17 de fevereiro de 2009

'O Som do Pasquim' ainda reverbera com força

Resenha de Livro
Título: O Som
do Pasquim
Organização: Tárik
de Souza
Editora: Desiderata
Cotação: * * * 1/2

Editado originalmente em 1976, o livro O Som do Pasquim ganha reedição para festejar os 40 anos que o semanário - extinto em 1991 - completaria em 2009. Trata-se de compilação de 10 entrevistas concedidas por nomes da música nativa ao lendário jornal. A seleção é bem interessante porque mistura os artistas normalmente escolhidos neste gênero de coletâneas - Caetano Veloso, Chico Buarque e Tom Jobim (1927 - 1994) - com nomes aos quais quase nunca a imprensa, alternativa ou oficial, dá voz. São os casos dos cantores Agnaldo Timóteo e Waldick Soriano (1933 - 2008), identificados com a música dita cafona. A entrevista de Timóteo é das mais interessantes por ser pontuada pela mágoa exposta pelo cantor por conta da rejeição da crítica e da elite - no caso, representada até pela banca de entrevistadores do jornal (Timóteo chegou ao cúmulo de levar um dicionário para a entrevista para poder compreender o vocabulário usado pelos jornalistas). Com a língua afiada, disparou ataques às obras de Tom Jobim, Milton Nascimento e Caetano Veloso. Contudo, ao ser consultado para a inclusão de sua entrevista na reedição do livro, fez corajoso mea culpa (publicado ao fim da entrevista) em que afirma que seus atacados colegas estão acima do que hoje Timóteo considera "uma análise ignorante e preconceituosa de décadas atrás". Já Waldick não teve tempo de rever suas posições, mas provavelmente repetiria máximas machistas como "Sou casado em casa. Saio na rua e ninguém tem nada com minha vida" ou "Mulher deve ser sempre subalterna ao homem". Outra figura bissexta em publicações do gênero, o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914 - 1974) fez no Pasquim - um ano de sua morte - um inventário de suas dores de amores (inspiradoras de músicas como Vingança) enquanto afirmava a paixão suprema pela boemia. Bem mais curiosa sob a perspectiva do tempo, a entrevista de Martinho da Vila - concedida ao fim de 1969, ano do estouro de seu primeiro LP - é pontuada pela certeza do sambista de que sua permanência na vida artística seria passageira. Felizmente, o compositor se enganou, mas é por essas e outras que O Som do Pasquim (R$ 39, 90. 277 páginas) reverbera interessante e contundente mais de 30 anos após a edição original de um livro que expõe a ideologia de dez criadores (ou diluidores, no caso de Timóteo) da música brasileira ouvida na década de 70.

12 Comments:

Blogger Mauro Ferreira said...

Editado originalmente em 1976, o livro O Som do Pasquim ganha reedição para festejar os 40 anos que o semanário - extinto em 1991 - completaria em 2009. Trata-se de compilação de 10 entrevistas concedidas por nomes da música nativa ao lendário jornal. A seleção é bem interessante porque mistura os artistas normalmente escolhidos neste gênero de coletâneas - Caetano Veloso, Chico Buarque e Tom Jobim (1927 - 1994) - com nomes aos quais quase nunca a imprensa, alternativa ou oficial, dá voz. São os casos dos cantores Agnaldo Timóteo e Waldick Soriano (1933 - 2008), identificados com a música dita cafona. A entrevista de Timóteo é das mais interessantes por ser pontuada pela mágoa exposta pelo cantor por conta da rejeição da crítica e da elite - no caso, representada até pela banca de entrevistadores do jornal (Timóteo chegou ao cúmulo de levar um dicionário para a entrevista para compreender o vocabulário usado pelos jornalistas). Com a língua afiada, disparou ataques às obras de Tom Jobim, Milton Nascimento e Caetano Veloso. Contudo, ao ser consultado para a inclusão de sua entrevista na reedição do livro, fez corajoso mea culpa (publicado ao fim da entrevista) em que afirma que seus atacados colegas estão acima do que hoje Timóteo considera "uma análise ignorante e preconceituosa de décadas atrás". Já Waldick não teve tempo de rever suas posições, mas provavelmente repetiria máximas machistas como "Sou casado em casa. Saio na rua e ninguém tem nada com minha vida" ou "Mulher deve ser sempre subalterna ao homem". Outra figura bissexta em publicações do gênero, o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914 - 1974) fez no Pasquim - um ano de sua morte - um inventário de suas dores de amores (inspiradoras de músicas como Vingança) enquanto afirmava a paixão suprema pela boemia. Bem mais curiosa sob a perspectiva do tempo, a entrevista de Martinho da Vila - concedida ao fim de 1969, ano do estouro de seu primeiro LP - é pontuada pela certeza do sambista de que sua permanência na vida artística seria passageira. Felizmente, o compositor se enganou, mas é por essas e outras que O Som do Pasquim (R$ 39, 90. 277 Páginas) reverbera interessante e contundente mais de 30 anos após a edição original de um livro que expõe a ideologia de dez criadores (ou diluidores, no caso de Timóteo) da música brasileira ouvida na década de 70.

17 de fevereiro de 2009 09:15  
Anonymous Anônimo said...

Logo depois, já no início do movimento independente, o Pasquim lançou o som em formato de Lp, usando as músicas iniciais de Fagner, João Bosco e outras preciosidades. Com foto novela com Neuzinha Brizola e tudo...
O difícil é ter as liberações hoje, mas que o disco cairia bem, isso cairia...
Carioca da Gema, do tempo em que o guiche do Pasquim era uma mulata de pernas abertas

17 de fevereiro de 2009 10:20  
Anonymous lucca said...

Pena que Bethânia não autorizou a publicação de sua entrevista (final dos sessenta) onde ela fala da tentativa de suicídio (tomou varsol - sic) e da surra que teria aplicado no G. Araújo. Hilário!
Nos primórdios da carreira, Bethânia já se mostrava voluntariosa e segura de suas verdades.

17 de fevereiro de 2009 11:37  
Anonymous Léo said...

Bethânia não autorizou a inclusão da entrevista, mas ela está publicada na íntegra, no seu site oficial...

17 de fevereiro de 2009 12:29  
Anonymous Léo said...

Mauro, vc viu os erros bizarros de digitação que tem no relançamento do primeiro disco da Beth Carvalho, pela EMI?
Fechei a "PARTA" e Vinicius de "MOARES", por exemplo...
Que pena que as gravadoras nem sempre utilizem o trabalho de um revisor...

17 de fevereiro de 2009 12:36  
Anonymous Anônimo said...

mano Freire disse

Mauro, qual é a editora e onde este livro vai estar à venda? nas bancas, livrarias, ?????

17 de fevereiro de 2009 14:05  
Anonymous Anônimo said...

Agnaldo Timóteo perde sempre boas oportunidades de ficar bem calado! Cantando já é ruim...falando então...

17 de fevereiro de 2009 15:08  
Anonymous Luc said...

Agnaldo Timóteo sempre deu a impressão de ressentimento com a MPB e com as esquerdas (sobretudo depois do Brizola). Ressentimento social. Ao mesmo tempo, andou gravando Chico, Fagner e outros em certa época.

A revisão pública de suas próprias ideias é interessante, tanto na arte, quanto na política, onde se tornou entusiasta do atual Presidente.

17 de fevereiro de 2009 16:06  
Anonymous Anônimo said...

Timóteo é um cara frontal, direto. Adoro ele, uma das grandes vozes do Brasil
Abraço
Rogério - Sampa

17 de fevereiro de 2009 18:48  
Anonymous Anônimo said...

A voz de Timóteo é dura, nada flexivel... Ele canta Roberto, Chico ou sertaneja da mesma maneira!

18 de fevereiro de 2009 00:26  
Anonymous Denilson said...

Ótima a entrevista da Bethânia, que está disponível no site dela.

Valeu pela dica, Léo.

Saudades de uma época em que as pessoas tinham mais atitude.

abração,
Denilson

18 de fevereiro de 2009 08:36  
Anonymous Anônimo said...

Faltaram nesta edição as entrevistas de Roberto Carlos, Maria Bethânia e Angela Maria.
No caso de Angela, segundo o que li em algum lugar da internet, ela não autorizou a publicação por ter citações não muito gentis às cantoras Elis Regina e Gal Costa. Disse que Gal Costa gritava muito ao cantar e que Elis Regina não a convencia cantando romântico.
Ora, foi o que a maior cantora do Brasil achava naquele momento, então penso que não haveria nada demais em permitir as entrevistas.
Angela poderia ter feito uma mea culpa no final, como Agnaldo Timóteo.
Ou será que Angela Maria ainda continua pensando assim sobre as referidas cantoras? Mas não tem importância, ela pode, pois foi professora das outras duas, e continua sendo a maior de todas!!!

24 de fevereiro de 2009 12:45  

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