27 de outubro de 2009

Saura dá tom atual ao fado com beleza plástica

Resenha de Filme
Título: Fados
Direção: Carlos Saura
Elenco: Caetano Veloso, Camané, Carlos do Carmo,
Chico Buarque, Lila Downs, Mariza, NBC, Rui Veloso,
SP & Wilson e Toni Garrido, entre outros
Cotação: * * * *
Em cartaz nos cinemas brasileiros desde 16 de outubro

Depois de fazer filmes de grande apuro estético em torno dos mais globalizados ritmos da Espanha natal (Flamenco, 1995) e da Argentina (Tango, 1998), Carlos Saura explora as variações da música que identifica a alma melancólica e passional de Portugal. Tardiamente em cartaz no Brasil, depois de já ter sido até lançado em DVD no exterior, Fados (2007) aborda o gênero que lhe dá nome com a beleza plástica recorrente na filmografia do cineasta espanhol. Composto de uma sucessão de quadros musicais, vários ilustrados com a dança, Fados é festa para olhos e ouvidos, por mais que um ou outro número soe dispensável. Sem deixar de reverenciar os nomes tradicionais do gênero, os mortos e os vivos, Saura enfoca o fado com olhar mais contemporâneo, sem purismos. Tanto que recorre aos rappers NBC e SP & Wilson para prestar tributo a Alfredo Marceneiro (1891 - 1982), fadista pioneiro. Contudo, Saura jamais trai a essência do fado. Explodem na tela - em cores ora vivas, ora intencionalmente esmaecidas - a paixão e a melancolia que pontuam o gênero. A paixão é o mote de um dos números mais belos, Foi na Travessa da Palha, fado entoado pela mexicana Lila Down para reviver a voz e a figura de Lucília do Carmo (1920 - 1999), mãe do também fadista Carlos do Carmo, presente no filme ao lado de jovens colegas como Camané.

Ao investigar as origens e as ramificações do fado, Saura refaz o trajeto Portugal-Brasil e arregimenta Caetano Veloso, Chico Buarque e Toni Garrido. Forçando sotaque lusitano, o compositor de Os Argonautas explora seu falsete em Estranha Forma de Vida, tema do número que rende justas homenagens a Amália Rodrigues (1920 - 1999), diva maior do fado. Já Chico revive com elegante sobriedade seu Fado Tropical, lembrança de Saura do tempo em que a música era instrumento político. Enquanto Chico canta, sempre sóbrio, são projetadas imagens do documentário português As Armas e o Povo (1975), que enfoca a Revolução dos Cravos, ocorrida em 1974. Por fim, Toni Garrido é o cantor de número vivaz - o lundu Menina Você que Tem - em que Saura defende que o fado também teve origem nos ritmos do Brasil imperial. Como também bem pode ser uma variação da morna de Cabo Verde, mote de outro quadro. Por mais que Saura siga à risca sua receita estética em Fados, filme realizado inteiramente em estúdio, o resultado é plastica e musicalmente encantador para quem se deixa levar pela magia do fado, o blues de Portugal. Veja!

2 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

Depois de fazer filmes de grande apuro estético em torno dos mais globalizados ritmos da Espanha natal (Flamenco, 1995) e da Argentina (Tango, 1998), Carlos Saura explora as variações da música que identifica a alma melancólica e passional de Portugal. Tardiamente em cartaz no Brasil, depois de já ter sido até lançado em DVD no exterior, Fados (2007) aborda o gênero que lhe dá nome com a beleza plástica recorrente na filmografia do cineasta espanhol. Composto de uma sucessão de quadros musicais, vários ilustrados com a dança, Fados é festa para olhos e ouvidos, por mais que um ou outro número soe dispensável. Sem deixar de reverenciar os nomes tradicionais do gênero, os mortos e os vivos, Saura enfoca o fado com olhar mais contemporâneo, sem purismos. Tanto que recorre aos rappers NBC e SP & Wilson para prestar tributo a Alfredo Marceneiro (1891 - 1982), fadista pioneiro. Contudo, Saura jamais trai a essência do fado. Explodem na tela - em cores ora vivas, ora intencionalmente esmaecidas - a paixão e a melancolia que pontuam o gênero. A paixão é o mote de um dos números mais belos, Foi na Travessa da Palha, fado entoado pela mexicana Lila Down para reviver a voz e a figura de Lucília do Carmo (1920 - 1999), mãe do também fadista Carlos do Carmo, presente no filme ao lado de jovens colegas como Camané.

Ao investigar as origens e as ramificações do fado, Saura refaz o trajeto Portugal-Brasil e arregimenta Caetano Veloso, Chico Buarque e Toni Garrido. Forçando sotaque lusitano, o compositor de Os Argonautas explora seu falsete em Estranha Forma de Vida, tema do número que rende justas homenagens a Amália Rodrigues (1920 - 1999), diva maior do fado. Já Chico revive com elegante sobriedade seu Fado Tropical, lembrança de Saura do tempo em que a música era instrumento político. Enquanto Chico canta, sempre sóbrio, são projetadas imagens do documentário português As Armas e o Povo (1975), que enfoca a Revolução dos Cravos, ocorrida em 1974. Por fim, Toni Garrido é o cantor de número vivaz - o lundu Menina Você que Tem - em que Saura defende que o fado também teve origem nos ritmos do Brasil imperial. Como também bem pode ser uma variação da morna de Cabo Verde, mote de outro quadro. Por mais que Saura siga à risca sua receita estética em Fados, filme realizado inteiramente em estúdio, o resultado é plastica e musicalmente encantador para quem se deixa levar pela magia do fado, o blues de Portugal. Veja!

27 de outubro de 2009 17:04  
Anonymous Anônimo said...

Olá Mauro, boa tarde

Mais uma vez, parabéns pelo seu texto brilhante. O filme " Fados" é de uma beleza plástica de tirar o fôlego. O Brasil está lindamente representado nessa película de Saura. Como voc~e sabe, em 1974 a cantora portuguesa, Paula Ribas, gravou para a editora de discos Marcus Pereira os " Fados Brasileiros" com composições e poemas de Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, Marcos Calazans, Chico Buarque, Chico Alves, Carlos Pena Filho, Caco Velho, Dorival Caymmi e Caetano Veloso.

Depois disso, muitos outros compositores brasileiros se dedicaram ao Fado que, segundo alguns historiadores, teve a sua origem aqui mesmo, no nosso Brasil. Ivan Lins tem um primor chamado " Barco Fantasma" que na voz de Maria Martha integrou a trilha sonora de "As Pupilas do Senhor Reitor". Mauro, se não conhece, procure conhecer: é um Hino ao emigrante português, aos milhares de mulheres e homens que saíram pelo mundo para ganhar o seu pão, aqueles que não couberam no ninho da Pátria portuguesa.
Se me permite: fica aqui o desafio para a dinamica e ousada Kati Almeida Braga, da Biscoito Fino: relance os " Fados Brasileiros" ou lance um inédito de "Novos Fados Brasileiros". Faça isso que estará, mais uma vez, fazendo mais pela cultura dos países lusófonos do que os políticos dos oito países de Língua Portuguesa.
Grande abraço, Mauro, sou sua admiradora
Eulalia Moreno
São Paulo

28 de outubro de 2009 14:31  

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