20 de abril de 2009

Tom abolerado esmaece CD de inéditas de Nana

Resenha de CD
Título: Sem Poupar
Coração
Artista: Nana Caymmi
Gravadora: Som Livre
Cotação: * * *

Sem Poupar Coração segue o lero de bolero do último CD de inéditas de Nana Caymmi, Desejo, editado em 2001. Em ótima forma vocal, a cantora entoa um repertório excessivamente romântico, de tom excessivamente abolerado. Por conta da fórmula seguida pela previsível produção de José Milton e pelos arranjos de Dori Caymmi, o álbum não se impõe como um dos melhores da cantora. Contudo, o disco soa sublime quando consegue sair do repetitivo universo abolerado. Há, pelo menos, dois grandes registros que estão à altura da produção áurea da intérprete. Senhorinha - a modinha de Guinga e Paulo César Pinheiro que já mereceu gravações de Mônica Salmaso e Zezé Gonzaga (1926 - 2008) - tem toda sua beleza imperial realçada pela voz de Nana, emoldurada por lindo arranjo de Cristovão Bastos que harmoniza o violão de João Lyra com o violino de Daniel Guedes e o cello de Yuri Ranevsky. Já Violão (Sueli Costa e Paulo César Pinheiro) ganha clima mais seresteiro com outro inspirado arranjo de Bastos que combina bandolim com o violão de Lyra e o sete cordas pilotado pelo virtuoso Rogério Caetano. Luxo só! Sintomaticamente, as duas melhores faixas do disco são músicas antigas, só que, dentre a safra de inéditas, vale destacar Caju em Flor (João Donato e Cristovão Bastos). A sanfona tocada por Cristovão Bastos e a viola de João Lyra dão um tom ligeiramente interiorano ao bonito tema. Um alento num mar de boleros como Contradições (Cristovão Bastos e Aldir Blanc, dupla que não consegue reeditar a inspiração de Resposta ao Tempo, bolero que deu título a álbum mais coeso de Nana) e Dúvida (Márcio Ramos). Boleros que soam parecidos com sambas-canções como Bons Momentos (Zé Luiz Lopes e Márcio Proença). Até Fora de Hora, samba-canção de Dori com Chico Buarque, brilha menos nesse clima. Dentro desse abolerado viés sentimental que domina o CD, a faixa-título, Sem Poupar Coração, se destaca pela inspiração dos autores, Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro. Esmeraldas (Rosa Passos, em bossa feita com Fernando Oliveira) e Pra Quem se Ama Demais (Fátima Guedes) também ostentam a grife fina das autoras. Já Diamante Rubi - maracatu de Alice Caymmi, sobrinha de Nana - se diferencia pela brasilidade bissexta. Com o detalhe curioso de as flautas tocadas por Danilo Caymmi e Ricardo Pontes remeterem aos arranjos feitos por Dori Caymmi para a trilha sonora da novela Gabriela, em 1975. A curiosidade é maior pelo fato de a faixa ter sido arranjada pelo pianista Itamar Assiere, e não por Dori. No fim, a regravação de Não se Esqueça de mim (Roberto e Erasmo Carlos) - refeita em dueto com o Tremendão para a trilha da novela Caminho das Índias, tal como no álbum Resposta ao Tempo (1998) - traduz o sentimento de dèjá vu que paira após a audição do disco. Por mais que a voz de Nana continue poderosa, ela precisa se soltar dessa camisa-de-força que a própria cantora estaria lhe pondo. Senhorinha e Violão sinalizam que Nana Caymmi continua pronta para voos artísticos (muito) mais altos. Nem tudo, afinal, é bolero.

36 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Amo Nana !
Amo Bethânia !

mas Jaime Além e José Milton ....

20 de abril de 2009 14:49  
Anonymous AGLUS said...

AI MAURO DEIXA A NANA E SEUS BOLEROS !!!

VOCÊ DIZ : " ela precisa se soltar dessa camisa-de-força lhe (im)posta por produtor e arranjadores "


QUERO VER VOCÊ FALAR ISSO NUMA RESENHA SOBRE MARIA BETHÂNIA E ROBERTA SÁ!!!

20 de abril de 2009 15:25  
Anonymous Anônimo said...

Que beleza! Vou correndo comprar o meu.

20 de abril de 2009 15:29  
Anonymous Anônimo said...

Bela crítica. Há produtores jovens que poderiam produzi-la sem esse universo de boleros e afins.

20 de abril de 2009 15:38  
Anonymous Anônimo said...

Nana tinha que ampliar seus horizontes e dar um tempo nesse Jose Milton. E o pior que o proximo só daqui a anos...

20 de abril de 2009 16:40  
Anonymous Cris Carriconde said...

Senhorinha é uma das músicas mais lindas que conheço. Tem também uma versão instrumental no primeiro disco do Zé Nogueira que é muito bonita. Adoro a Nana. Estou louca pra ouvir.

20 de abril de 2009 17:48  
Anonymous Odimar said...

A voz de Nana é o grande brilho deste cd. Muito boa resenha Mauro, tirados uns 2 boleros desnecessários e em seus lugares uns dois temas gostosos e brejeiros como "Rubi" e o disco estaria muito melhor. Pra mim os grandes momentos deste disco são "Confissão" (Já bem abordado por Simone Guimarães e Dori Caymmi) e "Violão" (que encontrou em Nana sua melhor intérprete até hj), "Esmeraldas" também cai como luva no universo de Nana. Quanto a "Senhorinha" gostei muito da versão de Nana, porém ainda prefiro a da Mônica Salmaso, e "Fora de hora" teve em Joyce uma intérprete inspiradíssima ficando difícil para outros/as. Concordo plenamente com vc quanto aos arranjadores... Nana precisa de uma repaginada que faça jus a sua voz que soa bela e extremamente delicada neste bom cd.

20 de abril de 2009 17:56  
Anonymous Anônimo said...

Nana é pra poucos, muito poucos. Quem adora Daniela Mercury e afins , jamais entenderá o canto e a emoção de uma Nana Caymmi. Acho que Nana pudesse fazer algo do nível do disco Mudança dos Ventos seria formidável. Eram arranjos criativos, variados e bem felizes.

20 de abril de 2009 18:31  
Anonymous Fabiano said...

Falam mal do Zé Milton sem saber que é ele que luta por nana nas gravadoras, ou vcs acham que as gravadoras disputam a Nana?

20 de abril de 2009 18:42  
Anonymous Anônimo said...

Adoro Daniela Mercury e tb Nana Caymmi, cada uma de forma diferente. Vou correndo comprar Nana! E Viva a diversidade!!!!

20 de abril de 2009 19:16  
Anonymous Anônimo said...

Mauro acertou quando diz que o problema é produtor e arranjadores.Cabe a eles e não a cantora serem mais inventivos.Dori so trabalhou bem com a Nana quando morava aqui.Elabora agora arranjos parecendo apressados,burocráticos e com explicita falta de boa vontade e carinho com sua mana.Vejo falta de músicos geniais comp Helio Delmiro,João Donato,Toninho Horta,Novelli,Milton Nascimento que deslocavam Nana do universo abolerado excessivo que ela tende a se inclinar.Nana é melhor quando é levada a desafios próximos do improviso e da criatividade jazzista.E falta muito Minas neste CD!P.S.José Milton entrega a Nana para outro,please!

20 de abril de 2009 20:19  
Anonymous Anônimo said...

O problema do Ze Milton é o lugar comum. Se a carreira da Nana está atrelada a ele, sinto por ela. Ela é capaz de fazer muito mais do que boleros. Manda ela abrir a boca com canções do Milton , Ivan ou Tom. Não tem pra ninguém...

20 de abril de 2009 20:36  
Anonymous Anônimo said...

Então,Mauro acho que o problema não é o "Bolero",mas a forma que os arranjadores trabalham o estilo.Não estão demonstrando satisfação em inovar ou dar novo brilho ao estilo.Cristovão esta interessado em raízes brasileiras e Dori num eterno auto-exílio em fazer música brasileira com jazzitas americanos.E Nana não deveria trabalhar com um produtor que não é um músico.Tende a se acomodar.

20 de abril de 2009 20:39  
Anonymous Anônimo said...

Zé Milton é um produtor que ficou no tempo. Produziu muito bem Cauby, Angela e Nelson Gonçalves. O tempo passou e ele não acompanhou a evolução. Ele é amigo da Nana, por isso é o produtor dela.

20 de abril de 2009 21:28  
Anonymous Anônimo said...

Nana pode tudo e acho engraçado criticarem Dori. Parece que ele tinha opção. Aqui no seu país não reconheciam sua genialidade e agora reclamam ou mandam indiretas quando ele está onde deve estar: em lugares onde haja ouvintes que captem sua musicalidade ímpar. Haja é "money" para manter a coleção em dia.
NANA: Já comprei, ainda não ouvi mas atrevo-me a dizer que deve ser mais um disco maravilhoso.

20 de abril de 2009 23:59  
Anonymous Anônimo said...

Até errando Nana acerta. Já é do time da MPB que pode tudo. O seu errado é muito melhor do muito certo por aí.

21 de abril de 2009 00:02  
Blogger Mauro Ferreira said...

Aviso aos navegantes: refiz o texto da resenha porque acabo de conversar com Nana e a própria me garantiu que a opção pelo tom abolerado do disco foi dela, e não do produtor José Milton e dos arranjadores. E ainda acrescentou que o próprio Dori tinha pensado numa leitura diferente para as músicas de sua autoria. Como Nana prima pela sinceridade, reconstruí o texto nas partes em que responsabilizava o produtor pelo que, na minha opinião, é um traço negativo do disco. A opinião continua a mesma - expressada tanto no texto como na minha conversa com Nana - mas achei justo refazer a resenha pela razão já mencionada. Vale, portanto, o texto que ora está no ar.

21 de abril de 2009 12:35  
Anonymous Anônimo said...

Minha idolatrada Nana, vou dançar bolero ou cair na fossa até cansar.
Podias ter chamado o Luis Miguel para um dueto - só para encher o saco dos críticos de plantão, os que nunca estão satisfeitos com porra nenhuma. GENTE CHATA A GENTE TRATA QUE NEM A BETHÂNIA... MANDA PASSEAR - NO MÍNIMO!
O "mano" Dori já recebeu uma bela defesa aqui mas é bonito ver que um artista como ele - aliás, que família abençoada - sabe respeitar opiniões alheias. Falta este tipo de humildade em muito que se dizem "Mestres" por aí - aliás, por aqui mesmo, neste bendito "blog".
BEIJO NO CORAÇÃO DE UM FÃ DE PLANTÃO!

21 de abril de 2009 12:46  
Anonymous Anônimo said...

Comprei o CD, já ouvi 3 vezes. Neste feriadão só deu Nana na minha virola. Deixei rolar direto e digo que adorei!

21 de abril de 2009 18:48  
Anonymous Anônimo said...

Objetivo alcançado, né Mauro. Você escreve justamente para isso : para chamar atenção do artista e virar o assunto. Mesmo assim: resenha coerente.

21 de abril de 2009 20:39  
Anonymous Léo said...

"Quem adora Daniela Mercury e afins..."
Pensei que o assunto do tópico fosse Nana Caymmi. Não entendo esse povo que não consegue exaltar uma cantora sem dimunuir outra.
É bom ser fã, mas de uma forma saudável.

21 de abril de 2009 21:17  
Anonymous Anônimo said...

Violão e Senhorinha são as pérolas mais belas do cd.

22 de abril de 2009 00:05  
Anonymous Carlinhos said...

Nana podia ter chamado o Luis Miguel para um dueto - só para encher o saco dos críticos de plantão! (02)

22 de abril de 2009 09:26  
Anonymous Anônimo said...

Mauro,Nana desde sempre tendeu ao bolero.Era a musica pop dela e de toda uma geração e inclusive toda turma da Bossa Nova e João Gilberto.É um ritmo riquíssimo e de tantas possibilidades que muito mais que o samba tomou conta do mundo.Toninho Horta sempre se queixou de Nana abolerar sua música,apesar de considerá-la maior intérprete de sua obra e do país.Dori morando fora não tem mais oportunidade de articular os músicos genias que identificava como dantes e um convencimento sutil a Nana,o que levaria tempo,de que deslocar um pouco de bolero convensional seria muito mais interessante e rico para amúsica todos.Dori faz falta para Nana no dia a dia.Nana é um músico e precisa respirar música,ensaiar e trocar figurinhas constantes com quem elabora a concepção da mesma.É um exercício contínuo.Mas sinto que mesmo asssim Dori não tem tido o carinho e a atenção para artista que realmente o peitou e acreditou nele quando trabalhou por aqui.Aliás sempre foi da atitude e caráter de Nana se responsabilizar por tudo mesmo quando não tem culpa.O Tarso de Castro dizia que ela é "o único homem da família",rsrs!Nana é um ser especial,um colosso de humanidade e talento.Nana é o máximo!

22 de abril de 2009 11:18  
Anonymous Anônimo said...

Independente da "imposição de Nana",na mina opinião,os arranjos de Dori são muito fracos e pouco criativos.

22 de abril de 2009 12:06  
Anonymous Anônimo said...

Nana podia ter chamado o Luis Miguel para um dueto - só para encher o saco dos críticos de plantão! (3).
ADOREI!!!!

22 de abril de 2009 18:33  
Anonymous Anônimo said...

Ouvi também e estou dançando e abolerado até agora. Aliás, deixa eu ouvir de novo.

22 de abril de 2009 20:31  
Anonymous Anônimo said...

Desculpa,mas concordo com o Mauro.E ainda mais:acho determinados boleros muito cafonas.
O bom gosto tem que estar acima de tudo.Mesmo com a Nana eu acho demais.É um perigo bolero mal produzido.Fica feio e cafona.Não escutei esse disco da Nana e nem vou escutar.Cansei de boleros.Sempre a mesma coisa.....

22 de abril de 2009 22:51  
Anonymous Anônimo said...

Agora é aguardar o tão esperado show de lançamento do cd da queridíssima Nana Caymmi.
Sem poupar meu coração.

22 de abril de 2009 23:02  
Anonymous Anônimo said...

OUVI E APROVEI, QUE BOM QUE NÃO ERREI.

24 de abril de 2009 22:14  
Anonymous Anônimo said...

EU TAMBÉM!
Ah... uma das salvações do triste repertório musical de 85 para cá é justamente "Resposta ao Tempo". UM BOLERO! E CANTADO POR NANA! Não sei o porquê de tanto alvoroço.

Amanhã vão criticar Beth Carvalho por cantar só samba (!?) ou os Paralamas por cantarem só POP (!?).

É cada uma...

25 de abril de 2009 14:26  
Anonymous Anônimo said...

Citaram Luis Miguel aqui. Este rapaz gravou um dos melhores discos de sua carreira e do mercado justamente quando mandou "La Barca", "No se Tu" e outros belos boleros para o MUNDO inteiro ouvir. Depois disso sua carreira tomou outras dimensões e deixou de ser um Galãzinho Pop-Latino qualquer. Qual o problema com o bolero ? - bem cantado, claro. Armando Manzzanero é uma porcaria também ?

25 de abril de 2009 21:07  
Anonymous Isaac Oliveiro said...

Nana Canta como nunca!
Não é todo ano que se pode ter um cd como este nas lojas. É um lindo disco sim!
Boleros como só ela sabe executar!
Adora essa respiraçao meio cansada que só ele tem. Sem falar no repertório apaixonado e coerente com o que ela sempre cantou.

Coerente e emocionada! Viva a Nana!

26 de abril de 2009 12:15  
Anonymous Anônimo said...

Prezado Isaac, acho que descobriste a fórmula. Gostei da citação quanto à respiração. Sempre que ouço Nana - e ouço muito - fico tentando encontrar uma palavra para definir o que faz a sua diferença. Temos maravilhosas cantoras - até mais afinadas ou com vozes mais "clássicas" - mas "respirando" como Nana é que é o achado.
VALEU!

26 de abril de 2009 14:53  
Anonymous Anônimo said...

Trecho da entrevista de Nana Caymmi na revista Época desta semana.

"Nana - O bolero nada mais é que um samba canção. E é o que sinto bem em cantar. Podem falar mal de mim por isso, não estou nem aí (risos). Na música, sinceramente, não tem nada novo para se mostrar. Prefiro me calcar na poesia, na melodia. Aliás, acho que as duas únicas cantoras que se preocupam com isso hoje em dia sou e a Maria Bethânia."

26 de abril de 2009 15:57  
Anonymous Anônimo said...

Concordo com a maioria.Há preconceito e xenofobia em relação ao bolero.Até Rita Lee foi muito criticada quando ficou anos ligada a ele,justamente na fase mais popular de sua carreira.O disco de Nana é lindo.Esta cantando demais num bom repertório.Cristovão Bastos esta de parabens pelos arranjos.Dori merece um puxão de orelha pela convencionalidade.Já bem foi mais criativo.

27 de abril de 2009 08:31  

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