24 de outubro de 2010

Legend evoca raiz social do soul em 'Wake Up!'

Resenha de CD
Título: Wake Up!
Artista: John Legend & The Roots
Gravadora: Sony Music
Cotação: * * * * 1/2
John Legend se revelou fino estilista das tradições do soul e do r & b ao despontar no mercado fonográfico com o álbum Get Lifted (2004) - bela impressão confirmada no posterior Once Again (2006). Só que Legend já vinha banalizando seu som a partir do terceiro álbum de estúdio, Evolver (2008) - a ponto de ter aceitado convite da gravadora Sony Music para fazer um dueto despudoradamente pop com Ana Carolina no último álbum de estúdio da artista, N9ve. Contudo, Legend volta para sua trilha original ao desencavar a raiz sócio-política do soul e do funk dos anos 60 e 70 em Wake Up! - o esplêndido álbum gravado e assinado pelo artista com o The Roots, grupo norte-americano ligado ao universo do hip hop. Gestado em 2008, durante a campanha eleitoral que transformou Barack Obama no primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Wake Up! traz somente uma música inédita, Shine. O restante do repertório é formado por joias recolhidas sem obviedade no baú áureo da soul music. São petardos como Compared to What (Eugene McDaniels), inflamado protesto contra a Guerra do Vietnã, propagado em 1969 pelo cantor e pianista Les McCann em registro feito com o saxofonista Eddie Harris. Legend e The Roots lustram tais pérolas com respeito à sonoridade das gravações originais, mas sem uma devoção extrema que poderia fazer de Wake Up! um álbum fora de sintonia com os dias de hoje. A adesão do rapper Common no soul Wake Up Everyody - lançado por Harold Melvin & The Blue Notes - é um exemplo de como o disco se ajusta aos sons atuais sem prejuízo estético e sem traição aos valores sonoros dos tempos de guerra que inspiraram este trabalho cheio de energia, vigor, ideias e ideais sócio-políticos. Alinhados, fortes temas dos repertórios de Marvin Gaye (Wholy Holy, com bom arranjo de cordas), Donny Hathaway (Little Ghetto Boy), Baby Huey and the Babysitters (Hard Times, o petardo que faz o ouvinte despertar para a força de Wake Up! logo na primeira das 12 faixas) evocam tempos em que um álbum poderia ser uma poderosa arma de conscientização do público que não queria lavar aos mãos. Por isso mesmo, Wake Up! soa tão poderoso numa época em que a música resulta cada vez mais artificial e vazia de ideias e de ideais.

1 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

John Legend se revelou fino estilista das tradições do soul e do r & b ao despontar no mercado fonográfico com o álbum Get Lifted (2004) - bela impressão confirmada no posterior Once Again (2006). Só que Legend já vinha banalizando seu som a partir do terceiro álbum de estúdio, Evolver (2008) - a ponto de ter aceitado convite da gravadora Sony Music para fazer um dueto despudoradamente pop com Ana Carolina no último álbum de estúdio da artista, N9ve. Contudo, Legend volta para sua trilha original ao desencavar a raiz sócio-política do soul e do funk dos anos 60 e 70 em Wake Up! - o esplêndido álbum gravado e assinado pelo artista com o The Roots, grupo norte-americano ligado ao universo do hip hop. Gestado em 2008, durante a campanha eleitoral que transformou Barack Obama no primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Wake Up! traz somente uma música inédita, Shine. O restante do repertório é formado por joias recolhidas sem obviedade no baú áureo da soul music. São petardos como Compared to What (Eugene McDaniels), inflamado protesto contra a Guerra do Vietnã, propagado em 1969 pelo cantor e pianista Les McCann em registro feito com o saxofonista Eddie Harris. Legend e The Roots lustram tais pérolas com respeito à sonoridade das gravações originais, mas sem uma devoção extrema que poderia fazer de Wake Up! um álbum fora de sintonia com os dias de hoje. A adesão do rapper Common no soul Wake Up Everyody - lançado por Harold Melvin & The Blue Notes - é um exemplo de como o disco se ajusta aos sons atuais sem prejuízo estético e sem traição aos valores sonoros dos tempos de guerra que inspiraram este trabalho cheio de energia, vigor, ideias e ideais sócio-políticos. Alinhados, fortes temas dos repertórios de Marvin Gaye (Wholy Holy, com bom arranjo de cordas), Donny Hathaway (Little Ghetto Boy), Baby Huey and the Babysitters (Hard Times, o petardo que faz o ouvinte despertar para a força de Wake Up! logo na primeira das 12 faixas) evocam tempos em que um álbum poderia ser uma poderosa arma de conscientização do público que não queria lavar aos mãos. Por isso mesmo, Wake Up! soa tão poderoso numa época em que a música resulta cada vez mais artificial e vazia de ideias e de ideais.

24 de outubro de 2010 12:23  

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