10 de maio de 2009

Filme expõe a filosofia zen do 'monge sambista'

Resenha de filme
Título: Filosofia de
Vida Martinho da Vila
O Pequeno Burguês
Produção: MZA
Music e Canal Brasil
Direção: Edu
Mansur
Cotação: * * * *
Estreia prevista
para outubro ou
novembro de 2009

"Ele parece um monge sambista", observa com propriedade o produtor musical Marco Mazzola a respeito de Martinho da Vila. A definição é dada ao longo do documentário que expõe a filosofia zen que rege o compositor. Viabilizado por parceria do Canal Brasil com a MZA Music (a gravadora de Mazzola que desde 2003 edita os discos de Martinho), o filme foi exibido em primeira mão para o público de Duas Barras (RJ), cidade natal do artista, em cinco sessões realizadas na Sala de Cinema Cacá Diegues ao longo da tarde e da noite de sábado, 9 de maio de 2009. A estreia nos cinemas está prevista para outubro ou novembro depois que o filme percorrer o circuito de festivais, a começar pela 19ª edição do Cine Ceará, programada para o período de 28 de julho a 4 de agosto de 2009.

Através de depoimentos de familiares, amigos e profissionais que convivem com Martinho da Vila, o diretor Edu Mansur perfila o compositor que, como seu samba, tem cadência toda própria. "A maior coisa que meu pai me ensinou foi viver bem", resume Tunico Ferreira. "Só acordo cedo para pescar", admite Martinho, já no fim do filme. O roteiro não oferece detalhada cronologia da vida de seu personagem, mas salpica dados biográficos ao longo da narrativa e acaba revelando a importância do compositor para o samba e a cena cultural brasileira. "Meu pai firmou o partido alto e foi o primeiro a botar o samba em rádio de MPB", historia - com orgulho e conhecimento de causa - Mart'nália, a filha hoje famosa.

A relação afetuosa de Martinho com sua cidade natal domina a narrativa no início do filme. O artista conta que, em meados dos anos 90, pensou em sair de cena para se refugiar de vez na fazenda construída em Duas Barras, mas teve que alterar os planos e descer (a serra) por conta do sucesso estrondoso de Tá Delícia, Tá Gostoso (1995), o álbum que emplacou os hits Mulheres e Devagar Devagarinho. A propósito, takes ao vivo de Mulheres - extraídos de shows de Martinhos - são costurados em cena para ilustrar a história de amor que une o artista a Cleo Ferreira, a mulher que lhe deus os filhos Preto e Alegria. E que exerce papel fundamental na organização da vida cotidiana do marido. "Eu gosto de pôr mulher à frente", ressalta Martinho, em depoimento antimachista, acrescentado que incentivou Cleo a fazer faculdade.

Nem mesmo o filme devassa a vida particular do cantor. "Meu pai não gosta de falar coisas íntimas", pontua Mart'nália. Foi sem falar com ninguém, refugiado em seu mundo interior, que Martinho vivenciou e superou o luto pela morte da mãe, Teresa de Jesus (1907 - 2001), figura fundamental em sua vida como mostra o filme. Da mãe Tereza, ele herdou os valores religiosos que professa através da fé católica. "A vida dele é tentar abafar a morte", interpreta Analimar, uma das filhas de Martinho. De Martinho, Analimar herdou o gosto pelo samba. Mas outra filha, Maíra, fruto de relação extraconjugal de Martinho, seguiu a trilha da música erudita, levando a série o estudo do piano - para o orgulho do pai.

Fora do ambiente familiar, Filosofia de Vida recorda a firme militância de Martinho na Unidos de Vila Isabel e a sua atuação para estreitar os laços do Brasil com a mãe África. O samba nunca teve fronteiras e, do material de arquivo, um dos destaques são as imagens de viagem do artista a Moscou em caravana integrada por nomes como o político Aécio Neves. Em solo brasileiro, Dudu Nobre enfatiza em encontro com Martinho a importância que LPs como Tendinha (1978) e O Canto das Lavadeiras (1989) tiveram na sua formação musical. E, assim, entre um depoimento e outro, o filme apresenta terno perfil de Martinho José Ferreira, o monge sambista que leva a vida em ritmo zen, mas não devagar...

1 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

"Ele parece um monge sambista", observa com propriedade o produtor musical Marco Mazzola a respeito de Martinho da Vila. A definição é dada ao longo do documentário que expõe a filosofia zen que rege o compositor. Viabilizado por parceria do Canal Brasil com a MZA Music (a gravadora de Mazzola que desde 2003 edita os discos de Martinho), o filme foi exibido em primeira mão para o público de Duas Barras (RJ), cidade natal do artista, em cinco sessões realizadas na Sala de Cinema Cacá Diegues ao longo da tarde e da noite de sábado, 9 de maio de 2009. A estreia nos cinemas está prevista para outubro ou novembro depois que o filme percorrer o circuito de festivais, a começar pela 19ª edição do Cine Ceará, programada para o período de 28 de julho a 4 de agosto de 2009.

Através de depoimentos de familiares, amigos e profissionais que convivem com Martinho da Vila, o diretor Edu Mansur perfila o compositor que, como seu samba, tem cadência toda própria. "A maior coisa que meu pai me ensinou foi viver bem", resume Tunico Ferreira. "Só acordo cedo para pescar", admite Martinho, já no fim do filme. O roteiro não oferece detalhada cronologia da vida de seu personagem, mas salpica dados biográficos ao longo da narrativa e acaba revelando a importância do compositor para o samba e a cena cultural brasileira. "Meu pai firmou o partido alto e foi o primeiro a botar o samba em rádio de MPB", historia - com orgulho e conhecimento de causa - Mart'nália, a filha hoje famosa.

A relação afetuosa de Martinho com sua cidade natal domina a narrativa no início do filme. O artista conta que, em meados dos anos 90, pensou em sair de cena para se refugiar de vez na fazenda construída em Duas Barras, mas teve que alterar os planos e descer (a serra) por conta do sucesso estrondoso de Tá Delícia, Tá Gostoso (1995), o álbum que emplacou os hits Mulheres e Devagar Devagarinho. A propósito, takes ao vivo de Mulheres - extraídos de shows de Martinhos - são costurados em cena para ilustrar a história de amor que une o artista a Cleo Ferreira, a mulher que lhe deus os filhos Preto e Alegria. E que exerce papel fundamental na organização da vida cotidiana do marido. "Eu gosto de pôr mulher à frente", ressalta Martinho, em depoimento antimachista, acrescentado que incentivou Cleo a fazer faculdade.

Nem mesmo o filme devassa a vida particular do cantor. "Meu pai não gosta de falar coisas íntimas", pontua Mart'nália. Foi sem falar com ninguém, refugiado em seu mundo interior, que Martinho vivenciou e superou o luto pela morte da mãe, Teresa de Jesus (1907 - 2001), figura fundamental em sua vida como mostra o filme. Da mãe Tereza, ele herdou os valores religiosos que professa através da fé católica. "A vida dele é tentar abafar a morte", interpreta Analimar, uma das filhas de Martinho. De Martinho, Analimar herdou o gosto pelo samba. Mas outra filha, Maíra, fruto de relação extraconjugal de Martinho, seguiu a trilha da música erudita, levando a série o estudo do piano - para o orgulho do pai.

Fora do ambiente familiar, Filosofia de Vida recorda a firme militância de Martinho na Unidos de Vila Isabel e a sua atuação para estreitar os laços do Brasil com a mãe África. O samba nunca teve fronteiras e, do material de arquivo, um dos destaques são as imagens de viagem do artista a Moscou em caravana integrada por nomes como o político Aécio Neves. Em solo brasileiro, Dudu Nobre enfatiza em encontro com Martinho a importância que LPs como Tendinha (1978) e O Canto das Lavadeiras (1989) tiveram na sua formação musical. E, assim, entre um depoimento e outro, o filme apresenta terno perfil de Martinho José Ferreira, o monge sambista que leva a vida em ritmo zen, mas não devagar...

10 de maio de 2009 22:51  

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