19 de março de 2009

Caixa embala o canto áureo da 'cigarra' Simone

Resenha de Caixa de CDs
Título: O Canto da Cigarra nos Anos 70
Artista: Simone
Gravadora: EMI Music
Cotação: * * * * 1/2

Por conta de erros na condução de sua trajetória fonográfica na década de 80, Simone perdeu prestígio e ganhou público (na época). A partir dos anos 90, a cantora vem tentando em vão recuperar o status de seu início de carreira, ainda que - justiça seja feita! - ela tenha gravado alguns bons discos como Seda Pura (2000), Baiana da Gema (2004 - álbum dedicado inteiramente ao cancioneiro recente de Ivan Lins) e Amigo É Casa (2008 - registro ao vivo do show dividido com Zélia Duncan). Enquanto prepara CD com inéditas e regravações para a gravadora Biscoito Fino, Simone tem reeditados 11 discos de sua fase áurea na caixa O Canto da Cigarra nos Anos 70, produzida pelo jornalista Rodrigo Faour nos mesmos criteriosos moldes das coleções que reeditaram as obra fonográficas de Maria Bethânia (2006) e Ney Matogrosso (2008). Os discos foram lançados entre 1973 e 1980.

Com exceção de Festa Brasil, disco gravado por Simone em 1974 para os Estados Unidos que ainda permanecia inédito no mercado nacional, todos os títulos da caixa já tinham sido reeditados em CD. Alguns já estavam fora de catálogo há anos - caso do então raro Simone (1980), relançado uma única vez em CD em 1993 na série 2 em 1 da gravadora EMI. Outros vinham sendo constantemente repostos em catálogo - caso de Pedaços, obra-prima de 1979 - entre reedições ora desleixadas, ora cuidadosas - como a feita para a série Portfolio em 1997 (com reprodução em miniatura das capas dos LPs). Contudo, a cuidadosa remasterização feita por Carlos Savalla e Luigi Hoffer valoriza as atuais reedições. O som dos discos está alto e límpido. E, para colecionadores, há a informação de que cada título recupera o material gráfico do LP original e vem com texto escrito por Faour com declarações atuais de Simone sobre cada disco. Sem falar que cinco faixas-bônus foram distribuídas entre os álbuns. Pena que a capa artesanal de Face a Face (1977) - cheia de dobras e encaixes - não tenha sido confeccionada como na época do lançamento. Pena também que o disco ao vivo de 1980 não apresente a gravação na íntegra. Fora esses detalhes, a caixa é primorosa e reafirma a importância da obra Simone nos anos 70. A voz volumosa tinha um longo alcance. E o rigor estilístico na seleção do repertório era grande. Eis uma análise de cada disco reeditado na excelente caixa O Canto da Cigarra nos Anos 70:

Simone (1973) * *
Gravado em outubro de 1972, o fraco primeiro álbum de Simone chegou às lojas em março de 1973. Colhido entre amigos da cantora, o repertório é irregular e sua voz ainda era um diamante a ser lapidado. O destaque é a releitura meio jazzy de Tudo que Você Podia Ser (Lô Borges e Márcio Borges), canção lançada em 1972 por Milton Nascimento no álbum duplo Clube da Esquina.

À Bruxelles - Brasil Export 73 (1973) * *
Registro do show que percorreu algumas cidades européias em 1973. Idealizado por Hermínio Bello de Carvalho para ser apresentado numa feira de Bruxelas, o espetáculo foi dividido por Simone com Roberto Ribeiro (1940 - 1996), com o auxílio luxuoso do violão de João de Aquino. Ribeiro acabara de ser lançado pela gravadora Odeon em álbum gravado com Elza Soares, cantora inicialmente escalada para o show. Com a impossibilidade de Elza partir para o exterior, a iniciante Simone foi convocada. Sua voz, ainda dura, não exibe a manemolência necessária para cantar os três sambas de roda do (titubeante) repertório feito para gringos.

Expo-Som '73 - Ao Vivo (1973) * * 1/2
Em setembro de 1973, a Odeon reuniu parte de seu elenco em show realizado no Clube Pinheiros. O terceiro disco de Simone é o registro ao vivo da apresentação dividida com Ari Vilela, Leny Andrade e Márcia. Em sua mediana parte solo, Simone prioriza no repertório temas de Dorival Caymmi (1914 - 2008), indo das canções praieiras Coqueiro de Itapoã e João Valentão (reunidas em medley) ao samba-canção Nem Eu. Leny, calejada, se destaca.

Festa Brasil (1974) * *
Título mais raro da caixa, pois nunca editado no mercado nacional nem mesmo em vinil, Festa Brasil registra outro show idealizado por Hermínio Bello de Carvalho para o exterior no rastro do sucesso de Brasil Export 73. Desta vez, o alvo foi o mercado norte-americano. Sem Roberto Ribeiro, Simone dividiu o disco apenas com o violão de João de Aquino. O destaque do repertório moldado para ouvidos estrangeiros é um vigoroso registro de Oração de Mãe Menininha, lançada por Dorival Caymmi em 1972.

Quatro Paredes (1974) * * *
O segundo álbum solo de Simone já sinaliza evolução em relação ao primeiro. Embora ainda engessada pelos critérios artísticos de Hermínio Bello de Carvalho, a artista já dava pistas de que se transformaria numa grande intérprete. Os arranjos do pianista e maestro Luiz Eça (1936 - 1992) valorizam o repertório ainda irregular. Os destaques são as três músicas da então iniciante dupla João Bosco e Aldir Blanc: De Frente pro Crime (com o MPB-4 no coro), Fantasia e Bodas de Prata. A reedição inclui duas faixas-bônus: Fora de Hora e Salamargo, gravadas em 1974 para o LP Sei Lá, lançado por Hermínio. A segunda aparece em dose dupla no disco, já que também tinha sido incluída por Simone em Quatro Paredes, álbum de repercussão comercial bem pequena.

Gotas D'Água (1975) * * * *
Primeiro grande disco de Simone. A cantora ainda vivia sob as rédeas de Hermínio Bello de Carvalho, mas o envolvimento de Milton Nascimento na produção já leva o disco por outros caminhos. Parceiro de Fernando Brant nas faixas Idolatrada e Outubro, Milton participa da gravação de Gota DÁgua, a canção dramática que Chico Buarque lançava naquele ano na peça homônima. Os arranjos são de Luiz Eça e Wagner Tiso. Em Latin Lover (João Bosco e Aldir Blanc), Simone já dá sinais da sensualidade que iria explodir em álbuns posteriores. Com o canto em evolução, a intérprete grava pela primeira vez Gonzaguinha (Eu Nem Ligo). Sua voz já mostra algum crescimento. A reedição de Gotas D'Água inclui duas preciosas faixas-bônus: O Ronco da Cuíca - samba de João Bosco e Aldir Blanc, gravado por Simone para um compacto - e O Que Será (À Flor da Terra), fonograma de 1976, feito para a trilha sonora do filme Dona Flor e seus Dois Maridos e lançado no Brasil em compacto que tocou nas rádios.

Face a Face (1977) * * * * 1/2
Primeiro antológico disco de Simone. Já desvencilhada do amigo Hermínio Bello de Carvalho, a cantora passou a ser produzida por Renato Corrêa. Lançado em julho de 1977, Face a Face marcou o início do envolvimento duradouro da intérprete com a obra de Sueli Costa, autora da faixa-título (em parceria com Cacaso) e de Jura Secreta (com Abel Silva). As duas músicas foram os maiores sucessos do disco que consolidou a carreira de Simone em termos artísticos e comerciais. Milton Nascimento e a turma do Clube da Esquina dominaram o denso repertório. A voz já alçou altos voos.

Cigarra (1978) * * * *
Simone já era um fenômeno de popularidade quando lançou em 1978 Cigarra, disco de menor impacto na comparação com o anterior Face a Face. Ainda assim, é um belo álbum. Presente de Milton Nascimento e Fernando Brant, a faixa-título foi logo incorporada informalmente ao nome e ao repertório da cantora. Doses de sensualidade (Medo de Amar nº 2, outro hit do disco) e política (A Sede do Peixe, de Milton com Márcio Borges) anteciparam receita que seria aprimorada no posterior Pedaços.

Pedaços (1979) * * * * *
É o melhor disco de Simone - não por acaso lançado no ano da explosão feminina na MPB. O repertório irretocável aproveitava os ventos da abertura política para anunciar a volta dos exilados (Tô Voltando) e reafirmava a independência feminina em Começar de Novo, tema de Ivan Lins e Vítor Martins, autor também de Saindo de mim. Entre pérolas de Chico Buarque (a dilacerante Pedaço de mim e a abolerada Sob Medida) e Fátima Guedes (Condenados, faixa de alto teor erótico), Simone lançou mais duas obras-primas de Sueli Costa: Cordilheira (com Paulo César Pinheiro) e Vento Nordeste (com Abel Silva). A segunda - tão bela quanto desconhecida - seria retomada por Simone em 2007 no show dividido com Zélia Duncan. Enfim, um LP clássico.

Simone ao Vivo (1980) * * * * 1/2
Bem no auge da carreira, Simone estreou no Canecão (RJ), em dezembro de 1979, um show dirigido por Flávio Rangel (1934 - 1988). O álbum registra a gravação feita em 30 de dezembro. O roteiro incluía samba de Ivan Lins e Vítor Martins, Desesperar Jamais, que faria sucesso nacional ao ser cantado por Simone na trilha sonora nacional da novela Água Viva. Contudo, o grande destaque do show foi a versão de voz-e-violão em que Simone cantava Pra Não Dizer que Não Falei de Flores (Caminhando), o hino de Geraldo Vandré que convidava à ação política. Na atual reedição, cada música ou vinheta corresponde a uma faixa do CD - fato importante porque nem sempre há pausas entre elas, o que facilitará a escolha do ouvinte. A reedição anterior era desleixada.

Simone (1980) * * * * 1/2
É o derradeiro disco de Simone para a gravadora EMI-Odeon (ora reeditado com faixa-bônus, Eu, gravada por Simone para o segundo disco de Fátima Guedes). Repete quase com o mesmo êxito a receita de política e sensualidade feminina do álbum anterior de estúdio, Pedaços. Inéditas de Chico Buarque (Mar e Lua - ode ao amor lésbico composta por Chico para a peça Geni) e Sueli Costa (Música, Música - ode à própria música feita numa letra poética de Abel Silva) puxavam belo repertório pontuado também por boas músicas novas de Gonzaguinha (Do meu Jeito, Sangrando - numa intensa interpretação - e Mulher e Daí?) e de Ivan Lins com Vítor Martins (Atrevida e Novo Tempo). Gilson Peranzzetta, Luiz Avellar e Eduardo Souto Neto assinavam os primorosos arranjos deste grande disco que marcou o fim de um ciclo na carreira de Simone. Ao migrar para a CBS (atual Sony Music) e passar a ser produzida por Mazzola, a cantora foi progressivamente padronizando, diluindo e banalizando sua obra fonográfica. O canto da Cigarra nunca soou tão forte e livre como nos CDs embalados nesta caixa que merece o investimento dos fãs.

36 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

Por conta de erros na condução de sua trajetória fonográfica na década de 80, Simone perdeu prestígio e ganhou público (na época). A partir dos anos 90, a cantora vem tentando em vão recuperar o status de seu início de carreira, ainda que - justiça seja feita! - ela tenha gravado alguns bons discos como Seda Pura (2000), Baiana da Gema (2004 - álbum dedicado inteiramente ao cancioneiro recente de Ivan Lins) e Amigo É Casa (2008 - registro ao vivo do show dividido com Zélia Duncan). Enquanto prepara um projeto de regravações para a gravadora Biscoito Fino, Simone tem reeditados 11 discos de sua fase áurea na caixa O Canto da Cigarra nos Anos 70, produzida pelo jornalista Rodrigo Faour nos mesmos criteriosos moldes das coleções que reeditaram as obra fonográficas de Maria Bethânia (2006) e Ney Matogrosso (2008). Os discos foram lançados entre 1973 e 1980.

Com exceção de Festa Brasil, disco gravado por Simone em 1974 para os Estados Unidos que ainda permanecia inédito no mercado nacional, todos os títulos da caixa já tinham sido reeditados em CD. Alguns já estavam fora de catálogo há anos - caso do então raro Simone (1980), relançado uma única vez em CD em 1993 na série 2 em 1 da gravadora EMI. Outros vinham sendo constantemente repostos em catálogo - caso de Pedaços, obra-prima de 1979 - entre reedições ora desleixadas, ora cuidadosas - como a feita para a série Portfolio em 1997 (com reprodução em miniatura das capas dos LPs). Contudo, a cuidadosa remasterização feita por Carlos Savalla e Luigi Hoffer valoriza as atuais reedições. O som dos discos está alto e límpido. E, para colecionadores, há a informação de que cada título recupera o material gráfico do LP original e vem com texto escrito por Faour com declarações atuais de Simone sobre cada disco. Sem falar que cinco faixas-bônus foram distribuídas entre os álbuns. Pena que a capa artesanal de Face a Face (1977) - cheia de dobras e encaixes - não tenha sido confeccionada como na época do lançamento. Pena também que o disco ao vivo de 1980 não apresente a gravação na íntegra. Fora esses detalhes, a caixa é primorosa e reafirma a importância da obra Simone nos anos 70. A voz volumosa tinha um longo alcance. E o rigor estilístico na seleção do repertório era grande. Eis uma análise de cada disco reeditado na excelente caixa O Canto da Cigarra nos Anos 70:

Simone (1973) * *
Gravado em outubro de 1972, o fraco primeiro álbum de Simone chegou às lojas em março de 1973. Colhido entre amigos da cantora, o repertório é irregular e sua voz ainda era um diamante a ser lapidado. O destaque é a releitura meio jazzy de Tudo que Você Podia Ser (Lô Borges e Márcio Borges), canção lançada em 1972 por Milton Nascimento no álbum duplo Clube da Esquina.

À Bruxelles - Brasil Export 73 (1973) * *
Registro do show que percorreu algumas cidades européias em 1973. Idealizado por Hermínio Bello de Carvalho para ser apresentado numa feira de Bruxelas, o espetáculo foi dividido por Simone com Roberto Ribeiro (1940 - 1996), com o auxílio luxuoso do violão de João de Aquino. Ribeiro acabara de ser lançado pela gravadora Odeon em álbum gravado com Elza Soares, cantora inicialmente escalada para o show. Com a impossibilidade de Elza partir para o exterior, a iniciante Simone foi convocada. Sua voz, ainda dura, não exibe a manemolência necessária para cantar os três sambas de roda do (titubeante) repertório feito para gringos.

Expo-Som '73 - Ao Vivo (1973) * * 1/2
Em setembro de 1973, a Odeon reuniu parte de seu elenco em show realizado no Clube Pinheiros. O terceiro disco de Simone é o registro ao vivo da apresentação dividida com Ari Vilela, Leny Andrade e Márcia. Em sua mediana parte solo, Simone prioriza no repertório temas de Dorival Caymmi (1914 - 2008), indo das canções praieiras Coqueiro de Itapoã e João Valentão (reunidas em medley) ao samba-canção Nem Eu. Leny, calejada, se destaca.

Festa Brasil (1974) * *
Título mais raro da caixa, pois nunca editado no mercado nacional nem mesmo em vinil, Festa Brasil registra outro show idealizado por Hermínio Bello de Carvalho para o exterior no rastro do sucesso de Brasil Export 73. Desta vez, o alvo foi o mercado norte-americano. Sem Roberto Ribeiro, Simone dividiu o disco apenas com o violão de João de Aquino. O destaque do repertório moldado para ouvidos estrangeiros é um vigoroso registro de Oração de Mãe Menininha, lançada por Dorival Caymmi em 1972.

Quatro Paredes (1974) * * *
O segundo álbum solo de Simone já sinaliza evolução em relação ao primeiro. Embora ainda engessada pelos critérios artísticos de Hermínio Bello de Carvalho, a artista já dava pistas de que se transformaria numa grande intérprete. Os arranjos do pianista e maestro Luiz Eça (1936 - 1992) valorizam o repertório ainda irregular. Os destaques são as três músicas da então iniciante dupla João Bosco e Aldir Blanc: De Frente pro Crime (com o MPB-4 no coro), Fantasia e Bodas de Prata. A reedição inclui duas faixas-bônus: Fora de Hora e Salamargo, gravadas em 1974 para o LP Sei Lá, lançado por Hermínio. A segunda aparece em dose dupla no disco, já que também tinha sido incluída por Simone em Quatro Paredes, álbum de repercussão comercial bem pequena.

Gotas D'Água (1975) * * * *
Primeiro grande disco de Simone. A cantora ainda vivia sob as rédeas de Hermínio Bello de Carvalho, mas o envolvimento de Milton Nascimento na produção já leva o disco por outros caminhos. Parceiro de Fernando Brant nas faixas Idolatrada e Outubro, Milton participa da gravação de Gota DÁgua, a canção dramática que Chico Buarque lançava naquele ano na peça homônima. Os arranjos são de Luiz Eça e Wagner Tiso. Em Latin Lover (João Bosco e Aldir Blanc), Simone já dá sinais da sensualidade que iria explodir em álbuns posteriores. Com o canto em evolução, a intérprete grava pela primeira vez Gonzaguinha (Eu Nem Ligo). Sua voz já mostra algum crescimento. A reedição de Gotas D'Água inclui duas preciosas faixas-bônus: O Ronco da Cuíca - samba de João Bosco e Aldir Blanc, gravado por Simone para um compacto - e O Que Será (À Flor da Terra), fonograma de 1976, feito para a trilha sonora do filme Dona Flor e seus Dois Maridos e lançado no Brasil em compacto que tocou nas rádios.

Face a Face (1977) * * * * 1/2
Primeiro antológico disco de Simone. Já desvencilhada do amigo Hermínio Bello de Carvalho, a cantora passou a ser produzida por Renato Corrêa. Lançado em julho de 1977, Face a Face marcou o início do envolvimento duradouro da intérprete com a obra de Sueli Costa, autora da faixa-título (em parceria com Cacaso) e de Jura Secreta (com Abel Silva). As duas músicas foram os maiores sucessos do disco que consolidou a carreira de Simone em termos artísticos e comerciais. Milton Nascimento e a turma do Clube da Esquina dominaram o denso repertório. A voz já alçou altos voos.

Cigarra (1978) * * * *
Simone já era um fenômeno de popularidade quando lançou em 1978 Cigarra, disco de menor impacto na comparação com o anterior Face a Face. Ainda assim, é um belo álbum. Presente de Milton Nascimento e Fernando Brant, a faixa-título foi logo incorporada informalmente ao nome e ao repertório da cantora. Doses de sensualidade (Medo de Amar nº 2, outro hit do disco) e política (A Sede do Peixe, de Milton com Márcio Borges) anteciparam receita que seria aprimorada no posterior Pedaços.

Pedaços (1979) * * * * *
É o melhor disco de Simone - não por acaso lançado no ano da explosão feminina na MPB. O repertório irretocável aproveitava os ventos da abertura política para anunciar a volta dos exilados (Tô Voltando) e reafirmava a independência feminina em Começar de Novo, tema de Ivan Lins e Vítor Martins, autor também de Saindo de mim. Entre pérolas de Chico Buarque (a dilacerante Pedaço de mim e a abolerada Sob Medida) e Fátima Guedes (Condenados, faixa de alto teor erótico), Simone lançou mais duas obras-primas de Sueli Costa: Cordilheira (com Paulo César Pinheiro) e Vento Nordeste (com Abel Silva). A segunda - tão bela quanto desconhecida - seria retomada por Simone em 2007 no show dividido com Zélia Duncan. Enfim, um LP clássico.

Simone ao Vivo (1980) * * * * 1/2
Bem no auge da carreira, Simone estreou no Canecão (RJ), em dezembro de 1979, um show dirigido por Flávio Rangel (1934 - 1988). O álbum registra a gravação feita em 30 de dezembro. O roteiro incluía samba de Ivan Lins e Vítor Martins, Desesperar Jamais, que faria sucesso nacional ao ser cantado por Simone (em registro de estúdio, infelizmente não incluído como faixa-bônus) na trilha sonora nacional da novela Água Viva. Mas o grande destaque do show foi a versão de voz-e-violão em que Simone cantava Pra Não Dizer que Não Falei de Flores (Caminhando), o hino de Geraldo Vandré que convidava à ação política. Na atual reedição, cada música ou vinheta corresponde a uma faixa do CD - fato importante porque nem sempre há pausas entre elas, o que facilitará a escolha do ouvinte. A reedição anterior era desleixada.

Simone (1980) * * * * 1/2
É o derradeiro disco de Simone para a gravadora EMI-Odeon (ora reeditado com faixa-bônus, Eu, gravada por Simone para o segundo disco de Fátima Guedes). Repete quase com o mesmo êxito a receita de política e sensualidade feminina do álbum anterior de estúdio, Pedaços. Inéditas de Chico Buarque (Mar e Lua - ode ao amor lésbico composta por Chico para a peça Geni) e Sueli Costa (Música, Música - ode à própria música feita numa letra poética de Abel Silva) puxavam belo repertório pontuado também por músicas novas de Gonzaguinha (Do meu Jeito, Sangrando - numa grande interpretação - e Mulher e Daí?) e Ivan Lins & Vítor Martins (Atrevida e Novo Tempo). Gilson Peranzzetta, Luiz Avellar e Eduardo Souto Neto assinavam os primorosos arranjos deste grande disco que marcou o fim de um ciclo na carreira de Simone. Ao migrar para a CBS (atual Sony Music) e passar a ser produzida por Mazzola, a cantora foi progressivamente padronizando, diluindo e banalizando sua obra fonográfica. O canto da Cigarra nunca soou tão forte e livre como nos CDs embalados nesta caixa que merece o investimento dos fãs.

19 de março de 2009 15:46  
Anonymous Anônimo said...

Mauro, acho que você foi injusto com o Hermínio Bello de Carvalho. Ele foi importantíssimo para a carreira da Simone.

19 de março de 2009 15:54  
Anonymous Anônimo said...

Acho que na mudança para a CBS Simone ainda manteve um certo critério em discos como AMAR e DELÍRIOS E DELÍCIAS (com produção do Sérgio Carvalho)- o CORPO E ALMA é muito pasteurizado cheio de teclados.
Adoro a Cigarra ma sua figura carismática e grande no palco.
Vale a observação que seus shows sempre foram muito bons.
Essa caixa é mesmo essencial para o fãs da Cigarra.

19 de março de 2009 16:11  
Anonymous Luc said...

Independentemente do que Simone fez a partir de 1980, quando deixei de me interessar pela carreira da cantora, o período abarcado por esta resenha do Mauro é suficiente para colocá-la entre as grandes.

E, noves fora, Simone continuou a cantar bem depois. O repertório é que ficou morrinha. Ela não foi a única a sucumbir aos espantosos anos 80.

Ah, tem um gravação antológica de Encontros & Despedidas no álbum Amar (1981). Até hoje ninguém cantou isso melhor.

19 de março de 2009 16:22  
Anonymous Felipe dos Santos Souza said...

A única coisa a se lamentar da caixa: provavelmente, os CDs não serão vendidos em avulso.

Ou seja: quem os comprou na fornada de relançamentos da EMI de 2003, quando foram lançados todos entre "Gotas D'Água" e "Pedaços", se estrepou bonito. Mas quem disse que as gravadoras ligam para isso?

Indo para o aspecto estritamente artístico: concordo com quem acha que a melhor fase de Simone é esta da EMI-Odeon. O período que citei (entre "Gotas..." e "Pedaços") é admirável.

Algumas versões ali são altamente elogiáveis, algumas até lendárias:

- "Valsa Rancho" e "Céu de Brasília" (a última, irretocável), do "Face a Face";

- "Então Vale a Pena" (esta, com canja do autor Gil ao violão), "Petúnia Resedá", "Ela Disse-me Assim" e "Sangue e Pudins", do "Cigarra".

- "Sob Medida" (tá, esta não ganha da de Fafá...) e "Saindo de Mim" (esta rivaliza com a belíssima versão do autor Ivan), do "Pedaços"

Enfim, a caixa vale o que pesa e custa.

P.S.: Agora, justiça seja feita, "Amar", o primeiro disco de Simone na CBS, também é de alto nível. "Pão e Poesia" tem um arranjo antológico (também, quem fez? Mestre Cesar Mariano...). Não há versão melhor de tal música.

19 de março de 2009 17:09  
Anonymous OLIVEIRA said...

Adoro Simone e comprei a caixa justamente por "Festa Brasil" e "Simone"(1980). FÃ E COLECIONADOR É F...

Felipe, "Amar" eu arriscaria dizer que é o melhor - achei em sebo (amém!) - apesar de ter decaído em repertório e arranjos após esta obra-prima (voltando a subir a ladeira com o disco-homenagem a Martinho da Vila). Mas para mim NÃO TEM PROBLEMA POIS FÃ QUE É FÃ A TUDO PERDOA.

VIVA SIMONE!

19 de março de 2009 17:21  
Anonymous Ricardo said...

Exitem álbuns bons na década de 90 que foram sim unanimidade de crítica como Sou Eu, Simone Bittencourt de Oliveira e Café com Leite(resgatando a obra de Martinho da Vila) de forma fantástica e se não conseguiu o suceeso de antes não foi em vão com Baiana da Gema ou Seda Pura pós 2000, o que ocorre é que as fms não tocam mpb de qualidade há muito tempo em relação aos anos 80 ficou marcada porque era quem mais fazia sucesso na década dos sintetizadores e baladas românticas mas sem dúvida ainda aos quase 60 inacreditáveis anos de idade continua muito melhor no palco que em estúdio com uma voz única.

19 de março de 2009 18:57  
Anonymous Anônimo said...

Eu vejo as coisas de uma maneira diferente. Acho que Simone é uma sobrevivente desses anos 80 onde o mau gosto imperou em vários setores da vida cultural brasileira e não só. Sem dúvida, os anos 70 são os anos áureos de Simone em termos de qualidade e excelencia na escolha do repertório mas, a Baiana está voltando!! Ainda recentemente arrasou em tres shows "Amigo é Casa" lá em Portugal ao lado de Zélia Duncan. Vamos aguardar o novo trabalho só que fiquei preocupada por voce falar em " regravações". Será que vamos ter Yolanda pela sétima vez, Jura Secreta pela centésima ou Encontros e Despedidas pela bicentésima?? Será que estão faltando compositores ou os velhos e bons estão ficando desinspirados??
Abraço
Claudia Lima

19 de março de 2009 21:55  
Anonymous Anônimo said...

Mauro, desculpe, mas você está enganado quanto a 'Desesperar jamais'. Conferi no vinil e no cd da novela e é a mesma versão do disco ao vivo, com a diferença que foi feito um fade na versão da novela..

19 de março de 2009 22:31  
Anonymous Anônimo said...

Emanuel Andrade

Eu quero é mesmo saber onde anda o ótimo Delírios e Delicias e o mais ou menmos Desejos? Quem vende?
Ah, completo mesmo é o que tem Sangrando. Grande disco, só a capa do Lp que foi pobre. Mas Simone continua um luxo, pena que cantando com todo mundo e ainda abusada. Coisas da idade, quem sabe? Mas se ele quiser arrebentar com um grande repertório vai longe.

20 de março de 2009 00:26  
Blogger PedroPeter said...

Quero muito ouvir!

20 de março de 2009 00:55  
Anonymous Anônimo said...

Simone 70's é MARA!

20 de março de 2009 10:45  
Anonymous Anônimo said...

Mauro, bela resenha. Pena que a avaliação da Simone '80 é menos complacente do que a avaliação de outras cantoras - mas tudo bem, a baiana é forte... Contudo, me intriga sua afirmação: "Pena também que o disco ao vivo de 1980 não apresente a gravação na íntegra". O que seria essa gravação, ela existe, chegou a ser lançada?
Grato, Flavio.

20 de março de 2009 15:18  
Blogger JORGE said...

Houve realmente uma modificação, mas, o 1º da CBS, não lembro bem acho que eu tinha dez anos, ´o das faixas, pão e poesia, pequenino cão e outras que não me ocorrem...
Rapaz o repertório, os arranjos belissimos e Simone cantando como nunca...
Gosto de pedaços, mas, gosto especialmente do posterior onde canta atrevida de Ivan e outras de Gonzaguinha...
Mas ainda na extinta CBS, ela gravou uns dois ou três bons discos.
É interessante notar que a MPB como um todo empobreceu um pouco, não acho necessário citar nomes, alguns resistiram mais e outros nem tanto...

20 de março de 2009 15:55  
Anonymous Anônimo said...

Não sei se se pode falar exatamente apenas de regravações quanto ao novo trabalho da Cigarra. Ela própria já declarou que tem como trunfo uma nova parceria de Ivan Lins e Chico Buarque. Numa entrevista em Portugal ela disse que quer lançar pelo menos seis grandes canções inéditas. Disse ainda que quer lançar um compositor novo. Para finalizar disse que o trabalho ainda não tem uma espinha dorsal. A não ser que ela esteja produzindo dois CDs ao mesmo tempo: um de regravações e outro com novas composições...

Luca.

20 de março de 2009 16:05  
Anonymous Ricardo said...

Mauro, Simone deu uma entrevista em Portugal que o novo cd teria inéditas, mais de sete, inclusive de Chico Buarque, no Correio da Manhã...a informação procede?

20 de março de 2009 16:21  
Anonymous OLIVEIRA said...

Emanuel, "Delírios e Delícias" e "Desejos" só em sebo: estão fora de catálogo. Da "roda presa" SONY/BMG (a CBS da época) e dos anos 90 só "Sou Eu" por ser de regravações de sucessos (jura!?) a gravadora mantém em estoque.
É torcer e rezar ou futucar sebos, onde os achei.
Abraços.

20 de março de 2009 19:09  
Anonymous OLIVEIRA said...

Perdão, Mauro e Emanuel, só para consertar: "Sou eu" já é dos anos 90. Dos anos 80 pela CBS/SONY/BMG - onde estão os citados por você - NENHUM!

20 de março de 2009 19:14  
Anonymous Anônimo said...

Simone nos anos 70 é TUDO!!! Depois pegou pesado na breguice e é verdade, por mais que tenha lançado bons trabalhos ultimamente, não reconquistou o prestígio. Até ouvi alguns e gostei bastante, como o Baiana da Gema que o Mauro falou aí. Por que será que as outras não são tão criticadas como ela? Algum motivo deve ter, né? Alguma "bondade" a Simone deve ter cometido pra receber tanta crítica em um período. Não é á toa.

20 de março de 2009 21:22  
Anonymous Anônimo said...

Eis o comentário de Simone sobre o novo disco, no Correio da Manhã, no início deste mês: "Sairá este ano. Tem uma única música nova, uma parceria do Ivan Lins e do Chico Buarque. O disco não tem ainda uma espinha dorsal. Está muito aberto: pode ter um rock, uma balada, um samba-canção, pode ter de tudo. Queremos muito conseguir no mínimo seis grandes músicas inéditas. E eu gostaria, se possível, de lançar um compositor novo, cujo trabalho ainda não seja conhecido". A idéia, segundo a cantora, é que saia até julho. Obbbaaaaaa!!!!!

20 de março de 2009 22:08  
Anonymous Anônimo said...

Desses discos o único que tenho interesse é o Brasil Export 73 com o saudoso Roberto Ribeiro. Espero que vendam separado também! Abraços,

Marcelo Barbosa - Brasília (DF)

PS: Rodrigo Faour bem que poderia lançar a caixa do Roberto e incluir esse título? Sem titubear eu compraria completa!

20 de março de 2009 22:10  
Blogger Carlos Lopes said...

Qual é o cd que tem a canção "Música, Música" ? Alguém sabe me informar? Obrigado.

21 de março de 2009 05:24  
Anonymous Anônimo said...

Carlos Lopes, se você ler o post completo do Mauro ficará sabendo em qual CD está "Música, Música". Esta informação está muito clara! Fique atento!

21 de março de 2009 09:43  
Anonymous fabio braga said...

OLÁ EMANUEL ANDRADE E A QUEM INTERESSAR POSSA, TENHO OS CDS DA SIMONE:

SEDUÇÃO - ORIGINAL DA ÉPOCA
LIBERDADE - ORIGINAL DA ÉPOCA
UMA NOVA MULHER - ORIGINAL DA ÉPOCA
DESEJOS - SÓ A CAPA DE TRÁS E O CD ORIGINAL (TAMBÉM DA ÉPOCA)
CRISTAL - JAPONÊS DA ÉPOCA

PARA VENDA, À QUEM INTERESSAR POSSA É SÓ ENTRAR EM CONTATO

DISCOCLUB@BOL.COM.BR

MAURO, OBRIGADO PELO ESPAÇO

FABIO BRAGA

21 de março de 2009 10:11  
Anonymous Ricardo said...

A bondade da Simone foi dizer que crítico musical é filho do demo com capeta ou em outras entrevistas que eram cantores frustrados... essas foram algumas das declarações que fizeram sua desgraça no meio.Fora isso seus shows sempre lotados e tecnicamente muito bons, no palco se supera.

21 de março de 2009 11:14  
Anonymous OLIVEIRA said...

Prezado Marcelo,

O "Brasil Export 73" você acha. Vai no site da "Modern Sound". Foi lançado na "fornada" da EMI de 2003 como disse o Felipe. Dá para comprar sem comprar a caixa.
Quando comprei a caixa até dei o meu de presente. Se eu soubesse que tu não tinhas e querias te enviava de graça mesmo (o SEDEX a discutir...). Agora é tarde.
Quanto à discografia de Roberto Ribeiro tô rezando junto.
Abraços.

Prezado Carlos,

"Música, Música" está em "Simone(1980)" - um dos 2 CDs que me fizeram comprar a caixa. Essa aí só comprando a caixa ou na coletânea "O Talento de Simone" (fora de catálogo) que também dei de presente quando comprei a caixa.
Abraços.

21 de março de 2009 11:49  
Anonymous Anônimo said...

RAINHA MORENA também é uma música super rara. Fora o 2 em 1 de 1980, só a encontrei numa coletânea estrageira de Simone.

21 de março de 2009 17:24  
Anonymous Anônimo said...

Fala, Oliveira! Muito obrigado pelo oferecimento e pela dica! Quando estive na Modern Sound esqueci de procurá-lo! Mas vou comprar pelo site. Grande abraço,

Marcelo Barbosa - Brasília (DF)

22 de março de 2009 10:33  
Anonymous Anônimo said...

para quem é colecionador cada CD é um CD, cada um tem a sua história. nem toda gente liga para esses detalhes. comprando a caixa lógico que não vou dar os " repetidos". porque para mim não são repetidos porque cada um é cada um.
abraço, não concordo com a sua opinião sobre 4 Paredes
André Luis

23 de março de 2009 17:16  
Anonymous Anônimo said...

Será que ela regrava Mundo Delirante? Aí já valeu o cd

24 de março de 2009 13:55  
Anonymous OLIVEIRA said...

Pois é, anônimo, está no 1º lançado pela CBS - e que não está nesta caixa - que eu citei como o melhor e que INACREDITAVELMENTE continua fora de catálogo. Bendito sebo onde encontrei esta PÉROLA!
DISCAÇO! Só compete com "Pedaços" (na caixa) mas ainda ganha na prorrogação.

24 de março de 2009 19:48  
Anonymous Anônimo said...

a qualidade dos cds está impecável, Festa Brasil, MARAVILHOSO!!! uma pérola escondida tantos anos! os textos dos encartes trazem muita informação mas não tem muita declaração inédita da Simone.já li muita coisa que tá lá em outros lugares.valeu , é caixa histórica!!

Paulo

25 de março de 2009 09:25  
Blogger Luis Carlos said...

A Cigarra merece essa caixa. É uma das vozes mais bonitas e tocantes que já ouvi. Só por isso já merece nossa admiração.

25 de março de 2009 09:43  
Anonymous Anônimo said...

Dá-lhe Cigarra!

25 de março de 2009 20:42  
Anonymous Anônimo said...

Não entendi a inclusão de "Eu" do álbum Lapis de Cor de 1981 da Fátima Guedes nessa coletanea dos anos 70. A década acabou quando? Em 1980, né? Mancada... básica
Marcelo

29 de março de 2009 22:05  
Anonymous Anônimo said...

Mauro cadê nos textos as anunciadas analises da cantora prás músicas que ela gravou? tem só análises do Faour sempre achando que tem sexo em tudo. não achei isso legal , me senti meio que enganado. os textos estão muito longe da qualidade dos cds da cantora.abração e parabéns: a tua Roberta Sá tá chegando na galáxia das grandes estrelas!!!

7 de abril de 2009 10:56  

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