15 de fevereiro de 2010

Coletânea expõe industrialização da folia baiana

Resenha de CD
Título: We Are Bahia
60 Anos de Trio Elétrico
25 Anos de Axé Music
Artista: Vários
Gravadora: Universal
Music
Cotação: * * * 1/2

O industrializado Carnaval da Bahia ganhou forte injeção de marketing e visibilidade nacional com a explosão da hoje diluída axé music. O marco inicial do afro-pop baiano foi Fricote, parceria de Luiz Caldas e Paulinho Camafeu, lançada por Caldas em 1985. Fricote é - não por acaso - uma das 20 músicas selecionadas por Carlos Savalla e Alice Soares para a compilação We Are Bahia, recém-lançada pela Universal Music no embalo da folia de 2010, ano emblemático para o Carnaval baiano, já que são festejados simultaneamente os 60 anos do trio elétrico - foi em 1950 que os pioneiros Dodô e Osmar desfilaram com a seminal Fobica - e os 25 anos da axé music, tomando-se como ponto de partida o estouro de Fricote, hit aparentemente ouvido na coletânea no registro original de 1985 e não na gravação ao vivo de 2005 (como diz a ficha técnica). E o fato é que o CD We Are Bahia - o inapropriado título em inglês é extraído do tema We Are the World of Carnaval, ouvido com Netinho - cumpre bem a função de resumir em 20 faixas momentos marcantes da axé music, inclusive porque a Universal Music obteve licença para usar fonogramas de outras gravadoras. Estão reunidas no disco músicas emblemáticas como Pombo Correio (sucesso de Moraes Moreira na fase pré-axé, gravado em 1975 - e não em 1972 como grafa erroneamente a ficha técnica), Madagascar Olodum (hit da efêmera e fabricada Banda Reflexu's que marcou por ser a primeira versão eletrificada de um tema de bloco afro), Swing da Cor (o samba-reggae que catapultou Daniela Mercury ao estrelato nacional em 1991), Milla (na irresistível gravação ao vivo que fez Netinho vender dois milhões de CDs em 1996 e que abriu caminho para a diluição da axé music em sucessivos e redudantes registros de shows), Água Mineral (exemplo do curto reinado da Timbalada na folia dos anos 90), Gritos de Guerra (um dos maiores sucessos do resistente grupo Chiclete com Banana) e Dandalunda (último expressivo hit nacional de Margareth Menezes, gravado em 2001). Embora editada sem o devido capricho (Liberar Geral, do Terra Samba, aparece grafada como Liberar 'Gera' no encarte), a coletânea monta um painel fiel à estética que norteia hoje a música baiana. Bandas fabricadas que estouraram e saíram anos depois da linha de montagem (casos de É o Tchan e Terra Samba) convivem na coletânea com Ivete Sangalo, diva da folia baiana já há mais de uma década. Ivete é representada na seleção por registro ao vivo do samba-enredo Sorte Grande. Contudo, há equívocos na escolha do repertório. Não há razão, por exemplo, para a banda Cheiro de Amor figurar em duas faixas (Auê e Quixabeira) enquanto grupos afros como Olodum e Ara Ketu foram omitidos. No todo, quando o disco se encerra com o frevo Atrás do Trio Elétrico, na gravação pré-histórica de Caetano Veloso feita em 1969, We Are Bahia deixa saldo positivo para quem se permite ouvir sem preconceito a efervescente música pop produzida no (hoje batido) solo baiano.

9 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

O industrializado Carnaval da Bahia ganhou forte injeção de marketing e visibilidade nacional com a explosão da hoje diluída axé music. O marco inicial do afro-pop baiano foi Fricote, parceria de Luiz Caldas e Paulinho Camafeu, lançada por Caldas em 1985. Fricote é - não por acaso - uma das 20 músicas selecionadas por Carlos Savalla e Alice Soares para a compilação We Are Bahia, recém-lançada pela Universal Music no embalo da folia de 2010, ano emblemático para o Carnaval baiano, já que são festejados simultaneamente os 60 anos do trio elétrico - foi em 1950 que os pioneiros Dodô e Osmar desfilaram com a seminal Fobica - e os 25 anos da axé music, tomando-se como ponto de partida o estouro de Fricote, hit aparentemente ouvido na coletânea no registro original de 1985 e não na gravação ao vivo de 2005 (como diz a ficha técnica). E o fato é que o CD We Are Bahia - o inapropriado título em inglês sinaliza tratar-se de lançamento dirigido mais para o exterior do que para o Brasil - cumpre bem a função de resumir em 20 faixas momentos marcantes da axé music, inclusive porque a Universal Music obteve licença para usar fonogramas de outras gravadoras. Estão reunidas no disco músicas emblemáticas como Pombo Correio (sucesso de Moraes Moreira na fase pré-axé, gravado em 1975 - e não em 1972 como grafa erroneamente a ficha técnica), Madagascar Olodum (hit da efêmera e fabricada Banda Reflexu's que marcou por ser a primeira versão eletrificada de um tema de bloco afro), Swing da Cor (o samba-reggae que catapultou Daniela Mercury ao estrelato nacional em 1991), Milla (na irresistível gravação ao vivo que fez Netinho vender dois milhões de CDs em 1996 e que abriu caminho para a diluição da axé music em sucessivos e redudantes registros de shows), Água Mineral (exemplo do curto reinado da Timbalada na folia dos anos 90), Gritos de Guerra (um dos maiores sucessos do resistente grupo Chiclete com Banana) e Dandalunda (último expressivo hit nacional de Margareth Menezes, gravado em 2001). Embora editada sem o devido capricho (Liberar Geral, do Terra Samba, aparece grafada como Liberar 'Gera' no encarte), a coletânea monta um painel fiel à estética que norteia hoje a música baiana. Bandas fabricadas que estouraram e saíram anos depois da linha de montagem (casos de É o Tchan e Terra Samba) convivem na coletânea com Ivete Sangalo, diva da folia baiana já há mais de uma década. Ivete é representada na seleção por registro ao vivo do samba-enredo Sorte Grande. Contudo, há equívocos na escolha do repertório. Não há razão, por exemplo, para a banda Cheiro de Amor figurar em duas faixas (Auê e Quixabeira) enquanto grupos afros como Olodum e Ara Ketu foram omitidos. No todo, quando o disco se encerra com o frevo Atrás do Trio Elétrico, na gravação pré-histórica de Caetano Veloso feita em 1969, We Are Bahia deixa saldo positivo para quem se permite ouvir sem preconceito a efervescente música pop produzida no (hoje batido) solo baiano.

15 de fevereiro de 2010 11:08  
Blogger Mario said...

Posta as faixas!

15 de fevereiro de 2010 12:49  
Anonymous Anônimo said...

Tem uns equóvocos nessa resenha, Mauro, que atribuo ao fato de vc não viver na bahia. O título do CD não tem nada a ver com mercado internacional. É uma alusão à música tema da Axé Music, gravada nos anos 90 por um elenco de estrelas baianas, entre elas daniela, Asa de Águia, etc, que tinha o refrão "We are carnaval, we are we are folia, we are we are the world of carnaval, we are Bahia". Era uma peça publicitária, salvo engano, composta por Nizan Guanaes, e já foi regravada por um monte de grupos e cantores de Axé depois.

Outro equívoco tremendo e dizer que a Banda Reflexu's foi fabricada. Se tem alguma banda da música baiana que não foi fabricada, essa banda foi a Reflexu's, que se não durou foi exatamente pq é anterior ao boom da Axé Music dos anos 90 e não tinha total apoio das gravadoras (leia-se: jabá). Ou talvez pq sua vocalista, Marinês, tenha se tornado evangélica e partido para outra vida.

E não vejo nenhuma dificuldade de entender pq duas músicas da Banda Cheiro de Amor: uma é na fase com Márcia Freire, outra na fase com Carla Visi. Duas vocalistas (totalmente) diferentes, portanto praticamente outro grupo.

Não sou especialmente fã de Axé Music, salvo talentos inconstestes como o de Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Carlinhos Brown e Margareth menezes. Mas, por viver na Bahia e ouvir essas coisas desde criança, quer goste, quer não, acho que dá pra ter um conhecimento de causa mais profundo...

15 de fevereiro de 2010 12:52  
Blogger Mauro Ferreira said...

Mario, Notas Musicais é um blog de informação e opinião sobre música. Não posto faixas e tampouco links para sites e blogs que oferecem música na rede de forma ilegal. Ao anônimo, grato pelo esclarecimento da origem do título, pois tal tema não chegou com força ao Rio. Quanto à banda Reflexus,continuo com minha opinião. Abs, MauroF

15 de fevereiro de 2010 13:03  
Anonymous Anônimo said...

A anônimo, como baiano, falou com conhecimento de causa.
Essa banda Reflexus era uma que a vocalista cantava descalça e teve um hit chamado Senegal?
Se for, me parecia espontânea e não criada de forma fake.
Mauro, frescura total não linkar músicas.
Repense, o tempo é que nem cobra, só anda pre frente.

15 de fevereiro de 2010 15:35  
Blogger Zaira said...

Mauro você não sabe nada de nossa história e de nossa música ... por mais que você estude, pesquise, você teria que nascer aqui e esse seu tempo já passou ... Ó Pá Ih Ó Ah... venha para o carnaval do próximo ano os baianos irão lhe receber muito bem...

15 de fevereiro de 2010 21:54  
Blogger Wagner Hardman Lima said...

Mauro, discordo de vc. A banda Reflexus ecoou no Nordeste de forma tão profunda e tão impactante que ainda hoje as músicas da banda tocam pq fase parte de uma fase seminal do axé. Banda Reflexus, Banda Mel e Chiclete com Banana foram as que estouraram mais forte em 85 depois de Luiz Caldas.

Reflexus pelo muito que tocou nas rádios foi por mérito próprio e as músicas ainda fazem sucesso hj em dia sendo cantadas ou regravadas por daniela, ivete, etc.

Ai no Sudeste pode ter surgido a ideia de fabricada. Aqui no Nordeste onde surgiu a Reflexus marcou época na música da região e deixou muitas saudades.

Saudades também de quando Chiclete com banana tinha uma ligação forte com os cantos afro, como no disco Fissura ou dos ritmos nordestinos até virar essa coisa patética de toda letra falar de "chicleteiro ê, chicleteira ô". Uma grande banda a serviço do nada hj

16 de fevereiro de 2010 05:33  
Anonymous Leo said...

no meio deste carnaval meus amigos e eu ficamos fazendo uma listas com canções de carnaval da Bahia.

goste ou não, o carnaval baiano existe e deve ser respeitado.

ps: acho que a lista a que o anônimo se refere são os nomes, autores e cantores das canções do cd.

abraço Mauro!

17 de fevereiro de 2010 13:26  
Blogger Márcio said...

Zaira, temos que fazer as devidas ressalvas. Mesmo não tendo acesso a algumas informações sobre música baiana, Mauro Ferreira é - disparado - o jornalista da grande imprensa que mais escreve sobre o tema. A maioria dos que atuam no eixo Rio-São Paulo tem grande preconceito com o gênero ou simplesmente o ignoram, o que não é o caso do titular deste blog.

A seleção do CD é boa, mesmo com algumas omissões (para mim a principal é a ausência de "Baianidade Nagô", com a Banda Mel). A falta de informações corretas na capa e no encarte não espanta, já que é quase padrão em coletâneas lançadas no Brasil, seja qual for o gênero musical. Quanto à Banda Reflexus, certamente não foi uma armação. Seu sucesso foi imenso, vendendo inimagináveis (para os dias de hoje) 700 mil cópias do primeiro LP. Me recordo de minha surpresa quando, de passagem pelo Rio em 1986, vi um cartaz anunciando que o grupo se apresentaria no Canecão, que naquela época não abria as portas para qualquer um. Depois li a crítica do show, e me surpreendi de novo, ao saber que tinha sido casa cheia!

Para quem pediu, segue a relação das músicas do CD:

1. Chame Gente - Trio Elétrico Armandinho,Dodô & Osmar, Caetano Veloso e Moraes Moreira
2. Fricote - Luiz Caldas
3. Swing da Cor - Daniela Mercury
4. Milla - Netinho
5. Gritos de Guerra - Chiclete com Banana
6. Auê - Banda Cheiro de Amor
7. Madagascar Olodum - Banda Reflexus
8. É o Tchan Medley: Pau que Nasce Torto/ Melô do Tchan - É o Tchan
9. Liberar Geral - Terra Samba
10. Bota Pra Ferver - Asa de Águia
11. Peraê - Banda Beijo
12. Quixabeira - Banda Cheiro de Amor
13. Amor Perfeito - Babado Novo
14. Dandalunda - Margareth Menezes
15. Adeus Bye Bye - Banda Eva
16. Água Mineral - Timbalada
17. Sorte Grande - Ivete Sangalo
18. Prefixo de Verão/ We Are the Word of Carnaval/ Um Frevo Novo - Netinho
19. Pombo Correio - Moraes Moreira
20. Atrás do Trio Elétrico - Caetano Veloso

17 de fevereiro de 2010 18:30  

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