2 de julho de 2010

Caetano brilha na bela trilha de 'O Bem Amado'

Resenha de CD
Título: O Bem Amado
Artista: Vários
Gravadora: Natasha
/ Universal Music
Cotação: * * * *

Já com estreia nos cinemas brasileiros agendada para 23 de julho de 2010, o filme O Bem Amado tem sua trilha sonora editada em CD antes da entrada em circuito da adaptação cinematográfica do texto de 1962, escrito originalmente por Dias Gomes (1922 - 1999) para o teatro e transformado em 1973 numa novela de sucesso que, por sua vez, originou série exibida pela TV Globo na primeira metade dos anos 80. Composta pela dupla Toquinho & Vinicius, a trilha sonora da novela tem lugar de honra em qualquer antologia do gênero. Assinada por Caetano Veloso com Berna Ceppas e Mauro Lima, a do filme dirigido por Guel Arraes não chega a ter caráter antológico, mas também se situa acima da média do gênero, resistindo muito bem fora da tela. As duas inéditas fornecidas por Caetano figuram entre as melhores músicas feitas pelo compositor - baiano como a fictícia cidade de Sucupira em que se aloca a trama - nos últimos anos. Esta Terra é o grande destaque. Com inspiração, Caetano musicou versos do poeta pernambucano José Almino no compasso qause agalopado do martelo, ritmo nordestino a que recorrem os cantadores e repentistas do Nordeste. Time esperto de músicos jovens - Kassin, Berna, Moreno Veloso, Davi Moraes, Felipe Pinaud - embala o tema com modernidade, deixando Caetano valorizar os versos de Almino, hábil ao retratar terra brasilis em que "reinam as marcas estranhas do destino". Terra que se ajusta ao perfil farsesco da Sucupira de Dias Gomes. Já A Vida É Ruim - a outra inédita de Caetano, ouvida na voz de Zélia Duncan e na versão instrumental que fecha o disco - dialoga de forma inteligente com o universo kitsch da canção sentimental brasileira e do bolero, trilhas de um Brasil interiorano que ignora, feliz, as mudernidades musicais dos grandes centros urbanos. Nesse Brasil interiorano, Carcará (João do Valle e José Cândido) ainda voa firme pelos céus em rota nordestina valorizada na trilha pelo canto épico de Zé Ramalho e pelas programações e efeitos de Berna Ceppas. A faixa traz no coro as cantoras Thalma de Freitas, Nina Becker e Cecília Spyer, trio feminino que ascende ao posto de protagonista no lúdico Jingle do Odorico (Guel Arraes, Jorge Furtado, Kassin e Berna Ceppas). Em maior ou menor dose, esse tom lúdico transparece também no Boogie sem Nome (Mauro Lima) - que marca o reencontro de Leo Jaime com os Miquinhos Selvagem Big Abreu, Bob Gallo e Leandro Verdeal - e nos temas instrumentais Chachacha das Cajazeiras (Kassin) e Cajazeira Tentação (Berna Ceppas). O primeiro evoca com frescor a latinidade dos trópicos. O segundo combina sensualidade e clima de suspense à moda das trilhas de 007. Em tom mais político, Jorge Mautner defende as cores do socialismo nacional em A Bandeira do meu Partido, tema composto e gravado por Mautner. E, por fim, há o único ponto dissonante da seleção musical de O Bem Amado: a regravação de Nossa Canção - música de Luiz Ayrão propagada em 1966 na voz de Roberto Carlos, em pleno reinado da Jovem Guarda - por Mallu Magalhães. Em ascensão evidenciada em seu segundo CD (Mallu Magalhães, 2009), a jovem cantora chega a soar amadora ao interpretar o tema mais romântico da trilha, faixa que poderia até ter apelo popular se a mesma canção já não tivesse sido revivida na última década por Maria Bethânia (em 2001), Vanessa da Mata (em 2003) e Nana Caymmi (em 2009). Descontada a insossa faixa de Mallu, o som da Sucupira 2010 tem tudo para ser amado pelo público, dentro e fora dos cinemas, e pelos fãs antigos de Caetano.

3 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

Já com estreia nos cinemas brasileiros agendada para 23 de julho de 2010, o filme O Bem Amado tem sua trilha sonora editada em CD antes da entrada em circuito da adaptação cinematográfica do texto de 1962, escrito originalmente por Dias Gomes (1922 - 1999) para o teatro e transformado em 1973 numa novela de sucesso que, por sua vez, originou série exibida pela TV Globo na primeira metade dos anos 80. Composta pela dupla Toquinho & Vinicius, a trilha sonora da novela tem lugar de honra em qualquer antologia do gênero. Assinada por Caetano Veloso com Berna Ceppas e Mauro Lima, a do filme dirigido por Guel Arraes não chega a ter caráter antológico, mas também se situa acima da média do gênero, resistindo muito bem fora da tela. As duas inéditas fornecidas por Caetano figuram entre as melhores músicas feitas pelo compositor - baiano como a fictícia cidade de Sucupira em que se aloca a trama - nos últimos anos. Esta Terra é o grande destaque. Com inspiração, Caetano musicou versos do poeta pernambucano José Almino no compasso qause agalopado do martelo, ritmo nordestino a que recorrem os cantadores e repentistas do Nordeste. Time esperto de músicos jovens - Kassin, Berna, Moreno Veloso, Davi Moraes, Felipe Pinaud - embala o tema com modernidade, deixando Caetano valorizar os versos de Almino, hábil ao retratar terra brasilis em que "reinam as marcas estranhas do destino". Terra que se ajusta ao perfil farsesco da Sucupira de Dias Gomes. Já A Vida É Ruim - a outra inédita de Caetano, ouvida na voz de Zélia Duncan e na versão instrumental que fecha o CD - dialoga de forma inteligente com o universo kitsch da canção sentimental brasileira e do bolero, trilhas de um Brasil interiorano que ignora, feliz, as mudernidades musicais dos grandes centros urbanos. Nesse Brasil interiorano, Carcará (João do Valle e José Cândido) ainda voa firme pelos céus em rota nordestina valorizada na trilha pelo canto épico de Zé Ramalho e pelas programações e efeitos de Berna Ceppas. A faixa traz no coro as cantoras Thalma de Freitas, Nina Becker e Cecília Spyer, trio feminino que ascende ao posto de protagonista no lúdico Jingle do Odorico (Guel Arraes, Jorge Furtado, Kassin e Berna Ceppas). Em maior ou menor dose, esse tom lúdico transparece também no Boogie sem Nome (Mauro Lima) - que marca o reencontro de Leo Jaime com os Miquinhos Selvagem Big Abreu, Bob Gallo e Leandro Verdeal - e nos temas instrumentais Chachacha das Cajazeiras (Kassin) e Cajazeira Tentação (Berna Ceppas). O primeiro evoca com frescor a latinidade dos trópicos. O segundo combina sensualidade e clima de suspense à moda das trilhas de 007. Em tom mais político, Jorge Mautner defende as cores do socialismo nacional em A Bandeira do meu Partido, tema composto e gravado por Mautner. E, por fim, há o único ponto dissonante da seleção musical de O Bem Amado: a regravação de Nossa Canção - música de Luiz Ayrão propagada em 1966 na voz de Roberto Carlos, em pleno reinado da Jovem Guarda - por Mallu Magalhães. Em ascensão evidenciada em seu segundo CD (Mallu Magalhães, 2009), a jovem cantora chega a soar amadora ao interpretar o tema mais romântico da trilha, faixa que poderia até ter apelo popular se a mesma canção já não tivesse sido revivida na última década por Maria Bethânia (em 2001), Vanessa da Mata (em 2003) e Nana Caymmi (em 2009). Descontada a insossa faixa de Mallu, o som da Sucupira 2010 tem tudo para ser amado pelo público, dentro e fora dos cinemas, e pelos fãs antigos de Caetano.

2 de julho de 2010 10:10  
Anonymous Anônimo said...

Ainda não ouvi o disco, só as músicas do Caetano e gostei muito de A Vida é Ruim!, linda e abolerada na ótima voz da Zélia Duncan. A música Esta Terra gostei menos, mas é claro que usa um ritmo do Nordeste e tem tudo a ver com a letra de José Almino. Quero muito ver o filme tb, O Bem Amado é um clássico.

6 de julho de 2010 02:02  
Anonymous Anônimo said...

Mauro,não seja injusto e inclua Rosemery entre as que gravaram NOSSA CANÇÃO nessa década pois ela gravou ano passado.

8 de julho de 2010 00:36  

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