22 de agosto de 2009

Daniela celebra mistura brasileira em Canibália

Resenha de Show
Título: Canibália
Artista: Daniela Mercury (em fotos de Mauro Ferreira)
Local: Canecão (RJ)
Data: 21 de agosto de 2009
Cotação: * * * *
Em cartaz no Rio de Janeiro (RJ) até 23 de agosto
Com a liberdade antropofágica já permitida pelo tropicalista título do show Canibália, Daniela Mercury acentua a miscigenação de seu baticum afro-pop-baiano em espetáculo que resulta vibrante pela pegada percussiva da banda e pelo uso generoso de um corpo de bailarinos que dão movimento e colorido aos três blocos do roteiro em esfuziante interação com a cantora. A mistura é fina. A batida do samba-reggae se integra com bases eletrônicas sem, contudo, fazer a artista tirar o pé da Bahia, a "terra da felicidade", saudada logo na citação de Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso) que abre o roteiro após (tribal) número inicial de dança e batuque.
Canibália remete muito ao espetáculo anterior de Daniela, Balé Mulato (2006), quando celebra a negritude no medley Preta, que une Eu Sou Preto (Jota Velloso e Mariene de Castro) com Sorriso Negro (Jorge Portela e Adilson Barbado). As coreografias sempre eletrizantes dos dançarinos nesse número fazem de Canibália um verdadeiro balé mulato. Na sequência, Preta Pretinha entra em cena para reforçar o orgulho da negritude que dá o tom da música brasileira. Novos e velhos baianos se irmanam em roteiro que celebra o samba da terra de Dorival Caymmi (1914 - 2008) ao mesmo tempo em que propaga o atual pagode soteropolitano, representado pela citação de Sou Favela, o sucesso do grupo Parangolé. Mas a base que sustenta Canibália é a batida do samba-reggae. Daí a saudação a grupos afros como Ilê Aiyê (Ilê Pérola Negra, com um arranjo similar ao do show Eletrodoméstico, registrado por Daniela em 2002, em CD e DVD da série MTV ao Vivo) e Olodum (Olodum É Rei, tributo prestado na abertura do terceiro bloco). Sempre entre a tradição e a modernidade, Daniela sampleia a voz de Carmen Miranda (1909 - 1955) em O que É que a Baiana Tem? - o tema de Caymmi que é revivido num misto de samba e twist - e faz seu carnaval eletrônico ao fim do show com Oyá por Nós, a parceria com Margareth Menezes que bebe tanto nas fontes do afro-pop-brasileiro como na levada do drum'n'bass.
O cenário de Gringo Cardia contribui para o colorido do show. E, justiça seja feita, grande parte da magia de Canibália vem da eletricidade exibida por Daniela Mercury em cena. Apesar das múltiplas referências do roteiro, o calor da artista uniformiza o repertório e até disfarça o caráter mediano de algumas músicas inéditas (A Vida É um Carnaval, Trio em Transe) que compõem o repertório do CD Canibália, nas lojas em setembro de 2009. Novidade da safra autoral do álbum, o reggae Sol do Sul celebra o suingue tropical que irmana povos e ritmos da América Latina. Sem esquecer a mãe África, de cuja Angola vem o ritmo e a dança do kuduro que pontuam Quero a Felicidade. Com o suingue da cor, a baiana se aventura ainda a cantar Legião Urbana (Tempo Perdido), Raul Seixas (Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás) e Belchior (Como Nossos Pais) num bloco de energia mais roqueira que se sustenta na imediata empatia do público com músicas que já estão na memória afetiva dos brasileiros. No bis, o choro Tico-Tico no Fubá e Quero Ver o Mundo Sambar acentuam a intenção de Canibália de deglutir referências planetárias sem tirar o pé do chão nacional. E, por mais que tais citações sejam múltiplas e rápidas, tudo se irmana no suinge sedutor desse balé mulato que celebra a mistura brasileira com todas as liberdades tropicalistas.

17 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

Com a liberdade antropofágica já permitida pelo tropicalista título do show Canibália, Daniela Mercury acentua a miscigenação de seu baticum afro-pop-baiano em espetáculo que resulta vibrante pela pegada percussiva da banda e pelo uso generoso de um corpo de bailarinos que dão movimento e colorido aos três blocos do roteiro em esfuziante interação com a cantora. A mistura é fina. A batida do samba-reggae se integra com bases eletrônicas sem, contudo, fazer a artista tirar o pé da Bahia, a "terra da felicidade", saudada logo na citação de Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso) que abre o roteiro após (tribal) número inicial de dança e batuque.
Canibália remete muito ao espetáculo anterior de Daniela, Balé Mulato (2006), quando celebra a negritude no medley Preta, que une Eu Sou Preto (Jota Velloso e Mariene de Castro) com Sorriso Negro (Jorge Portela e Adilson Barbado). As coreografias sempre eletrizantes dos dançarinos nesse número fazem de Canibália um verdadeiro balé mulato. Na sequência, Preta Pretinha entra em cena para reforçar o orgulho da negritude que dá o tom da música brasileira. Novos e velhos baianos se irmanam em roteiro que celebra o samba da terra de Dorival Caymmi (1914 - 2008) ao mesmo tempo em que propaga o atual pagode soteropolitano, representado pela citação de Sou Favela, o sucesso do grupo Parangolé. Mas a base que sustenta Canibália é a batida do samba-reggae. Daí a saudação a grupos afros como Ilê Aiyê (Ilê Pérola Negra, com um arranjo similar ao do show Eletrodoméstico, registrado por Daniela em 2002, em CD e DVD da série MTV ao Vivo) e Olodum (Olodum É Rei, tributo prestado na abertura do terceiro bloco). Sempre entre a tradição e a modernidade, Daniela sampleia a voz de Carmen Miranda (1909 - 1955) em O que É que a Baiana Tem? - o tema de Caymmi que é revivido num misto de samba e twist - e faz seu carnaval eletrônico ao fim do show com Oyá por Nós, a parceria com Margareth Menezes que bebe tanto nas fontes do afro-pop-brasileiro como na levada do drum'n'bass.
O cenário de Gringo Cardia contribui para o colorido do show. E, justiça seja feita, grande parte da magia de Canibália vem da eletricidade exibida por Daniela Mercury em cena. Apesar das múltiplas referências do roteiro, o calor da artista uniformiza o repertório e até disfarça o caráter mediano de algumas músicas inéditas (A Vida É um Carnaval, Trio em Transe) que compõem o repertório do CD Canibália, nas lojas em setembro de 2009. Novidade da safra autoral do álbum, o reggae Sol do Sul celebra o suingue tropical que irmana povos e ritmos da América Latina. Sem esquecer a mãe África, de cuja Angola vem o ritmo e a dança do kuduro que pontuam Quero a Felicidade. Com o suingue da cor, a baiana se aventura ainda a cantar Legião Urbana (Tempo Perdido), Raul Seixas (Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás) e Belchior (Como Nossos Pais) num bloco de energia mais roqueira que se sustenta na imediata empatia do público com músicas que já estão na memória afetiva dos brasileiros. No bis, o choro Tico-Tico no Fubá e Quero Ver o Mundo Sambar acentuam a intenção de Canibália de deglutir referências planetárias sem tirar o pé do chão nacional. E, por mais que tais citações sejam múltiplas e rápidas, tudo se irmana no suinge sedutor desse balé mulato que celebra a mistura brasileira com todas as liberdades tropicalistas.

22 de agosto de 2009 às 13:52  
Anonymous Anônimo said...

Bela resenha, Mauro. E fez por merecer quem um dia saiu do cantinho da cidade para conquistar o centro do planeta :-)

Acabou com preconceitos, venceu a tristeza de ter visto seu púbico diminuir, mas com certeza hoje deveria e deve reconhecer que seu MENOR PÚBLICO EM QUANTIDADE É MUITO MAIOR EM QUALIDADE.

Conquistou até você!

22 de agosto de 2009 às 15:32  
Anonymous Anônimo said...

Mauro, respeito sua opinião, mas estive no espetáculo e ele não merece nem de longo 2 estrelas, um show mediano, sem disco novo, músicas cantadas por osmose e um repertório de lançamento de coletânea, das duas uma: ou o disco vem arrebentando tudo ou esse show foi um verdadeiro tiro n´´agua da baiana, quem assistiu "o canto da cidade"(canecão/92), "música de rua" (Imperator/94), ou até mesmo "feijão com arroz" (metropolitan/97), sabe que Daniela precisa de um pouco de humildade em relação à sua carreira e não ser tão abusada em tentar 3 dias no canecão!!
Amo Daniela, mas a mesma, já se perdeu há algum tempo, principalmente dando a direção do show nas mãos da filha, a direção musical do show na mão do filho e a cenografia pra Gringo cardia, é um trio meio controverso qeu só podia das no que deu, ou seja, um fiasco!!!

22 de agosto de 2009 às 15:44  
Anonymous Anônimo said...

Prezado fã da antiga, como disse o anônimo anterior, procura a "outra" Daniela que você acha. 2 pelo menos eu sei que tem. Eu passo longe, sou fã dos novos tempos, mas se ainda quer SÓ o "tira o pé do chão" deve estar em promoção em tudo que é loja.

Abraços.

22 de agosto de 2009 às 16:08  
Anonymous Anônimo said...

Sem texto mesmo, só PS.

PS: em qual show não se canta música por osmose ? Só naqueles chatos onde artistas ficam querendo mandar 3 inéditas em sequência. Show é para isso: OUVIR - E VER - SUCESSO!

22 de agosto de 2009 às 16:24  
Anonymous Anônimo said...

Pois para mim ela justamente começou a se achar depois de "Feijão com Arroz", quando partiu para música mais, digamos, "profissional". Viu como opinião é relativa e gosto não se discute ?

Quem hoje vai a um show de Daniela ou compra um disco seu esperando ouvir o "tira o pé do chão e levanta as mãos para cima (redundância é pouco)" é melhor optar por outras...

22 de agosto de 2009 às 16:33  
Anonymous Anônimo said...

Eu tô falando que o público da Daniela é de nível...

Dá-lhe Daniela.

22 de agosto de 2009 às 16:40  
Blogger Estalactites hemorrágicas said...

Afffff

22 de agosto de 2009 às 18:51  
Blogger Pedro Progresso said...

Foi justo o bloco que o Mauro achou que criou "empatia com o público" que eu achei mais desnecessário possível. Só salvou "Elétrica".
Não gosto quando Dani viaja nessas de cantar Elis/Raul/Legião, sendo que ela tem um repertório que daria muito mais o que falar se fosse relembrado.
A alegria das pessoas ao ver ela cantar "Batuque" aqui em Sampa confirma o que eu digo.

23 de agosto de 2009 às 00:04  
Anonymous Anônimo said...

Simplesmente o show é fantástico... DESTACO ''TRIO EM TRANSE'' muito boa... ++ Poderia ter mais... inéditas do novo DISCO... e Oyá por Nos... é tudo de bom!

23 de agosto de 2009 às 09:31  
Anonymous Léo said...

Show fantástico, onde Daniela mostra toda sua versatilidade de intérprete e seu talento de bailarina. Um espetáculo de verdade, com uma força cênica e musical impresionante. Muito além do "tira o pé do chão" ao que o povão está acostumado.
Fui à estreia, e hoje irei novamente. Vale muito a pena!

23 de agosto de 2009 às 14:28  
Anonymous Jansen Sarmento said...

Bem, tive o prazer de mais uma vez comprovar o talento da maior cantora baiana de axé do Brasil... Daniela é a melhor!!!! Não tem Ivete, Cláudia e nem mesmo Margareth... De todas essas, ela foi a que melhor conseguiu mesclar sua carreira, circulando por diversas vertentes de nossa MPB, sem ficar estigmatizada apenas como cantora de axé... Daniela se tornou uma de nossas divas da MPB!!!!! O show foi maravilhoso!!!!! Uma excelente degustação visual e auditiva do que há de melhor em nossa musicalidade!!!!!!

23 de agosto de 2009 às 15:22  
Anonymous Plava said...

Antropofagia. Pfffft...

23 de agosto de 2009 às 20:06  
Anonymous Anônimo said...

Os fãs de Daniela e de Bethânia são os mais imparciais que eu conheço. São incapazes de analisar friamente a artista.

24 de agosto de 2009 às 09:57  
Anonymous Anônimo said...

Show espetacular... Um parabéns a Daniela... e a mesma ACABA de registrar - se como uma das maiores e mais importantes artistas brasileiras... (Peloumenos passei a considerar... Após esse show que fui carregado por minha noiva...)

24 de agosto de 2009 às 11:52  
Anonymous Anônimo said...

Anônimo das 11:52, minha história é parecida. Namorada, noiva, esposa, companheira ou companheiro servem para isso também.

Abraços.

24 de agosto de 2009 às 11:58  
Anonymous Anônimo said...

Daniela Mercury? certo dia perguntei a um amigo se ela ainda existia, e falo sério quando digo isso. Dani marcou minha adolescencia e confesso que foi um momento marcante na musica brasileira aqueles anos entre 92/94 e esta cidadã foi responsavel por tudo isso. Torço por ela e concerteza vou ver o show! abraço a todos.

25 de agosto de 2009 às 21:54  

Postar um comentário

<< Home