22 de dezembro de 2009

Cauby acerta ao cantar Roberto em tons baixos

Resenha de CD
Título: Cauby Interpreta
Roberto
Artista: Cauby Peixoto
Gravadora: Lua Music
Cotação: * * *

Em 2006, quando tinha 75 anos, Cauby Peixoto baixou os tons e abordou o repertório de Baden Powell (1937 - 2000) em um elegante disco gravado com o violão virtuoso de João de Aquino, primo do compositor de Apelo. O CD Cauby Canta Baden passou despercebido. Três anos depois, já com 78 anos, o artista se volta para o repertório de outro compositor, Roberto Carlos, dono de obra mais ajustada ao seu perfil popular. Com aval do autor, Cauby - um dos últimos símbolos vivos da era dourada do rádio brasileiro que precedeu o reinado de Roberto - interpreta em tons suaves 12 músicas da parceria do Rei com Erasmo Carlos. Músicas oriundas - em sua quase totalidade - da década de 70, quando a obra de Roberto oscilou entre os hits de motel, como Os Seus Botões (1976), e as canções de amor triste, caso de Não se Esqueça de mim (1977), entoada por Cauby com a forçosa economia vocal que pauta suas interpretações. Efeitos cruéis do tempo que têm até seu lado bom.

O disco já é em si histórico pelo fato de Roberto ser compositor arisco a esse tipo de projeto. Depois de Maria Bethânia, que em 1993 abordou majestosamente o cancioneiro do Rei no álbum As Canções que Você Fez pra mim, somente padre Marcelo Rossi tinha conseguido tal autorização para disco ao vivo (Paz) feito em 2001 em nome da fé católica. Mesmo distante de seu auge vocal, Cauby honra a deferência do Rei. Não há interpretações definitivas entre as 12 faixas. Contudo, sem excessos, há a feliz reiteração de um estilo consagrado pelo tempo, com direito a algumas ousadias estilísticas. Se o arranjo de A Volta (1966) esboça clima bossa-novista para Cauby entoar os versos ternos da canção lançada pela dupla Os Vips na época da Jovem Guarda, Desabafo (1979) ganha contornos de tango condizente com a dramaticidade da letra. Sugestão do próprio Rei, Olha (1975) talvez seja o maior destaque da seleção pelo tom quase intimista da interpretação de Cauby, como se ele estivesse sussurrando ao ouvido a cantada passada por Roberto e Erasmo na letra. Apenas o piano de Keco Brandão sublinha a voz do cantor. Já o fox Música Suave (1978) ganha apropriado arranjo orquestral de metais (sem pressão) enquanto cordas - arranjadas de maneira convencional - embalam baladas como A Distância (1972), Proposta (1973) e Sentado à Beira do Caminho (1979), única música não associada ao repertório de Roberto, mas ao de Erasmo. Resquícios do canto exacerbado de eras anteriores aparecem aqui e acolá, como nas notas alongadas do verso final da tristonha De Tanto Amor (1971). Afinal, Cauby é Cauby, um rei da voz! Quando o disco acaba, com a interpretação (levemente) empostada de O Show Já Terminou (1973), paira a sensação de que o encontro da voz de Cauby com o cancioneiro romântico de Roberto bem poderia ter acontecido há 20 anos. Ainda assim, apesar de a produção estar aquém do áureo padrão do intérprete, Cauby Interpreta Roberto se revela CD interessante e, sobretudo, coerente com o estilo conservador adotado pelo Rei a partir dos anos 70. Ambos cantam seus amores à moda antiga. Por isso, ambos reinaram na MPB com súditos fiéis.

9 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

Em 2006, quando tinha 75 anos, Cauby Peixoto baixou os tons e abordou o repertório de Baden Powell (1937 - 2000) em um elegante disco gravado com o violão virtuoso de João de Aquino, primo do compositor de Apelo. O CD Cauby Canta Baden passou despercebido. Três anos depois, já com 78 anos, o artista se volta para o repertório de outro compositor, Roberto Carlos, dono de obra mais ajustada ao seu perfil popular. Com aval do autor, Cauby - um dos últimos símbolos vivos da era dourada do rádio brasileiro que precedeu o reinado de Roberto - interpreta em tons suaves 12 músicas da parceria do Rei com Erasmo Carlos. Músicas oriundas - em sua quase totalidade - da década de 70, quando a obra de Roberto oscilou entre os hits de motel, como Os Seus Botões (1976), e as canções de amor triste, caso de Não se Esqueça de mim (1977), entoada por Cauby com a forçosa economia vocal que pauta suas interpretações. Efeitos cruéis do tempo que têm até seu lado bom.

O disco já é em si histórico pelo fato de Roberto ser compositor arisco a esse tipo de projeto. Depois de Maria Bethânia, que em 1993 abordou majestosamente o cancioneiro do Rei no álbum As Canções que Você Fez pra mim, somente padre Marcelo Rossi tinha conseguido tal autorização para disco ao vivo (Paz) feito em 2001 em nome da fé católica. Mesmo distante de seu auge vocal, Cauby honra a deferência do Rei. Não há interpretações definitivas entre as 12 faixas. Contudo, sem excessos, há a feliz reiteração de um estilo consagrado pelo tempo, com direito a algumas ousadias estilísticas. Se o arranjo de A Volta (1966) esboça clima bossa-novista para Cauby entoar os versos ternos da canção lançada pela dupla Os Vips na época da Jovem Guarda, Desabafo (1979) ganha contornos de tango condizente com a dramaticidade da letra. Sugestão do próprio Rei, Olha (1975) talvez seja o maior destaque da seleção pelo tom quase intimista da interpretação de Cauby, como se ele estivesse sussurrando ao ouvido a cantada passada por Roberto e Erasmo na letra. Apenas o piano de Keco Brandão sublinha a voz do cantor. Já o fox Música Suave (1978) ganha apropriado arranjo orquestral de metais (sem pressão) enquanto cordas - arranjadas de maneira convencional - embalam baladas como A Distância (1972), Proposta (1973) e Sentado à Beira do Caminho (1979), única música não associada ao repertório de Roberto, mas ao de Erasmo. Resquícios do canto exacerbado de eras anteriores aparecem aqui e acolá, como nas notas alongadas do verso final da tristonha De Tanto Amor (1971). Afinal, Cauby é Cauby, um rei da voz! Quando o disco acaba, com a interpretação levemente empostada de O Show Já Terminou (1973), paira a sensação de que o encontro da voz de Cauby com o cancioneiro romântico de Roberto bem poderia ter acontecido há 20 anos. Ainda assim, Cauby Interpreta Roberto se revela CD interessante e, sobretudo, coerente com o estilo conservador adotado pelo Rei a partir dos anos 70. Ambos cantam seus amores à moda antiga. Por isso, ambos reinaram na MPB com súditos fiéis.

22 de dezembro de 2009 18:39  
Anonymous Fabrício said...

Esse cd chegou e já sumiu das lojas. Só escuto: tá em falta! Mas, já encomendei e concordo quando você diz que é histórico.

Além da Bethânia e do Padre Marcelo, tivemos o Roberto Leal, em 1999, Sérgio Reis em 2002, Paulo Ricardo em 1997 e Agnaldo Timóteo (não lembro o ano) que fizeram discos com repertório do rei, com composições suas e outras que ficaram imortalizadas em sua voz, nesse período!

Mauro, esperei você comentar sobre a ausência inexplicada de lançamento de disco do Roberto Carlos. Primeiro vinha o cd inédito. Depois, resolveram trocar pelo cd/dvd do Maracanã. E final de ano chegou e nada! Por favor, amigo colunista, se puder nos esclarecer o que aconteceu!

Abraços

22 de dezembro de 2009 21:43  
Blogger Luanda said...

eu sou súdita fiel!
dos dois!rs!
beijos procê,
Lu!

22 de dezembro de 2009 23:13  
Anonymous Anônimo said...

Além da Bethânia e do Padre Marcelo, tivemos o Roberto Leal, em 1999, Sérgio Reis em 2002, Paulo Ricardo em 1997 e Agnaldo Timóteo (não lembro o ano) que fizeram discos com repertório do rei, com composições suas e outras que ficaram imortalizadas em sua voz, nesse período!(2)

+


E aqueles instrumentais do Eduardo Lages e o recente " Elas cantam Roberto "

22 de dezembro de 2009 23:22  
Anonymous Leo said...

Cauby é um rei. Estou lendo a biografia dele, escrita pelo Rodrigo faour, e me surpreendo com a riqueza de suas histórias. Ele é único e, este cd, por si só, já é único.

Salve Cauby!

22 de dezembro de 2009 23:53  
Anonymous Adécio Virginio said...

Caro Mauro,
O Cauby fez dois shows em SP para lançamento deste CD (dias 10 e 18/12). O show foi emocionante. Uma pena ele estar fisicamente debilitado. A voz continua perfeita e única. Parabéns grande Cauby.

23 de dezembro de 2009 00:17  
Anonymous Anônimo said...

Mauro,

Tive a felicidade de conseguir comprar este CD, pois ele é AA3000 (3.000 unidades lançadas) e já sumiu.
Adorei!!

Feliz Natal a todos.

23 de dezembro de 2009 11:34  
Anonymous Anônimo said...

Mauro, adorei seu comentário!
O disco é muito bonito, mas o show é melhor ainda. Cauby é especial ao vivo. Tentei comprar o disco, mas não tem. Que pena! Pois seria um belo presente de natal.

23 de dezembro de 2009 23:38  
Blogger Sandro CS said...

Esse eu vou encomendar (espero conseguir). Ótima (e fundamentada) crítica, Mauro.

19 de janeiro de 2010 18:59  

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