3 de dezembro de 2009

Calcanhotto refaz conexões antenadas em 'Três'

Resenha de Show
Evento: Lançamento do DVD Palavra Encantada
Título: Três
Artista: Adriana Calcanhotto, Domenico Lancellotti e
Moreno Veloso (em foto de Mauro Ferreira)
Local: Auditório Ibirapuera (SP)
Data: 2 de dezembro de 2009
Cotação:
* * * * 1/2


Não é mera projeção a imagem de árvores vista na foto tirada no bis da apresentação especial do show Três, realizada na noite de quarta-feira, 2 de dezembro de 2009, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo (SP). A paisagem é verdadeira e, no bis, se tornou o cenário natural do belo show que juntou Adriana Calcanhotto, Domenico Lancellotti e Moreno Veloso sob o feliz pretexto de promover o lançamento em DVD do filme Palavra Encantada, nas lojas na próxima semana em edição da gravadora Biscoito Fino. Enquanto Calcanhotto entoava o hit gay Nature Boy, os portões do fundo do auditório foram abertos e deixaram à mostra as árvores do Parque Ibirapuera, por onde o trio saiu correndo ao fim da apresentação, com a adesão de Arnaldo Antunes, que foi o convidado especial da apresentação e voltou à cena para encerrar o bis com seu samba Alegria. Iluminados por 48 refletores, os quatro artistas correram saltitantes pelo parque num efeito cênico e visual que deslumbrou o público que lotou o auditório para ver a primeira apresentação em São Paulo (SP) desse show que estreou em 2005, na edição carioca do festival Percpan, e já percorreu algumas cidades da Europa sem nunca ter cumprido temporada regular no Brasil (Três merecia inclusive um registro).

O belo efeito visual do show foi a cereja de um bolo delicioso. Três refez e expôs as conexões antenadas de Calcanhotto com Moreno e Domenico, integrantes do trio + 2. Já no primeiro número - a poliglota Chanson Doil Mot Son Plan et Prim, em que a cantora entoa versos do poeta provençal Arnaut Daniel na companhia do violoncelo tocado por Moreno - ficou evidente que tais conexões jamais seriam óbvias. Para começar, Três não é um show em que Calcanhotto canta acompanhada pela entrosada dupla. O show é dos três. Mesmo. A cantora até domina naturalmente o microfone, respondendo pelos versos de músicas como Justo Agora e Sem Saída. Contudo, Domenico e Moreno também cantam enquanto extraem barulhinhos bons de seu arsenal de instrumentos. Por mais que as vozes deles sejam opacas, ambas se ajustam bem ao espírito de Três. A abordagem bossa-novista de música do Olodum - Deusa do Amor, cantada por Moreno, que já a gravou num dos discos do trio + 2 - é o primeiro grande momento do show e exemplo da esperteza das conexões musicais e poéticas (o filme Palavra Encantada discute as relações entre música e poesia a partir de ideia original de Marcio Debellian). Outra boa sacada foi reviver O Nome da Cidade - a música que Caetano Veloso compôs para Maria Bethânia com inspiração no livro A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (1920 - 1977) - e, na sequência, apresentar (na voz de Moreno) A Beira e o Mar, o tema de Roberto Mendes e Jorge Portugal que deu título ao álbum lançado por Bethânia em 1984 com a gravação original de O Nome da Cidade. Em A Beira e o Mar, Domenico evoca a vivacidade rítmica do Recôncavo Baiano com sons de games. O balanço que é evocado novamente em Não Acorde, Neném (parceria inédita de Moreno com Domenico). Ainda no fértil terreno pop baiano, Calcanhotto realça os tons vivos de A Cor Amarela, música alegre e inspirada lançada por Caetano Veloso no disco Zii e Zie (2009).

Convidado especial da apresentação, Arnaldo Antunes se ajustou rapidamente ao delicado tom musical e póetico do show em bloco que linkou por precisas afinidades temáticas as músicas Para Lá, Lua Vermelha (especialmente iluminada com a união das vozes de Calcanhotto e Antunes), Aquário e Se Tudo Pode Acontecer. Com Arnaldo já fora de cena, Moreno entoou Vambora - canção lançada por Calcanhotto em 1998 no álbum Maritmo - num solo que, na segunda metade, se transformou num dueto com a autora da música. E veio, então, o segundo grande momento do show: I'm Wishing, tema composto por Walt Disney (1901 - 1966) para o desenho Branca de Neve e os Sete Anões. As mordidas de Calcanhotto numa maçã interferiram intencionalmente no número, numa amostra lúdica das experimentações esboçadas em Te Convidei pro Samba, tema (inventivamente...) cantado por Domenico em número em que o trio explora dissonâncias com espírito indie. No fim, Calcanhotto realça nuances e agudos em versão arrebatadora de Music, o hit de Madonna, turbinado com citações de funk (Som de Preto) e sucesso de Carmen Miranda (I Like You Very Much) - além de inserção de versos do repertório dos Titãs recitados por Arnaldo Antunes (Eu Não Sei Fazer Música). Tudo conectado com o espírito tropicalista que pontua a música composta e cantada por Adriana Calcanhotto. Três é dez!!!

8 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

Não são projeções as imagens de árvores vistas na foto tirada no bis da apresentação especial do show Três, realizada na noite de quarta-feira, 2 de dezembro de 2009, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo (SP). A paisagem é verdadeira e, no bis, se tornou o cenário natural do belo show que juntou Adriana Calcanhotto, Domenico Lancellotti e Moreno Veloso sob o feliz pretexto de promover o lançamento em DVD do filme Palavra Encantada, nas lojas na próxima semana em edição da gravadora Biscoito Fino. Enquanto Calcanhotto entoava o hit gay Nature Boy, os portões do fundo do auditório foram abertos e deixaram à mostra as árvores do Parque Ibirapuera, por onde o trio saiu correndo ao fim da apresentação, com a adesão de Arnaldo Antunes, que foi o convidado especial da apresentação e voltou à cena para encerrar o bis com seu samba Alegria. Iluminados por 48 refletores, os quatro artistas correram saltitantes pelo parque num efeito cênico e visual que deslumbrou o público que lotou o auditório para ver a primeira apresentação em São Paulo (SP) desse show que estreou em 2005, na edição carioca do festival Percpan, e já percorreu algumas cidades da Europa sem nunca ter cumprido temporada regular no Brasil (Três merecia inclusive um registro).

O belo efeito visual do show foi a cereja de um bolo delicioso. Três refez e expôs as conexões antenadas de Calcanhotto com Moreno e Domenico, integrantes do trio + 2. Já no primeiro número - a poliglota Chanson Doil Mot Son Plan et Prim, em que a cantora entoa versos do poeta provençal Arnaut Daniel na companhia do violoncelo tocado por Moreno - ficou evidente que tais conexões jamais seriam óbvias. Para começar, Três não é um show em que Calcanhotto canta acompanhada pela entrosa dupla. O show é dos três. Mesmo. A cantora até domina naturalmente o microfone, respondendo pelos versos de músicas como Justo Agora e Sem Saída. Contudo, Domenico e Moreno também cantam enquanto extraem barulhinhos bons de seu arsenal de instrumentos. Por mais que as vozes deles sejam opacas, ambas se ajustam bem ao espírito de Três. A abordagem bossa-novista de música do Olodum - Deusa do Amor, cantada por Moreno, que já a gravou num dos discos do trio + 2 - é o primeiro grande momento do show e exemplo da esperteza das conexões musicais e poéticas (o filme Palavra Encantada discute as relações entre música e poesia a partir de roteiro original de Márcio Debelian). Outra boa sacada foi reviver O Nome da Cidade - a música que Caetano Veloso compôs para Maria Bethânia com inspiração no livro A Hora da Estrela, de Clarice Lispector (1920 - 1977) - e, na sequência, apresentar (na voz de Moreno) A Beira e o Mar, o tema de Roberto Mendes e Jorge Portugal que deu título ao álbum lançado por Bethânia em 1984 com a gravação original de O Nome da Cidade. Em A Beira e o Mar, Domenico evoca a vivacidade rítmica do Recôncavo Baiano com sons de games. O balanço que é evocado novamente em Não Acorde, Neném (parceria inédita de Moreno com Domenico). Ainda no fértil terreno pop baiano, Calcanhotto realça os tons vivos de A Cor Amarela, música alegre e inspirada lançada por Caetano Veloso no disco Zii e Zie (2009).

3 de dezembro de 2009 22:14  
Blogger Mauro Ferreira said...

Convidado especial da apresentação, Arnaldo Antunes se ajustou rapidamente ao delicado tom musical e póetico do show em bloco que linkou por precisas afinidades temáticas as músicas Para Lá, Lua Vermelha (especialmente iluminada com a união das vozes de Calcanhotto e Antunes), Aquário e Se Tudo Pode Acontecer. Com Arnaldo já fora de cena, Moreno entoou Vambora - canção lançada por Calcanhotto em 1998 no álbum Maritmo - num solo que, na segunda metade, se transformou num dueto com a autora da música. E veio, então, o segundo grande momento do show: I'm Wishing, tema composto por Walt Disney (1901 - 1966) para o desenho Branca de Neve e os Sete Anões. As mordidas de Calcanhotto numa maçã interferiram intencionalmente no número, numa amostra lúdica das experimentações esboçadas em Te Convidei pro Samba, tema (inventivamente...) cantado por Domenico em número em que o trio explora dissonâncias com espírito indie. No fim, Calcanhotto realça nuances e agudos em versão arrebatadora de Music, o hit de Madonna, turbinado com citações de funk (Som de Preto) e sucesso de Carmen Miranda (I Like You Very Much) - além de inserção de versos do repertório dos Titãs recitados por Arnaldo Antunes (Eu Não Sei Fazer Música). Tudo conectado com o espírito tropicalista que pontua a música composta e cantada por Adriana Calcanhotto. Três é dez!!!

3 de dezembro de 2009 22:14  
Blogger Flávia C. said...

Taí um show que eu queria muito ter visto. Mas morando no fim do mundo, como é que a gente faz?? :P

4 de dezembro de 2009 09:47  
Anonymous Seo Zé said...

Com relação a esse recurso de correr pelo parque do Ibirapuera, Chico César explorou muito bem isso no dvd "Cantos e Encontros de uns tempos pra cá", onde ele começa o espetáculo tocando sentado num banco de madeira na parte de fora do parque. É um efeito deslumbrante mesmo. Perfeito! Imagino que essa idéia de correr para o parque ao final da apresentação tenha resultado num momento bastante bonito também.

Um abraço!

4 de dezembro de 2009 10:30  
Anonymous Anônimo said...

Adriana é a unica cantora que surpreende,tem inteligencia e é interessante.E isso não tem tanta dependencia de batidas e batismos tropicalistas e joãogilbertianos como a politica ditatorial musical bahiana quer sempre tomar para si e os criticos caem sempre nessa jogada.Daqui a pouco Caetano vai dizer que MUSICA foi invenção da Bahia e de João.Adriana é e sempre foi uma cantora e compositora ecletica e versátil e sua criatividade e talento,raros e peculiares,é que representa a verdade e o que realmente tem importancia.Tres deveria ser trinta!

4 de dezembro de 2009 10:48  
Anonymous Leo said...

eles podiam ir com este show pelo Brasil, aos poucos, fazendo dois, três shows por mês.

4 de dezembro de 2009 13:46  
Anonymous Anônimo said...

A gravação do DVD Primordios da Marina Lima, foi gravado em 2006, neste mesmo auditório, e com esse recurso de fundo no final do show, aonde uma passarela no fim do palco, levava a Marina vestida com um manto e guarda-chuva, ao encontro de moças ao fundo, foi lindo, pena que não saiu ainda, por falta de patrocinio, mas deve sair em breve segundo a mesma.
Jean Carlos
codigoacesso@gmail.com

4 de dezembro de 2009 21:03  
Anonymous Ela said...

Mas será possível que ninguém gravou isto? Não acredito! Deve ter sido lindo! Adriana Calcanhotto sempre faz tudo perfeito. Adoro seu blog :)

13 de dezembro de 2009 18:19  

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