3 de novembro de 2007

DVD perpetua a noite de Gilmour com Bowie

Com direito a hits do grupo Pink Floyd, entre eles Time e Wish You Were Here, David Gilmour deu um show de cerca de três horas no Royal Albert Hall, em Londres, em 29 de maio de 2006. Com roteiro centrado no repertório do bom terceiro disco solo do guitarrista, On a Island, o espetáculo - incrementado com a participação de David Bowie em Arnold Layne e em Comfortably Numb - foi perpetuado em DVD duplo que já está sendo lançado no Brasil pela Sony BMG em formato digipack. O DVD Remember That Night - David Gilmour Live at the Royal Albert Hall traz dois clipes, o making of do álbum On a Island e o documentário Breaking Bread, Drinking Wine.

Quatro novas em coletânea parcial de Santana

Quatro gravações inéditas são as iscas para atrair fiéis fãs do guitarrista Carlos Santana para a compra da nova compilação do astro, intitulada Ultimate Santana. A coletânea já está sendo lançada no Brasil pela Sony BMG. Uma das inéditas - Into the Night, faixa em que Santana faz dueto com Chad Kroeger, o vocalista do grupo Nickelback - foi a faixa escolhida para promover a compilação. A seleção abrange de forma parcial a discografia de Santana. As 18 músicas representam apenas os três primeiros álbuns do artista - Santana (1969), Abraxas (1970) e Santana III (1971) - e os trabalhos lançados a partir de seu triunfal retorno ao mercado em 1999, com o álbum Supernatural. A única exceção é Europa, do disco Amigos, de 1976. Daí as quatro inéditas para fisgar fãs que compraram as duas coletâneas anteriores The Best of Santana (1998) e The Essential Santana (2002). Eis o repertório do CD Ultimate Santana, com a relação das músicas (e suas origens):

1. Into the Night - Gravação inédita com Chad Kroeger
2. This Boy's Fire - Gravação inédita com Jennifer Lopez e Baby Bash
3. Smooth - Gravação com Rob Thomas do álbum Supernatural (1999)
4. Maria Maria - Gravação com Product G & B do álbum Supernatural (1999)
5. Oye como Va - Gravação do álbum Abraxas (1970)
6. Black Magic Woman- Gravação do álbum Abraxas (1970)
7. Evil Ways - Gravação do álbum Santana (1969)
8. Corazon Espinado - Gravação com Maná do álbum Supernatural (1999)
9. Europa - Gravação do álbum Amigos (1976)
10. The Game of Love - Gravação inédita com Tina Turner
11. Put your Lights on - Gravação com Everlast do álbum Supernatural (1999)
12. Why Don't You and I - Gravação de single de 2003
13. Everybody's Everything - Gravação do álbum Santana III (1971)
14. Just Feel Better - Gravação com Steven Tyler do álbum All That I Am (2005)
15. Samba Pa Ti - Gravação do álbum Abraxas (1970)
16. No One to Depend on - Gravação do álbum Santana III (1971)
17. The Game of Love - Gravação com Michelle Branch do álbum Shaman (1992)
18. Interplanetary Party - Gravação inédita

CD de Roberta Sá ganha tiragens ascendentes

Firme até o momento no posto de melhor disco brasileiro de 2007, o segundo CD da ótima cantora Roberta Sá, Que Belo Estranho Dia para se Ter Alegria, está vendendo tão bem que suas novas tiragens já estão sendo fabricadas com números sempre ascendentes. A gravadora Universal Music, que distribui o disco, acaba de prensar uma quarta tiragem com mais 10 mil cópias (se a primeira teve três mil cópias, a segunda contabilizou cinco mil e a terceira foi de seis mil cópias). Ao todo, as quatro tiragens totalizam 24 mil exemplares - número bastante expressivo para uma cantora ainda pouco conhecida fora da cena do samba e do eixo Rio-São Paulo...

50 Cent está longe de um massacre em 'Curtis'

Resenha de CD
Título: Curtis
Artista: 50 Cent
Gravadora: G Unit
/ Universal Music
Cotação: * * 1/2

Curtis Jackson é o verdadeiro nome de 50 Cent, rapper bem marrento que tem estado em evidência nos Estados Unidos. Daí o título de seu terceiro álbum, Curtis, que chegou ao mercado norte-americano sem a força comercial dos anteriores Get Rich or Die Tryin' (2003) e The Massacre (2005). O álbum oferece muita produção para pouco conteúdo. Não fosse o estelar time de convidados, Curtis passaria em branco com as batidas pesadas de músicas como My Gun Go Off e Man Down (Censored). Mas há os vocais poderosos de Mary J. Blige em All of me. E há a dobradinha Justin Timberlake / Timbaland em Ayo Technology, de pulsação tão envolvente quanto a de Peep Show, ótima faixa na qual figura Eminem, o responsável pela projeção de 50 Cent na cena hip hop norte-americana. E ainda tem Akon (em I'll Still Kill) e tem Robin Thicke em Follow my Lead, um apelo ao sexo feminino feito com uma das batidas mais leves do álbum. Apesar de toda a produção, 50 Cent vai morrer tentando em vão impressionar em Curtis. No todo, o CD toca mais do mesmo - apesar de o rapper ter esboçado ligeira mudança de fórmula - e está muito longe de um massacre...

2 de novembro de 2007

Camelo pode lançar CD solo de samba em 2008

A informação não é oficial, mas pode ser que - aproveitando o inesperado recesso por tempo indeterminado do quarteto Los Hermanos - Marcelo Camelo já edite em 2008 o seu primeiro disco solo, com repertório mais voltado para o samba. A notícia teria sido veiculada em recente programa da MTV. Faz sentido.

'Podecrer!' revive anos 80 com músicas dos 70

Em cartaz nos cinemas, a partir de sexta-feira, 2 de novembro, Podecrer! é filme gracioso de trama situada em 1981 - ano marcado por uma efervescência na cena pop carioca que acabaria detonando a explosão do rock brasileiro no verão de 1982. Contudo, a trilha do filme, que será editada em CD pela Universal Music, está centrada em músicas dos anos 70. Dado Villa-Lobos assina a música original. Já Roberto Frejat criou o arranjo e os riffs da gravação de Aumenta que Isso Aí É Rock'n'roll - o sucesso de Celso Blues Boy ouvido no filme no registro da fictícia banda que dá nome ao longa-metragem de Arthur Fontes. Eis as músicas da deslocada - porém saborosa - trilha sonora do filme Pode Crer!:

1. Os Alquimistas Estão Chegando - Jorge Ben
2. Eu Amo Você - Tim Maia
3. You Don't Know me - Caetano Veloso
4. Amor - Secos & Molhados
5. Volks, Volkswagen Blues - Gilberto Gil
6. Aumenta que Isso Aí É Rock'n'Roll - Banda Podecrer!
7. Only the Strong Survive - Billy Paul
8. Perigosa - Frenéticas

O argumento de Arthur Fontes para justificar a trilha centrada em sucessos dos anos 70 é o de que o jovem carioca ainda não ouvia rock brasileiro em 1981. De fato, foi a partir do verão de 1982 que a Blitz estourou e legitimou a cena pop nativa, até então cultuada no underground. Mas é fato também que, em 1981, várias músicas de tom mais pop já fizeram sucesso entre a juventude. Entre elas, Lua e Estrela (bela canção de Vinicius Cantuária, popularizada por Caetano Veloso), Deixa Chover (hit de Guilherme Arantes na trilha da novela Baila Comigo), Eu Também Quero Beijar (sucesso na voz de Pepeu Gomes) e Lança Perfume (carro-chefe do álbum que Rita Lee lançou em1980, mas que tocou muito ao longo de 1981). Só que nenhum destes hits entrou na trilha sonora de Podecrer!.

Solo de Knopfler trafega suave por folk e country

Resenha de CD
Título: Kill to Get Crimson
Artista: Mark Knopfler
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * *

Em seu quinto CD solo, Mark Knopfler transita suave por folk e country. Munido de sua guitarra elétrica (cujo toque é identificável em poucos acordes) e de sua voz de barítono (ainda em forma), o cantor do Dire Straits apresenta um disco elegante, de arranjos econômicos urdidos com instrumental tradicional. A safra de 12 inéditas canções autorais sustenta o álbum. O grande destaque é True Love Will Never Fade, mas vale prestar atenção também em Heart Full of Holes, The Scaffolder's Wife, Let It All Go e The Fish and the Bird. Já Punish the Monkey parece ter saído de um álbum do Dire Straits. O que não deixa de ser um mérito. Ouça.

Tom Zé ironiza o funk em DVD que sai em 2008

Com ironia, Tom Zé discorre sobre o funk carioca numa entrevista gravada para ser incluída em DVD a ser lançado em 2008 pela gravadora Trama em parceria com o Canal Brasil. "O funk veio para substituir o Papa Bento XVI, Caetano Veloso, Tom Zé e Gilberto Gil. Agora todos já podem se aposentar... O funk carioca nasceu para tomar o lugar da gente", ironiza o velho baiano - antes de fazer análise sarcástica de um refrão típico do batidão que anima os bailes da pesada no Rio de Janeiro. O vídeo já está no YouTube - disponibilizado pela própria gravadora Trama. Puro marketing... Com direito a sutis alfinetadas nos dois colegas tropicalistas de Zé.

1 de novembro de 2007

CD duplo reúne 36 temas da obra solo de Simon

Para sempre associado à dupla que formou nos anos 60 com Art Garfunkel, Paul Simon tem reunidos 36 bons fonogramas de sua (coerente) discografia solo na coletânea dupla The Essential Paul Simon. O CD (capa à direita) foi editado esta semana no Brasil pela Warner Music. A compilação dispõe sem ordem cronológica as 36 gravações, que cobrem o período 1972 - 2006. Faltou um ensaio sobre a trajetória individual de Simon. Contudo, o encarte prima por relacionar a origem e a ficha técnica de todas as músicas. Eis a seleção da (bem-vinda) compilação The Essential Paul Simon:

CD 1
1. Mother and Child Reunion - do álbum Paul Simon (1972)
2. Loves me Like a Rock - de There Goes Rhynin' Simon (1973)
3. Me and Julio Down by the School Yard - de Paul Simon (1972)

4. Duncan - do álbum Paul Simon (1972)
5. Kodachrome - do álbum There Goes Rhynin' Simon (1973)
6. 50 Ways to Leave your Lover - de Still Crazy After All These

Years (1975)
7. Slip Slidin' Away - da coletânea Negotiations and Love Songs
1971 - 1986 (1988)
8. Gone at Last - do álbum Still Crazy After All These Years (1975)
9. Something so Right - de There Goes Rhynin' Simon (1973)

10. Late in the Evening - do álbum One Trick Pony (1980)
11. Hearts and Bones - do álbum Hearts and Bones (1983)
12. Take me to the Mardi Gras - There Goes Rhynin' Simon (1973)
13. That Was your Mother - do álbum Graceland (1986)

14. American Tune - do álbum There Goes Rhynin' Simon (1973)
15. Peace Like a River - do álbum Paul Simon (1972)

16. Stranded in a Limousine - do álbum One Trick Pony (1980)
17. Train in the Distance - do álbum Hearts and Bones (1983)

18. The Late Great Johnny Ace - de Hearts and Bones (1983)
19. Still Crazy After All These Years - do álbum Still Crazy After

All These Years (1975)

CD 2
1. Graceland - do álbum Graceland (1986)

2. Diamonds on the Soles of her Shoes - de Graceland (1986)
3. The Boy in the Bubble - do álbum Graceland (1986)

4. You Can Call me Al - do álbum Graceland (1986)
5. Under African Skies - do álbum Graceland (1986)
6. The Obvious Child - do álbum The Rhythm of the Saints (1990)
7. Born at the Right Time - de The Rhythm of the Saints (1990)
8. The Cool, Cool River - de The Rhythm of the Saints (1990)
9. Spirit Voices - do álbum The Rhythm of the Saints (1990)

10. Adios Hermanos - do álbum Songs from the Capeman (1997)
11. Born in Puerto Rico - do álbum Songs from the Capeman (1997)

12. Quality - do álbum Songs from the Capeman (1997)
13. Darling Lorraine - do álbum You're the One (2000)

14. Hurricane Eye - do álbum You're the One (2000)
15. Father and Daughter - do álbum Surprise (2006)
16. Outrageous - do álbum Surprise (2006)
17. Wartime Prayers - do álbum Surprise (2006)

Selma inaugura selo com disco duplo religioso

Ainda fiel ao estilo sacro adotado em seu último disco, Sagrado, Selma Reis (em foto de André Wanderley) inaugura seu próprio selo, Tessitura Musical Brasileira, com a gravação e o lançamento do disco duplo Maria Mãe de Jesus, em que narra a vida da mãe de Cristo. A intérprete abre selo no momento em que comemora 20 anos de carreira fonográfica. Seu primeiro belo LP foi o independente Selma Reis, editado em 1987 e (ainda) inédito no formato de CD.

Precisão pauta dueto de Salmaso com Mehmari

Resenha de show
Título: Voz e Piano
Artista: Mônica Salmaso e André Mehmari
Local: Teatro Rival (RJ)
Data: 31 de outubro de 2007
Em cartaz até 1º de novembro de 2007
Cotação: * * * *

Em cartaz já desde 2001, o recital de voz, piano (e percussão) feito por Mônica Salmaso com André Mehmari voltou ao Rio de Janeiro esta semana para duas apresentações no Teatro Rival. E o que se viu e ouviu no palco reformado do Rival foi uma cantora de fartos recursos vocais em total interação com um exímio pianista. Aliás, Salmaso se porta em cena como um músico. Voz e Piano é show pautado pela economia e pela precisão. Desde o primeiro número - Camisa Amarela, de Ary Barroso - até o curtíssimo bis dado com Canoeiro (Dorival Caymmi). Não há excessos. Nada sobra. E nada falta. Nem na voz cálida da cantora. Nem no toque minimalista do piano de Mehmari. O músico arma a cama para a cantora deitar e rolar. E poucas cantoras no Brasil têm voz e técnica para encarar recital de voz e piano. Salmaso tem. E tem também cumplicidade com Mehmari, denunciada nos olhares trocados em Senhorinha (Guinga e Paulo César Pinheiro), pérola gravada no CD Voadeira.

A propósito, o roteiro exibe pouca novidade para quem conhece a discografia de Salmaso. Uma surpresa é Tonada de Luna Llena, de Simón Díaz, compositor apresentado em cena pela cantora como "o Dorival Caymmi da Venezuela". Se Mehmari permanece o tempo todo no piano, com direito a solo em O Futebol (Chico Buarque), a intérprete se alterna no suave pandeiro e na frigideira, bem usada em números como Doce na Feira, samba de Jair do Cavaquinho e Altair Costa. Falando em samba, Pra que Discutir com Madame? (Janet Almeida) ganha contorno quase sinfônico, com passagens instrumentais. De forma bastante similar, Insensatez (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) tem acentuada sua inspiração erudita. Entre tema de domínio público (Bate Canela, já gravado por Salmaso em seu álbum Trampolim), um Chico Buarque quase desconhecido (Sinhazinha, da trilha do filme Para Viver um Grande Amor) e um Caetano Veloso mais popular (Desde que o Samba É Samba, em tom sussurrante), a cantora e o pianista ainda apresentam um tema afro de Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro - o Saruê, com versos multilingües, enfrentados com segurança pela intérprete - e o preciso Baião de Quatro Toques, de José Miguel Wisnik. Enfim, um repertório irretocável que realça o pleno entendimento entre Mônica Salmaso e André Mehmari. Menos, às vezes, é bem mais...

Notas Musicais festeja seu primeiro aniversário

Com este post, já o de número 1.547, Notas Musicais festeja feliz seu primeiro aniversário. Criado em 1º de novembro de 2006, este blog entra hoje em seu segundo ano de vida com o orgulho de já ter se tornado (boa) referência para artistas, jornalistas e empresários. Sem falar - claro - nos profissionais da indústria fonográfica e nos consumidores de CDs e DVDs. É hora de agradecer aos leitores que comentam as notícias e resenhas. E aos que somente as lêem. Aos que se incubem voluntariamente de divulgar o endereço do blog. Aos que apontam erros de informação. Aos que fornecem discos e informação. Enfim, a todos que estão fazendo valer muito a pena o esforço de manter atualizado, de domingo a domingo, este espaço virtual. Viva a música! Parabéns para vocês, nesta data querida...

31 de outubro de 2007

Lages se apóia em hits do 'Rei' no primeiro DVD

Tradicional maestro do Rei Roberto Carlos, o pianista Eduardo Lages lança o seu primeiro DVD - Com Amor, gravado ao vivo em 12 de agosto de 2007 em show no Teatro Municipal de Niterói (RJ) - com repertório escorado nos sucessos do autor de Emoções. A gravação já está também sendo editada em CD. Eis os 19 temas tocados por Lages neste primeiro DVD:

1. Abertura
2. De Tanto Amor
3. Chega de Saudade
4. Theme from Love Story
5. Como é Grande o Meu Amor por Você
6. McArthur Park
7. Eu Vou Sempre Amar Você
8. Amante à Moda Antiga
9. Michelle
10. Eleanor Rigby
11. Cama e Mesa
12. Eu Sei que Vou te Amar
13. Gatinha Manhosa
14. Dio, Come Ti Amo
15. The More I See You
16. Você
17. O Caderninho
18. Cavalgada
19. Emoções

Nenhum de Nós gravita em 'pequeno universo'

Resenha de CD
Título: A Céu Aberto
Artista: Nenhum de Nós
Gravadora: Orbeat Music
Cotação: * * *

No Sul do Brasil, longe demais das capitais, há muito público disposto a recordar os hits do grupo Nenhum de Nós, formado em Porto Alegre (RS) em 1986. É o coro caloroso deste público que valoriza A Céu Aberto, DVD (nas lojas em novembro) e CD (já à venda) ao vivo que festejam os 20 anos do lançamento do primeiro álbum da boa banda de Thedy Corrêa. Camila, Camila - hit daquele primeiro disco - foi a música escolhida para puxar este registro de show gravado ao ar livre, em 24 de março de 2007, numa apresentação do quinteto no Parque Harmonia, na capital do Rio Grande do Sul. O tom é retrospectivo. O repertório traz apenas duas inéditas, Desejo e Santa Felicidade.

As 19 músicas do CD cobrem todas as fases do grupo, que lançou em 2005 um bom disco de inéditas, Pequeno Universo. Deste trabalho, reaparecem Dança do Tempo e Igual a Ti, a versão em espanhol de Igual a Você que conta com a participação suave da cantora colombiana Ivonne. A propósito, o Nenhum de Nós - não reconhecido nas demais regiões do Brasil na medida de seu valor - vem fazendo cada vez mais conexões com os países vizinhos da América Latina. O intercâmbio é salutar e pode ganhar impulso com essa gravação ao vivo, produzida com zelo pelo galês Paul Ralphes. Esqueça O Astronauta de Mármore - a infame versão de Starman (David Bowie) que tirou a credibilidade da banda ainda nos anos 80 e é revivida em A Céu Aberto - e preste atenção em músicas como Eu Não Entendo, Julho de 83 e Extraño. O Nenhum de Nós tem munição para gravitar além de seu pequeno universo.

'Som de prata' conjuga estranheza e melancolia

Resenha de CD
Título: Sound of Silver
Artista: LCD
Soundsystem

Gravadora: EMI Music
Cotação: * * * 1/2

É difícil gostar do segundo CD do LCD Soundsystem logo na primeira audição. É necessário um certo tempo para digerir o clima e a estranheza de Sound of Silver. Mas o álbum tem tudo para manter na cena dance o culto ao projeto de James Murphy - hábil na criação de som eletrônico que incorpora células rítmicas do rock, do funk e da disco music. Em algumas faixas, como Watch the Tapes e North American Scum, as guitarras dão pegada típica do rock aos temas. Já em outras, como Get Innocuous!, ouve-se música para dançar. Sound of Silver oferece hits certeiros para as pistas, mas, na comparação com o repertório do primeiro CD (LCD Soundsystem, 2005), as doses de melancolia e de crítica social são mais altas. A música que fecha o CD, New York, I Love You, but You're Bringing me Down, ostenta um caráter bastante depressivo. Ecos de Kraftwerk e Talking Heads são identificáveis em meio a um repertório enxuto que foi embalado com batidas modernas que não procuram repetir a fórmula do disco anterior. James Murphy não deitou no esplêndido berço dos acomodados...

P.S.: Sound of Silver foi editado em março no exterior. O álbum saiu no mercado nacional neste mês de outubro já na carona da vinda do LCD Soundsystem ao Brasil para quatro apresentações. Eis as datas e os locais da miniturnê brasileira de James Murphy:

* 13 de novembro - São Paulo (Via Funchal)
* 14 de novembro - Belo Horizonte (Chevrolet Hall)
* 16 de novembro - Rio de Janeiro (Circo Voador)
* 17 de novembro - Brasília (Marina Hall)

Coletânea (in)completa revisa a obra de Clapton

Eric Clapton recontou sua vida e obra em livro intitulado The Autobiography e idealizou uma nova coletânea, Complete Clapton, como o complemento musical da biografia. Editada no Brasil pela major Universal Music, a compilação dupla tem o real mérito de englobar, através de 36 faixas, gravações de todas as muitas fases do artista, desde o power trio Cream até o recente álbum dividido por Clapton com J.J. Cale. Infelizmente, a escassez de informações mais detalhadas sobre o repertório torna a coletânea incompleta. Somente um breve texto biográfico sobre o artista - assinado por Nigel Willamson - ajuda a contextualizar alguns fonogramas nesta edição nacional de Complete Clapton. A precária ficha técnica sequer aponta os anos em que foram feitas as gravações. Eis as 36 faixas da compilação, ao menos dispostas em ordem cronológica:

CD 1
1. I Feel Free - Cream
2. Sunshine of your Love - Cream
3. White Room - Cream
4. Crossroads (Live at Winterland) - Cream
5. Badge - Cream
6. Presence of the Lord - Blind Faith
7. After Midnight
8. Let It Rain
9. Bell Bottom Blues - Derek & The Dominos
10. Layla - Derek & The Dominos
11. Let It Grow
12. I Shot the Sheriff
13. Knockin' on Heaven's Door
14. Hello Old Friend
15. Cocaine
16. Lay Down Sally
17. Wonderful Tonight
18. Promises
19. I Can't Stand It

CD 2
1. I've Got a Rock'n'Roll Heart
2. She's Waiting
3. Forever Man
4. It's in the Way That You Use It
5. Miss You
6. Pretending
7. Bad Love
8. Tears in Heaven
9. Layla (versão acústica)
10. Running on Faith (versão acústica)
11. Motherless Child
12. Change the World
13. My Father's Eyes
14. Riding with the King - com B.B. King
15. Sweet Home Chicago
16. I I Had Possession over Judgement Day
17. Ride the River - com J.J. Cale

30 de outubro de 2007

Teresa historia influências em DVD de 'Ensaio'

Resenha de DVD
Título: Programa Ensaio 2002
Artista: Teresa Cristina & Grupo Semente
Gravadora: Deckdisc
Cotação: * * *
Em 2002, Teresa Cristina ainda dava os primeiros passos na carreira fonográfica quando foi entrevistada - por Fernando Faro - para o programa Ensaio, da TV Cultura. Ao lado do Grupo Semente, a cantora rememorou influências do pai feirante (Lula, que apresentou à filha o samba de Candeia e de outros bambas) e da mãe, Hilda Macedo, que ouvia Roberto Carlos e compunha seus sambas - um dos quais, Samba do Pescador, é cantado por Teresa no bom programa. Mas o mote da entrevista foram lembranças de histórias e músicas de bambas de escolas de samba como Portela e da Mangueira. É o maior mérito do DVD ora lançado pela Deckdisc para encerrar o contrato da gravadora com a cantora, que migrou para a EMI, por onde acaba de lançar o seu quarto CD, Delicada.
Diante da câmera confessional do Ensaio, Teresa, tímida, até se diverte contando causos de velhos sambistas como Alcides - de quem revive Ando Penando. Com memória prodigiosa e profundo conhecimento do samba carioca, Teresa desfia jóia rara de Cartola (Vai Amigo), revive tema de Brancura (Você Chorou) - bamba do Morro do Estácio - e apresenta a pouco conhecida segunda parte de Muito Embora Abandonado, um samba de terreiro de Mijinha e Chico Santana. Por documentar sambas obscuros, como Louca (Aniceto), a participação de Teresa Cristina no Ensaio escapa dos clichês biográficos que caracterizam boa parte das entrevistas do programa. Para que não conhece Teresa Cristina, o DVD legitima a entrada no mundo do samba dessa terna cantora que, na época, já começava a se mostrar como compositora, entoando Acalanto e A Vida me Fez Assim, músicas que iria gravar em seu segundo CD, de 2004. É, enfim, DVD para quem curte o melhor samba carioca.

'Certidão' atesta coragem autoral do Casuarina

Resenha de CD
Título: Certidão
Artista: Casuarina
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * 1/2

Grupo formado em 2001 por jovens cariocas na faixa dos 20 anos, o Casuarina logo encontrou abrigo no circuito de shows da Lapa, o bairro boêmio do Centro do Rio de Janeiro que ajudou a renovar o interesse de certa parte do público pelo samba. Em 2006, o grupo estreou no mercado fonográfico com belo álbum em que revirava o baú do samba sem cair na obviedade. Em Certidão, segundo CD do Casuarina, o repertório é majoritariamente autoral. Dez das 14 faixas são assinadas por integrantes do quinteto - em especial por João Cavalcanti (voz e percussão), João Fernando (bandolim e os vocais) e Gabriel Azevedo (voz e percussão). O disco atesta a real intimidade dos rapazes com as boas tradições do samba. É, João - para citar apenas um bom exemplo da lavra própria do Casuarina - exibe densidade típica de veteranos. A faixa conjuga quarteto de cordas com o instrumental tradicional do samba. Peçonha, Vaso Ruim, Inconstante e a faixa-título são outros quatro certificados do talento dos músicos como compositores. Claro que ainda falta chão para o Casuarina burilar uma identidade própria. Sua inicial safra autoral ainda carece de assinatura mais forte. Nesse sentido, o choro instrumental Empoeirado soa bem mais original com sua textura nordestina. Contudo, Certidão desce redondo no todo - apesar do canto esmaecido dos dois vocalistas. Inclusive porque o grupo prova novamente que sabe garimpar repertório alheio. Em vez de reviver clássicos batidos do samba, o Casuarina apresenta inédita do saudoso Sidney Miller (Me Dá um Nó), mostra um Paulo Vanzolini reflexivo (Teima Quem Quer), tira jóia do baú de Sérgio Sampaio (Velho Bandido, que realça a pecha de maldito imposta ao compositor, morto em 1994) e realça a nobreza do alto partido Tarja Preta, parceria de Délcio Carvalho e Sérgio Fonseca. Enfim, Certidão é disco corajoso que atesta que o Casuarina está na trilha certa para se impor no cada vez mais disputado cenário do samba.

P.S. A direção de arte e o gracioso projeto gráfico do CD Certidão, assinados por Diogo Montes, são dignos de prêmio na categoria.

B-52's retorna ao disco em março com 'Funplex'

Sem apresentar álbum desde 1992, o ano em que lançou o anêmico Good Stuff, o grupo The B-52's voltará ao disco em março com Funplex - o seu primeiro CD de inéditas em 16 anos. Ícone da new wave já no seu aparecimento, em fins dos anos 70, o quarteto gravou o novo CD em sua cidade natal - Athens, em Georgia (EUA) - com 11 faixas compostas por Kate Pierson, Fred Schneider, Keith Strickland e Cindy Wilson. Eis na ordem o repertório de Funplex:
1. Pump
2. Hot Corner
3. Ultraviolet
4. Juliet of the Spirits
5. Funplex
6. Eyes Wide Open
7. Love in the Year 3000
8. Deviant Ingredient
9. Too Much to Think About
10. Dancing Now
11. Keep This Party Going

Electro pop do Hot Chip chega tarde ao Brasil

Resenha de CD
Título: The Warning
Artista: Hot Chip
Gravadora: EMI Music
Cotação: * * *

Quinteto londrino de electro pop, o Hot Chip já vai lançar em fevereiro seu terceiro CD, Made in the Dark. O álbum anterior, The Warning, saiu em 2006 e chegou ao mercado nacional neste mês de outubro no embalo da vinda do grupo ao Brasil para apresentações na quinta edição do Tim Festival. É um lançamento atrasado, já que o carro-chefe do disco, a irresistível Over and Over, bombou nas pistas de grande parte do mundo em 2006. Ainda assim, a edição brasileira - de vergonhosa pobreza gráfica (a capa se restringe a uma mísera folha) - é bem-vinda para dar visibilidade ao pop rock eletrônico da banda - urdido com samples e com sintetizadores. A intenção foi fazer um trabalho mais sério, sem as altas doses de bom-humor contidas no álbum de estréia do Hot Chip, Coming on Strong (2004). De fato, há menos ironia (e mais seriedade) em repertório que inclui até balada melancólica que versa sobre amores e perda, And I Was a Boy from School. Contudo, o que define o som do Hot Chip é o fino contraste entre as vozes dos cantores, compositores e produtores Alexis Taylor e Joe Goddard. E tal combinação ainda resulta harmoniosa. Se Alexis recorre aos falsetes, Goddar usa um tom mais grave. Mas convém alertar o ouvinte: não há entre as 11 faixas de The Warning outra música tão envolvente como Over and Over - ainda que Careful chegue perto. Que venha o terceiro!

29 de outubro de 2007

Sim, Vanessa grava seu primeiro DVD em 2008

Vanessa da Mata vai gravar seu primeiro DVD em 2008, em show inédito, preparado especialmente para o registro. Há planos na gravadora Sony BMG de que o DVD seja feito em parceria com o Canal Multishow. O roteiro vai misturar músicas dos três álbuns da artista (na foto de Mila Maluhy, em cena, no atual show Sim).

E por falar em Vanessa da Mata, a cantora interpreta a música de abertura da nova temporada do programa infantil Vila Sésamo, que estréia nesta segunda-feira - 29 de outubro - na TV Cultura. Badi Assad, Zeca Baleiro e Zélia Duncan também estarão na trilha.

Sai no Brasil DVD em que Yusuf canta Stevens

A Universal Music está lançando - enfim - no Brasil, neste mês de outubro, o DVD que registra o retorno aos palcos de Cat Stevens - já rebatizado como Yusuf Islam de acordo com a norma do islamismo. É a única oportunidade de ver e ouvir Yusuf cantar sucessos de Stevens como Father & Son, Peace Train e Wild World. Além do show capturado na Inglaterra, o DVD Yusuf's Café Session reúne vídeos de Heaven / Where True Love Goes - lindo destaque do repertório do álbum (An Other Cup) que marcou a volta de Yusuf à cena pop em 2006 - e Midday (Avoid City After Dark). Contudo, o extra mais saboroso é o documentário A Few Good Songs. No bom filme, produzido para a rede de TV BBC e apresentado no DVD com cenas adicionais, o artista explica a sua súbita conversão ao islamismo nos anos 70, no auge do sucesso. "Música era minha religião e eu era o mais devotado possível", diz Yusuf no filme, a respeito de sua atuação como Cat Stevens. Entre depoimentos de colegas como Dolly Parton e imagens do início da carreira, o documentário exibe take do último show do artista na sua fase inicial. Em 22 de novembro de 1979, ele subiu ao palco da Wembley Arena como Cat Stevens e, após cantar Father & Son, o número final mostrado no filme, já saiu de cena como Yusuf Islam.

Danni não põe sua assinatura em 'Música Nova'

Resenha de CD
Título: Música Nova
Artista: Danni Carlos
Gravadora: Sony BMG
Cotação: * *

O tom esmaecido da capa do primeiro CD autoral de Danni Carlos, Música Nova, reflete de certa forma o conteúdo do álbum. Projetada a partir de 2003 na série de discos de covers Rock'n'Road, a cantora tenta se impor como compositora, mas não consegue mostrar, de fato, uma identidade nas onze faixas que assina entre as 13 músicas do disco. Com a produção padronizada de Marcelo Sussekind, Danni transita pelo pop rock com baixo teor de novidade. Entre baladas (Cinema, Olhos de Serpente) e pop de suave pegada roqueira (Gelo e Rocha), a artista não diz a que veio com suas músicas de versos confessionais. Os arranjos também não ajudam - com exceção da teia instrumental que envolve Arcanjo (o arranjo de Pisando em Marte também é legal). Nem a razoável inédita de Nando Reis - O Seu Lugar, com a grife melódica e poética do compositor - chama real atenção. O maior destaque acaba sendo Coisas que Eu Sei, a palatável balada composta pelo hitmaker Dudu Falcão. Cantada por Danni em tons delicados, a faixa faz sucesso na trilha sonora da novela Duas Caras. E é sintomático que o álbum autoral de Danni Carlos chegue às lojas amparado por uma música que até é nova, mas não é de autoria da artista. Falta fôlego à compositora.

Livro revisa 1001 discos feitos entre 1955 e 2007

Nada como o tempo para dar o devido valor a um disco... Recém-lançado no Brasil (pela editora Sextante), o livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer historia 1001 álbuns lançados entre 1955 e 2007. A vasta seleção - comentada (com base) por 90 críticos estrangeiros - inicia com In the Wee Small Hours (Frank Sinatra, 1955) e termina com The Good, The Bad & The Queen (The Good, The Bad & The Queen, 2007). Bons títulos de Caetano Veloso (Caetano Veloso, 1968, e Circuladô, 1991), Chico Buarque (Construção, 1971), Maria Bethânia (Âmbar, 1996), Gilberto Gil & Jorge Ben (Gil & Jorge - Ogum Xangô, 1975), Milton Nascimento & Lô Borges (Clube da Esquina, 1972) e Os Mutantes (Os Mutantes, 1968), entre outros, representam o Brasil na seleção. É leitura saborosa que oferece ótima visão da cena pop mundial nas últimos 50 anos.

28 de outubro de 2007

Ana Cañas debuta em disco com 'Amor e Caos'

Já cultuada no circuito hype paulista, por conta de temporadas na casa All of Jazz e no bar Baretto (do Hotel Fasano), a compositora e cantora Ana Cañas chega ao disco aos 27 anos de idade e quatro de carreira. Contratada pela Day 1, a megaempresa que engloba a gravadora Sony BMG e que gerencia a carreira de seus artistas, a paulistana vai lançar em novembro Amor e Caos, CD produzido pelo violonista Alexandre Fontanetti com arranjos do guitarrista Fabá Jimenez. No repertório, há oito músicas autorais (Mandinga Não, Devolve Moço, A Ana, Vacina na Veia e Interrogação, entre outras) e releituras dos cancioneiros de Caetano Veloso (Coração Vagabundo, num registro cool) e Bob Dylan (Rainy Day Woman). O primeiro single do álbum é A Ana. É o tema mais pop do disco.

"Apesar de cantar jazz, eu não sou uma jazzista. Jazz, para mim, significa liberdade", conceitua Ana Cañas no vídeo promocional que apresenta Amor e Caos. Rótulos à parte, o trabalho deverá apresentar uma cantora de personalidade bem formada - a julgar pelo recente show organizado pela Sony BMG em São Paulo (SP) para apresentar Cañas a jornalistas, radialistas e a formadores de opinião. Dona de voz extensa, Cañas poderia transitar apenas pelo jazz escorada em sua precoce maturidade - como provou no show ao cantar Summertime, tema em que sua voz dialogou segura com o baixo de Fábio Sá. Sua versão a capella de Retrato em Branco e Preto conjuga dramaticidade e ousadias estilísticas. Consta, aliás, que Chico Buarque (parceiro de Tom Jobim na música) e Caetano Veloso estiveram entre os nomes famosos que se encantaram com a voz aguda de Cañas ao vê-la no Baretto. "Eu tenho orgulho dessa parte da minha história. Foi na noite que eu aprendi a cantar e a fazer as loucuras que a gente mostrando aqui", ressaltou Cañas no palco, antes de interpretar standards como Stormy Wheater.

Com suingue e personalidade vocal, Ana Cañas está chegando ao disco com um estilo muito mais pop e mais distante do jazz. É um pop torto e menos digerível do que a média. A cantora não deverá fazer sucesso imediato, mas tem toda pinta de que veio para ficar. Não por acaso, a novata admira Marisa Monte pela firmeza com que a já veterana colega conduz sua carreira. Anote na agenda de 2008: bem ou mal, você vai falar de Ana Cañas. Acho que bem...

Elogios superlativos sobre discos com algo mais

Resenha de livro
Título: Meus Discos e Nada Mais
- Memórias de um DJ na Música
Brasileira
Autor: Zé Pedro
Editora: Jaboticaba
Cotação: * * *

Zé Pedro é um DJ que fez o seu nome nas pistas remixando hits da MPB com total respeito pelas intenções das gravações originais. É também um aficcionado por discos e, em especial, por cantoras. Meus Discos e Nada Mais apresenta suas memórias a partir dos discos de artistas brasileiros que comprou ou ganhou. A partir das impressões de Zé Pedro sobre 159 álbuns, dispostos no livro em ordem cronológica, os dados biográficos do DJ vão sendo salpicados entre um elogio e outro. Sim, há apenas elogios nas 384 páginas deste afetivo e particular inventário fonográfico. Elogios de caráter superlativo, diga-se, pois trata-se das memórias de um fã apaixonado e devotado - como bem o retrata Zélia Duncan em saboroso texto escrito para a orelha do livro. Todos os artistas são maravilhosos na visão de Pedro. Mas Meu Discos e Nada Mais oferece algo mais do que as impressões generosas de um DJ que se porta como fã, pois Pedro, antes de DJ, é profundo conhecedor da MPB. E é esse conhecimento que engrandece o valor do livro. Ao comentar os discos, Pedro oferece informações precisas sobre seu repertório e, às vezes, ele ainda situa o artista no cenário musical brasileiro da época da gravação do álbum. Raramente erra - como na análise de Canto das Três Raças (1976), apresentado como um disco que não divide fases na carreira de Clara Nunes (1942 - 1983) quando o álbum tem justamente o mérito de ter inaugurado a parceria / fase da cantora com o produtor Paulo César Pinheiro. Geralmente acerta - como quando, ao comentar o esquecido disco Wanderléa... Maravilhosa (1972), lembra as várias tentativas frustradas da Ternurinha de se dissociar do repertório ingênuo da Jovem Guarda. O livro ganha em importância quando o DJ escolhe discos menos óbvios - caso de A Tua Presença... (1971). "Talvez os apaixonados por Bethânia não dêem a esse disco a importância que eu considero que ele tenha", ressalta Zé Pedro, ele próprio um apaixonado confesso pela Abelha Rainha, assunto de seu prólogo.

É como fã devotado que Pedro lamenta o sumiço de Maria Creuza ao comentar o disco Meia-Noite (de 1976, porém erroneamente creditado como sendo de 1977) e que saúda Gal Costa ao falar de Caras e Bocas (1977), corretamente apontado como "um disco estranho para aquela época". E ele prossegue, fino e certeiro: "Voz de Gal mudando, repertório inovando, os críticos odiando. Hoje, um clássico. Gal tem dessas coisas. (...) É uma cantora de altos e baixos. (...) (...) Já foi contra o sistema e acertou. Já foi a favor do sistema e dançou". Sobre Simone, o DJ também se não furta a fazer necessárias críticas a respeito da condução da carreira da cantora em meio às impressões sobre o seminal LP Gota D'Água (1975): "Veterana do show business, Simone sabe o que tem que fazer para se manter no mercado. E ela faz. Às vezes, consegue; às vezes, não, sujando sua bela discografia inutilmente. (...) Faz muitas vezes o que considero concessões". Estes comentários lúcidos, soterrados diante de tantos elogios, avalizam as memórias fonográficas do DJ.

Em sua grande maioria, os discos comentados foram lançados nos anos 70 e 80. Apenas três belos álbuns - Amor em Hi-Fi (Sylvia Telles, 1960), Momento de Amor (Elizeth Cardoso, 1968) e Ye-me-le (Sérgio Mendes & Brazil '66, 1969) - são da década de 60. Contudo, apesar de deixar entrever nas entrelinhas um exagerado saudosismo da MPB de décadas passadas, o DJ chega também aos CDs dos dias atuais, comentando álbuns de talentos recentes como Bebel Gilberto, Maria Rita, Preta Gil, Vanessa da Mata, Mart'nália, Paula Lima e Ceumar, entre outras cantoras e cantores. Enfim, são muitas e generosas as impressões apaixonadas de um consumidor voraz de discos. Ainda bem que, neste livro, elas estão geralmente acompanhadas de algo mais: o conhecimento de música brasileira.

Killers conquistam o público com show matador

Resenha de show
Título: Sam's Town - Tim Festival 2007
Artista: The Killers (em foto do site do festival)
Local: Marina da Glória (RJ)
Data: 27 de outubro de 2007
Cotação: * * * *

Projetado em 2004 com álbum muito superestimado, Hot Fuss, cujo som evocava o tecnopop new romantic de grupos dos anos 80 como Duran Duran, o grupo The Killers surpreendeu em 2006 ao lançar Sam's Town, disco bem mais pesado, feito com maior equilíbrio entre as guitarras e os teclados. Foi fiel à estética deste segundo bom CD que o quarteto de Las Vegas (EUA) incendiou o público em sua calorosa apresentação carioca na quinta edição do Tim Festival. Ao harmonizar guitarras e sintetizadores em roteiro enxuto de 17 músicas (tocadas em cerca de 80 minutos), a banda fez um show... matador. A platéia pulou e fez coro com o vocalista Brandon Flowers em temas como On Top, When You Were Young, Somebody Told me e The River Is Wild. Da primeira música até o bis, que incluiu For Reasons Unknown, o pique foi o mesmo. Se o som do grupo é retrô além da conta ou se a estética do cenário é brega, pouco importou. Houve comunhão entre artista e público.

Juliette se exibe com peso de rock monocórdio

Resenha de show
Título: Juliette and The Licks - Tim Festival 2007
Artista: Juliette and the Licks (em foto do site do festival)
Local: Marina da Glória (RJ)
Data: 27 de outubro de 2007
Cotação: * * 1/2

Ainda mais conhecida por sua atuação em filmes como Cabo do Medo e Kalifornia, Juliette Lewis vem encarnando nos últimos anos o papel de roqueira. E talento para tal personagem não lhe falta - como ficou claro na apresentação carioca do grupo Juliette and The Licks na quinta edição do Tim Festival. Exibida e bem à vontade num figurino sexy que lembrava o traje de mulher-gato, Juliette fez pose de popozuda, se enrolou na bandeira do Brasil e atiçou a libido do público com uma performance que combinou toques selvagens e sensuais. Tudo ao som de um rock pesado que, no palco, soou bastante monocórdio - sem as nuances ouvidas nos dois bons álbuns da banda, You're Speaking my Language (2005) e Four on the Floor (2007), ambos, aliás, já lançados no mercado nacional pela ST2. Condensado em uma hora de pauleira, o roteiro priorizou músicas do segundo disco (Hot Kiss, Purgatory Blues, Mind Full of Daggers, Stick Honey). Juliette cumpriu direito seu papel, a banda se mostrou afiada e o show não perdeu o pique. Mas pairou a sensação de que a postura exibicionista da vocalista-atriz prendeu mais a atenção do que seu som propriamente dito...