25 de maio de 2010

Tom Zé 'chupa' atenções da plateia em 'Pirulito'

Resenha de CD e DVD
Título: O Pirulito
da Ciência
Artista: Tom Zé e
Banda ao Vivo
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * * *

Tom Zé sempre se agiganta no palco. É quando cresce também a música inquieta do tropicalista mais fiel à estética da Tropicália. Até porque o já septuagenário baiano de Irará nunca foi cantor no sentido ortodoxo do termo. Em cena, ele é um entertainer que usa da música para dar seu recado, chupando toda as atenções de seu público. Como faz neste registro ao vivo O Pirulito da Ciência, inédito em sua discografia por ser o primeiro CD e DVD de caráter retrospectivo. Conduzido (até certo ponto) pela direção do ex-titã Charles Gavin, Tom Zé resume 40 anos de carreira fonográfica no roteiro que condensa 27 músicas em 24 números. A espiral engloba do disco tropicalista de 1968 - do qual ele rebobina músicas como Parque Industrial e São São Paulo, meu Amor - até o mordaz estudo da bossa apresentado em 2008. Entre um e outro, há Cademar - a experiência com a poesia concreta do parceiro bissexto Augusto de Campos - e toques sobre política e religião, dados através de músicas como Classe Operária e Companheiro Bush, tema de 2003 que Zé, sagaz, emenda no roteiro com Ui! Você Inventa, a pérola feita com Odair Cabeça de Poeta para o antológico álbum Estudando o Samba. E, por falar em religião, Menina Jesus - música do álbum Correio da Estação do Brás (1978) até então esquecida pelo artista - soa como oração tropicalista. Assim como o coro que engrandece o refrão da supra-citada São São Paulo, meu Amor, faixa embalada em atmosfera roqueira. A propósito: pelo fato de o retrospecto ter sido gravado ao vivo em São Paulo (SP), sambas como Augusta, Angélica e Consolação encontram imediata empatia na platéia que compareceu ao Teatro Fecap em 5 e 6 de agosto de 2009. Gente que certamente já conhecia o tom meio anárquico das apresentações de Zé, que conceitua cada música. Menina Amanhã de Manhã, por exemplo, é apresentada como "uma música de amor ainda contaminada pela ditadura" entre louvores ao registro de Mônica Salmaso. "Vamos cantar baixinho e lento como ela cantava", propõe à banda e ao público. O tema faz parte do bloco de canções de amor, montado para "alimentar o contemplativo" desse público - como explica Tom Zé, que inicia o set romântico com Hein? após reger o coro da plateia ao fim de Ogodô, Ano 2000. O artista sabia que o jogo já estava ganho. Mesmo assim, Tom Zé vai além da música e, tal qual um entertainer, conta causo ao fim de Minha Carta e irradia os versos de Neto, Craque da Copa com doses fartas de humor crítico. Com título extraído da letra de Fliperama, música do álbum The Hips of Tradition (1992), O Pirulito da Ciência flagra um artista tão espontâneo quanto verdadeiro na defesa de sua ideologia. Não por acaso, a gravadora Biscoito Fino informa que não foram feitos overdubs no registro ao vivo. Zé se alimenta de suas imperfeições.

1 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

Tom Zé sempre se agiganta no palco. É quando cresce também a música inquieta do tropicalista mais fiel à estética tropicalista. Até porque o já septuagenário baiano de Irará nunca foi cantor no sentido ortodoxo do termo. Em cena, ele é um entertainer que usa da música para dar seu recado, chupando toda as atenções de seu público. Como faz neste registro ao vivo O Pirulito da Ciência, inédito em sua discografia por ser o primeiro CD e DVD de caráter retrospectivo. Conduzido (até certo ponto) pela direção do ex-titã Charles Gavin, Tom Zé resume 40 anos de carreira fonográfica no roteiro que condensa 27 músicas em 24 números. A espiral engloba do disco tropicalista de 1968 - do qual ele rebobina músicas como Parque Industrial e São São Paulo, meu Amor - até o mordaz estudo da bossa apresentado em 2008. Entre um e outro, há Cademar - a experiência com a poesia concreta do parceiro bissexto Augusto de Campos - e toques sobre política e religião, dados através de músicas como Classe Operária e Companheiro Bush, tema de 2003 que Zé, sagaz, emenda no roteiro com Ui! Você Inventa, a pérola feita com Odair Cabeça de Poeta para o antológico álbum Estudando o Samba. E, por falar em religião, Menina Jesus - música do álbum Correio da Estação do Brás (1978) até então esquecida pelo artista - soa como oração tropicalista. Assim como o coro que engrandece o refrão da supra-citada São São Paulo, meu Amor, faixa embalada em atmosfera roqueira. A propósito: pelo fato de o retrospecto ter sido gravado ao vivo em São Paulo (SP), sambas como Augusta, Angélica e Consolação encontram imediata empatia na platéia que compareceu ao Teatro Fecap em 5 e 6 de agosto de 2009. Gente que certamente já conhecia o tom meio anárquico das apresentações de Zé, que conceitua cada música. Menina Amanhã de Manhã, por exemplo, é apresentada como "uma música de amor ainda contaminada pela ditadura" entre louvores ao registro de Mônica Salmaso. "Vamos cantar baixinho e lento como ela cantava", propõe à banda e ao público. O tema faz parte do bloco de canções de amor, montado para "alimentar o contemplativo" desse público - como explica Tom Zé, que inicia o set romântico com Hein? após reger o coro da plateia ao fim de Ogodô, Ano 2000. O artista sabia que o jogo já estava ganho. Mesmo assim, Tom Zé vai além da música e, tal qual um entertainer, conta causo ao fim de Minha Carta e irradia os versos de Neto, Craque da Copa com doses fartas de humor crítico. Com título extraído da letra de Fliperama, música do álbum The Hips of Tradition (1992), O Pirulito da Ciência flagra um artista tão espontâneo quanto verdadeiro na defesa de sua ideologia. Não por acaso, a gravadora Biscoito Fino informa que não foram feitos overdubs no registro ao vivo. Zé se alimenta de suas imperfeições.

25 de maio de 2010 19:30  

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