8 de novembro de 2009

Bio demole clichês ao detalhar saga de Simonal

Resenha de Livro
Título: "Nem Vem
que Não Tem"
A Vida e o Veneno
de Wilson Simonal
Autor: Ricardo
Alexandre
Editora: Globo
Cotação: * * * * *

Apesar de certa tendência a absolver Wilson Simonal (1938 - 2000) da acusação de dedo-duro dos colegas da Esquerda, notadamente na tristonha parte final, a biografia do cantor escrita pelo jornalista Ricardo Alexandre - já nas livrarias pela Editora Globo, com opções de capa amarela ou azul - é documento histórico que investiga com seriedade o caso jurídico do artista e ajuda a entender a ascensão e queda de Simonal no mundo da música. Fruto de dez anos de pesquisa e entrevistas, o detalhista trabalho de reportagem do autor faz com que o livro avance em relação ao que já foi exposto no (também histórico) documentário Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, estreado em março de 2008 no festival É Tudo Verdade e sucesso de público desde que entrou oficialmente em circuito em maio de 2009. Um dos méritos da biografia é enfatizar e contextualizar a existência de documento assinado pelo próprio Simonal, em 24 de agosto de 1971, a pedido de integrantes do Departamento de Ordem Política e Social, o famigerado Dops, órgão repressor do regime militar instaurado no Brasil em 1964. Nesse documento, elaborado para forjar perseguição política ao cantor e assim justificar perante a Opinião Pública o fato de o Dops ter dado uma dura no contador de Simonal a pedido do próprio, o artista assumia "cooperar com informações" que ajudaram o Dops a "desbaratar por diversas vezes movimentos subversivos no meio artístico". Provável farsa, criada para livrar a cara do próprio Dops, o documento foi o estopim da bomba que explodiu na cabeça de Simonal, tão ingênuo quanto arrogante. A propósito, Nem Vem que Não Tem cumpre honrosamente sua função ao perfilar o cantor sem escamotear seus defeitos. E demole clichês e mitos sobre o caso Simonal ao historiar a trajetória profissional e pessoal do cantor depois do incidente. Primeiro, o livro deixa claro que o artista não caiu em imediato ostracismo. Foi Simonal - conta Alexandre - que quis se desligar da Odeon, a gravadora na qual ingressara em 1961 e na qual vivera momentos áureos com popularidade que chegou a rivalizar com a de Roberto Carlos no final dos anos 60. E convite não lhe faltou naquele momento. Mesmo após o mau passo político do cantor, que realmente acionou contatos no Dops para dar uma coça no contador de sua mastodôntica empresa, Raphael Viviani, a RCA acenou com proposta polpuda - recusada pelo então novo empresário do cantor, Marcos Lázaro, que, num gesto equivocado que custaria muito a Simonal, sugeriu a André Midani, então no comando da Philips, que a contratação de Simonal seria uma recomendação de "Brasília". Acuado, Midani recebeu o artista em seu elenco, o que gerou mais desprezo a Simonal por parte da elite da MPB que se abrigava na Philips. Mas, política à parte, o primeiro álbum de Simonal na nova companhia, Se Dependesse de mim (1972), não surtiu o efeito comercial esperado, levando a Philips a enquadrar o artista no samba no álbum seguinte, Olhaí, Balandro... É Bufo no Birrolho Grinza (1973). Novamente sem sucesso. O fato - normalmente omitido nas reportagens maniqueístas sobre Simonal, mas abordado no livro - é que o cantor já amargava declínio de popularidade antes do imbróglio político, em 1970, quando lançou álbum, Simonal, embebido em black music. E nunca mais recuperaria o sucesso e o prestígio. Contudo, como ressalta Alexandre, é impossível tentar prever se o cantor reeditaria o êxito comercial da áurea fase da Pilantragem após a dissolvição do ralo movimento se não tivesse havido a questão política. Mas outro fato normalmente ignorado é que Simonal ainda gravou regularmente ao longo dos anos 70 - com destaque para um álbum intimista feito na RCA em 1975, Ninguém Proibe o Amor, cultuado por soulmen como Ed Motta. O livro também demole o clichê de que Simonal foi completamente banido do mercado de shows. Ele continuou se apresentando com agenda cheia até o fim dos anos 80. O que houve foi uma progressiva mudança de rota e status nas suas turnês, deslocadas para cidades do Nordeste ou então para casas menores. Outro mito que cai por terra é o de que Simonal viveu deprimido após a confusão com o Dops. Alexandre deixa claro que a depressão não foi imediata, tendo o cantor mantido num primeiro instante a alegria que ainda o identificava no imaginário nacional. E mostra como a arrogância e a intransigência de Simonal - reincidentes mesmo depois do episódio de 1971 - o ajudaram a cavar a própria cova. Contudo, as qualidades artísticas do cantor - dono de voz privilegiada, suingue fenomenal e carisma grandioso - são enfatizadas na narrativa na mesma medida dos defeitos e erros do biografado. Nem Vem que Não Tem refaz os primeiros passos artísticos de Simonal com o mesmo rigor na apuração com que detalha sua descida ao inferno, sobretudo a partir do fim da década de 80, quando a perda da voz acelerou o processo de alcoolismo e consequente depressão, diluindo a autoestima do cantor. Foi aí que os filhos já crescidos, Wilson Simoninha e Max de Castro, entraram em cena para segurar a barra do pai. Inclusive a financeira. Na parte final, a narrativa fica mais pungente e o biógrafo não esconde certa ternura quase parcial pelo biografado, enfocado como uma vítima. Mas o livro jamais absolve explicitamente Wilson Simonal de seus erros. O que engrandece a biografia e a torna leitura essencial para todos que se interessam pela música brasileira e, em especial, por uma de suas personagens mais controvertidas de todos os tempos. Dez!

11 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

Apesar de certa tendência a absolver Wilson Simonal (1938 - 2000) da acusação de dedo-duro dos colegas da Esquerda, notadamente na tristonha parte final, a biografia do cantor escrita pelo jornalista Ricardo Alexandre - já nas livrarias pela Editora Globo, com opções de capa amarela ou azul - é documento histórico que investiga com seriedade o caso jurídico do artista e ajuda a entender a ascensão e queda de Simonal no mundo da música. Fruto de dez anos de pesquisa e entrevistas, o detalhista trabalho de reportagem do autor faz com que o livro avance em relação ao que já foi exposto no (também histórico) documentário Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, estreado em março de 2008 no festival É Tudo Verdade e sucesso de público desde que entrou oficialmente em circuito em maio de 2009. Um dos méritos da biografia é enfatizar e contextualizar a existência de documento assinado pelo próprio Simonal, em 24 de agosto de 1971, a pedido de integrantes do Departamento de Ordem Política e Social, o famigerado Dops, órgão repressor do regime militar instaurado no Brasil em 1964. Nesse documento, elaborado para forjar perseguição política ao cantor e assim justificar perante a Opinião Pública o fato de o Dops ter dado uma dura no contador de Simonal a pedido do próprio, o artista assumia "cooperar com informações" que ajudaram o Dops a "desbaratar por diversas vezes movimentos subversivos no meio artístico". Provável farsa, criada para livrar a cara do próprio Dops, o documento foi o estopim da bomba que explodiu na cabeça de Simonal, tão ingênuo quanto arrogante. A propósito, Nem Vem que Não Tem cumpre honrosamente sua função ao perfilar o cantor sem escamotear seus defeitos. E demole clichês e mitos sobre o caso Simonal ao historiar a trajetória profissional e pessoal do cantor depois do incidente. Primeiro, o livro deixa claro que o artista não caiu em imediato ostracismo. Foi Simonal - conta Alexandre - que quis se desligar da Odeon, a gravadora na qual ingressara em 1961 e na qual vivera momentos áureos com popularidade que chegou a rivalizar com a de Roberto Carlos no final dos anos 60. E convite não lhe faltou naquele momento. Mesmo após o mau passo político do cantor, que realmente acionou contatos no Dops para dar uma coça no contador de sua mastodôntica empresa, Raphael Viviani, a RCA acenou com proposta polpuda - recusada pelo então novo empresário do cantor, Marcos Lázaro, que, num gesto equivocado que custaria muito a Simonal, sugeriu a André Midani, então no comando da Philips, que a contratação de Simonal seria uma recomendação de "Brasília". Acuado, Midani recebeu o artista em seu elenco, o que gerou mais desprezo a Simonal por parte da elite da MPB que se abrigava na Philips.

8 de novembro de 2009 23:27  
Blogger Mauro Ferreira said...

Mas, política à parte, o primeiro álbum de Simonal na nova companhia, Se Dependesse de mim (1972), não surtiu o efeito comercial esperado, levando a Philips a enquadrar o artista no samba no álbum seguinte, Olhaí, Balandro... É Bufo no Birrolho Grinza (1973). Novamente sem sucesso. O fato - normalmente omitido nas reportagens maniqueístas sobre Simonal, mas abordado no livro - é que o cantor já amargava declínio de popularidade antes do imbróglio político, em 1970, quando lançou álbum, Simonal, embebido em black music. E nunca mais recuperaria o sucesso e o prestígio. Contudo, como ressalta Alexandre, é inútil tentar prever se o cantor reeditaria o êxito comercial da áurea fase da Pilantragem após a dissolvição do ralo movimento se não tivesse havido a questão política. Mas outro fato normalmente ignorado é que Simonal ainda gravou regularmente ao longo dos anos 70 - com destaque para um álbum intimista feito na RCA em 1975, Ninguém Proibe o Amor, cultuado por soulmen como Ed Motta. O livro também demole o clichê de que Simonal foi completamente banido do mercado de shows. Ele continuou se apresentando com agenda cheia até o fim dos anos 80. O que houve foi uma progressiva mudança de rota e status nas suas turnês, deslocadas para cidades do Nordeste e para casas menores. Outro mito que cai por terra é o de que Simonal viveu deprimido após a confusão com o Dops. Alexandre deixa claro que a depressão não foi imediata, tendo o cantor mantido num primeiro instante a alegria que ainda o identificava no imaginário nacional. E mostra como a arrogância e a intransigência de Simonal - reincidentes mesmo depois do episódio de 1971 - o ajudaram a cavar a própria cova. Contudo, as qualidades artísticas do cantor - dono de voz privilegiada, suingue fenomenal e carisma grandioso - são enfatizadas na narrativa na mesma medida dos defeitos e erros do biografado. Nem Vem que Não Tem refaz os primeiros passos artísticos de Simonal com o mesmo rigor na apuração com que detalha sua descida ao inferno, sobretudo a partir do fim da década de 80, quando a perda da voz acelerou o processo de alcoolismo e consequente depressão, diluindo a autoestima do cantor. Foi aí que os filhos já crescidos, Wilson Simoninha e Max de Castro, entraram em cena para segurar a barra do pai. Inclusive a financeira. Na parte final, a narrativa fica mais pungente e o biógrafo não esconde certa ternura quase parcial pelo biografado, enfocado como uma vítima. Mas o livro jamais absolve explicitamente Wilson Simonal de seus erros. O que engrandece a biografia e a torna leitura essencial para todos que se interessam pela música brasileira e, em especial, por uma de suas personagens mais controvertidas de todos os tempos. Dez!

8 de novembro de 2009 23:27  
Anonymous Fabiano said...

se Simonal dedurou ou não, ninguém nunca vai saber porque mesmo quem foi dedurado nunca soube de nada. Raciocinem comigo: vamos supor que ele tivesse dedado fulano. Ninguém no dops ia atrás de fulano dizendo 'estamos te prendendo porque o simonal te dedurou'. Essas coisas não se provam. Fica o dito pelo não-dito. E tenho dito, he he he.. por isso é que eu não compro esse livro, fico com o filme

8 de novembro de 2009 23:50  
Anonymous Anônimo said...

Eu só discordo numa coisa: não acho que o livro tenta absolver Simonal da acusação esquerdista de "dedo-duro" em hora alguma.

O que há é diferente. É um tom meio alfinetador nos detratores imediatos de Simonal pós-imbróglio(notadamente o Pasquim; e dentro deste, notadamente Ziraldo e Jaguar). Sem querer santificar Simonal por isso.

Mas isso é o de menos, nesta grande obra (mais uma!) de Ricardo.

Felipe dos Santos Souza

9 de novembro de 2009 00:45  
Anonymous Anônimo said...

Ah, sim: acho que outro grande acerto do livro foi lembrar que Simonal não conseguiu fazer uma espécie de travessia, feita por muitos nos anos 1970, passando de "alienado" (caso de Ivan Lins) ou "defensor dos militares" (caso de Elis, que cantou na Olimpíada do Exército) para símbolo de resistência à ditadura.

Ivan e Elis fizeram isso a tempo. E tornaram-se, aos olhos de muitos que os criticaram, artistas exemplares. Já Simonal não pôde. Ou não soube. Ou não teve oportunidade, mesmo. Triste.

Bem, coisas do excessivo maniqueísmo político da época.

Felipe dos Santos Souza

9 de novembro de 2009 09:57  
Blogger thenewson said...

Felipe,

Gostei da sua análise. Aumentou ainda mais a minha vontade de comprar esse livro, como o Mauro bem disse, essencial para quem quer conhecer um pouco da história do Brasil e da música brasileira.

abração,
Denilson

9 de novembro de 2009 11:26  
Anonymous Anônimo said...

Para o Felipe Souza:
desculpa mas a Elis já se explicou sobre esse lance das Olimpíadas do Exército. Tá no livro da Echeverria.

Mauro, pelo que voce escreveu estamos perante um livro interessante de ser lido. Finalmente!! As biografias editadas nos últimos anos de Milton, Clara, Nara e Hermínio( para só citar algumas), são de uma falta de rigor gritante,lamentáveis. A da Maysa do Lira Neto é uma maravilha mas as outras sobre ela , apenas oportunistas.Tem gente por aí se achando pesquisador e publicando coisas que só servem prá confundir um povo que, por deficiencia cultural, tem pouca memória histórica.

9 de novembro de 2009 14:27  
Anonymous Anônimo said...

Dedurando ou não os outros, o que importa é a obra de Simonal...A vida pessoal e sexual de cada artista deveria ser deixada de lado. Eu preciso saber com quem Simone ou Caetano transam pra gostar deles??? Se são de direita ou centro esquerda? Essa gente mistura demais as coisas...

9 de novembro de 2009 21:20  
Anonymous Roberto Murilo said...

Finalmente alguém se lembrou que a carreira de Simonal não era mais a mesma antes do incidente de 1971. Seu último grande sucesso de vendas foi País Tropical em 1969.A chamada pilantragem já havia cansado, e as tentativas seguintes do cantor, seja no samba (Aqui é o País do Futebol) e no soul (Moro no fim da rua), não foram bem sucedidas.

10 de novembro de 2009 22:09  
Anonymous Anônimo said...

Arrogância de Simonal sempre é citada o que não se diz é que ser arrogante era muito comum na MPB de então. Elis, Bethânia, Gal, Caetano, todos eram de uma forma ou de outra arrogantes, até mesmo porque eles estavam no centro da cultura, na época.

11 de novembro de 2009 22:30  
Anonymous Anônimo said...

Elis arrogante?? Elis era uma doçura... o seu apelido Pimentinha já diz tudo.

11 de novembro de 2009 23:36  

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