadora de Raul e, por isso, merece cotação e atenção máximas.




































