Março 31, 2008

Universal esclarece fato sobre o CD de Leonardo

A companhia Universal Music se pronunciou sobre a resenha do CD que Leonardo lança esta semana, Coração Bandido. Publicado no domingo, 30 de março, o texto da resenha criticava o fato de o cantor ter sido induzido a gravar um repertório que ia além do universo sertanejo em seu disco anterior, De Corpo e Alma, editado pela Universal em 2006. A gravadora alega que o álbum já estava pronto quando o passe de Leonardo foi negociado com a antiga gravadora do artista, a Sony BMG. Questionada pelo jornalista sobre o inapropriado dueto com Zeca Pagodinho, na faixa eleita para iniciar a promoção do álbum, a Universal admite que fez a ponte de Leonardo com Zeca, mas a pedido de Leonardo, que já tinha a música (De Latinha na Mão) - de acordo com a gravadora. Eis a réplica enviada pela gravadora Universal ao blog:

"Em relação à nota publicada no blog Notas Musicais sobre o cantor Leonardo, a Universal Music esclarece que o primeiro álbum do cantor na gravadora, De Corpo e Alma, NÃO foi produzido pela Universal Music e, portanto, o artista NÃO foi induzido a gravar repertório algum. O álbum, que já estava pronto quando Leonardo ingressou na Universal, foi adquirido como parte da negociação do artista com a Universal e veio formatado de sua antiga gravadora. Portanto, Coração Bandido é, de fato, o PRIMEIRO trabalho completamente produzido e realizado pela parceria de sucesso entre Leonardo e a Universal Music".

Nader encena na tela o teatro poético de Waly

Resenha de documentário
Título: Pan-Cinema Permanente
Direção: Carlos Nader
Cotação: * * * *
Em exibição no festival É Tudo Verdade
Rio de Janeiro: Unibanco Artplex (31 de março, às 14h)
São Paulo: CineSesc (1º de abril, às 21h. 2 de abril, às 13h)

É tudo mentira, costumava dizer Waly Salomão (1944 - 2003) a respeito da realidade cotidiana. Parceiro de Caetano Veloso e Jards Macalé, entre outros compositores para quem fez letras de músicas, o poeta sustentava que a vida era uma encenação em que todos vestem personagens - ou máscaras. Waly, figura lendária pontuada por excessos de linguagem, era ele próprio uma bela personagem. Que rendeu comovente documentário de Carlos Nader, amigo da personagem enfocada neste filme de estrutura pouco convencional que, embora até salpique informações biográficas de Waly, foge da intenção de reconstituir a trajetória deste baiano de Jequié que, nos anos 60, foi para o Rio de Janeiro com a cara, a coragem e a sua poesia para "pegar o sol com a mão".
Com uma câmera digital na mão e as idéias verborrágicas na cabeça de Waly, Nader filmou o poeta em eventos, happenings e passagens cotidianas desde 1994. A sedução de seu filme reside justamente na exposição destes fragmentos de espontaneidade construída. Nader encena na tela o teatro poético de Waly. Pan-Cinema Permanente - cujo título foi extraído de poema dedicado por Waly a Nader - é quase um monológo que dá voz à personagem principal. Tanto que os depoimentos de nomes como Antonio Cicero e Caetano Veloso são quase todos ouvidos em off. E eles reiteram o caráter teatralizado das atuações cotidianas do parceiro e amigo. "Ele era excessivo", admite um saudoso Caetano.
A força do filme está nas palavras de Waly e na edição pouco linear, intencionalmente cheia de buracos negros. Em seu delírio verborrágico de eventuais contornos barrocos, o poeta diverte e comove os espectadores em cenas como a entrevista que deu a um programa de uma emissora de TV síria. O apresentador vira marionete no teatro encenado ao vivo por Waly naquele programa em que o poeta canta os versos de Mel, celebrizados por Maria Bethânia na música que deu título ao seu álbum de 1979. Mais tarde, é a vez de Adriana Calcanhotto mostrar, a sós com seu violão, a música que fez para os versos revoltos ("Só meu sangue sabe tua seiva e senha / E irriga as margens cegas / De tuas elétricas ribeiras") de Teu Nome Mais Secreto, última parceria da cantora com o poeta, gravada recentemente por Calcanhotto em seu oitavo (e ainda inédito) álbum, Maré, nas lojas em 18 de abril.
"A vida é sonho", sentenciava Waly. Nader conseguiu traduzir na tela o espírito onírico e circense da performance de Waly em seu palco terreno. Pan-Cinema Permanente costura fragmentos poéticos com trechos de filmes Super 8 dirigidos por Waly na cena tropicalista dos anos 60. Não há aparente lógica na edição. Não há referências explícitas, que seriam lógicas, a Jards Macalé e a Gal Costa (ouvida somente na gravação original de Vapor Barato), duas personagens emblemáticas no teatro musicado de Waly. Mas tudo faz sentido. É o espírito festivo do poeta que domina a cena neste filme que, mais do que documentar ou catalogar, optou por celebrar sua passagem pelo mundo. Em todos os sentidos, já que há takes filmados em diversos países. Talvez tudo seja mesmo mentira. Só que as mentiras sinceras de Waly Salomão interessam.

Deckdisc já explora o acervo de Teresa Cristina

Embora tenha gravado apenas quatro álbuns desde 2002, Teresa Cristina já vai ganhar sua primeira coletânea de sucessos. A carioca Deckdisc - gravadora que, a pedido de Teresa, liberou em 2007 o passe da sambista para a multinacional EMI Music - vai lançar em abril a compilação Eu Sou Assim - O Melhor de Teresa Cristina & Grupo Semente. O precoce best of rebobina o repertório dos três primeiros discos da cantora e inclui As Forças da Natureza, samba regravado por Teresa e o Semente para álbum duplo que celebrou a obra de Clara Nunes (1942 - 1983). Na seleção, há Candeeiro, Quantas Lágrimas e O meu Guri.

DVD recorda a faceta gospel da obra de Dylan

Na virada da década de 70 para a de 80, Bob Dylan gravou dois álbuns - Slow Train Coming (1979) e Saved (1980) - com músicas gospel de sua autoria. Pouco celebrado, o repertório religioso do trovador rendeu em 2003 um CD, Gotta Serve Somebody - The Gospel Songs of Bob Dylan, em que estrelas da música gospel norte-americana recriavam as canções cristãs do compositor. A gravação deste disco foi documentada em DVD lançado em 2006 nos Estados Unidos e ora editado no Brasil pela gravadora carioca Coqueiro Verde. A faixa-título rendeu clipe de animação que evoca a figura de Dylan.

Março 30, 2008

Filme reabre caso de Simonal sem dar veredicto

Resenha de documentário
Título: Simonal Ninguém
Sabe o Duro que Dei
Direção: Cláudio Manoel,
Micael Langer e Calvito
Leal
Cotação: * * * * *
Em exibição no festival
É Tudo Verdade
São Paulo: CineSesc (4 de abril, às 21h. 5 de abril, às 13h)

Humorista do grupo Casseta & Planeta, Cláudio Manoel quis reabrir em seu primeiro filme um dos casos policiais mais controvertidos da música pop brasileira. Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei reconstitui a ascensão, glória e queda de um dos cantores mais populares do Brasil na virada dos anos 60 para 70. Condenado ao ostracismo depois que foi apontado como informante do Departamento de Ordem Política e Social (mais conhecido como Dops, o órgão repressor do regime militar instaurado no Brasil em 1964), Wilson Simonal (1938 - 2000) foi banido do cenário musical por conta dessa suposta associação com a ditadura. O documentário investiga Simonal sem condená-lo, mas também sem absolvê-lo. Cabe ao espectador, diante das versões dos fatos expostos no filme, dar o seu veredicto pessoal. O grande mérito da produção é documentar os fatos com precisão sem julgar Simonal.
O roteiro prima por entrelaçar os depoimentos - dados por nomes como Boni, Chico Anysio, Jaguar, Nelson Motta, Ricardo Cravo Albin, Miele, Pelé, Sérgio Cabral, Tony Tornado - com farto material de arquivo. É como se as imagens referendassem os testemunhos dos que conviveram com Simonal em sua fase áurea. E, no auge, Simonal era cheio de si - como pode ser percebido no seu dueto com Sarah Vaughan em The Shadow of your Smile, na maneira como regia a platéia dos programas da TV Record e na performance incendiária que obteve no show que fez no Maracanãzinho (RJ), em 1970, antes da apresentação de Sergio Mendes, o ofuscado astro principal da noite. Foi o auge da pilantragem, o subgênero inventado por Carlos Imperial para rotular a música de Simonal. "A pilantragem foi uma bobagem", resumiu Sérgio Cabral, com aguçada visão crítica do repertório (a rigor, irregular) do astro. Simonal alternou o lixo e o luxo da MPB.
Através dos depoimentos de colegas como Tony Tornado, o documentário toca de forma clara na questão racial que permeia toda a carreira de Simonal, pois sempre houve quem não engolisse o imenso sucesso popular daquele negro, filho de empregada doméstica, que tinha um suingue fenomenal, uma voz privilegiada e - cheio de si, em atitudes que beiravam a arrogância - desfilava com carros e louras, alfinetando as elites brancas do país tropical.
Em seu ano áureo, 1970, Simonal chegou a ser o cantor oficial do tricampeonato do Brasil na Copa do Mundo, no México. Mas o jogo começou a virar em agosto de 1971, quando Simonal mandou agentes do Dops dar uma surra no então contador de sua empresa, Raphael Viviani, sob a alegação de roubo. Nunca ouvido fora do inquérito policial instaurado para averiguar o caso, o depoimento de Viviani é a maior contribuição do filme para que a história seja entendida sob todos seus prismas. Com olhos marejados, Viviani nega o roubo e relata que o admitiu somente sob tortura dos agentes - tortura que, sustenta Viviani, incluiu choques elétricos.
Ingênuo, Simonal alegou que recorreu ao Dops por ter contatos no órgão e por estar sofrendo ameaças de terroristas. Foi outra atitude infeliz que o complicou quando o inspetor Mário Borges o denunciou na imprensa, sem provas, como informante do Dops. Tendenciosa e sensacionalista, a imprensa da época condenou Simonal e negou seu direito de defesa. Isolado como se fosse um leproso, como lembra Nelson Motta, Simonal viu as portas se fecharem e, mesmo tendo gravado regularmente discos até meados dos anos 70, ficou sem ter como divulgá-los nas casas de shows e na própria mídia. Foi o início de longa fase crespuscular que levou o cantor ao alcoolismo e à morte por cirrose hepática, em 2000, aos 62 anos, quando já perdera a voz e o suingue raros.
Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei conta de forma envolvente essa bela história que alternou cenas de alegria e tristeza. Não absolve e tampouco condena Wilson Simonal, mas esclarece fatos e enfatiza a força de seu canto. Um filme histórico!

Filme linear (re)conta a história do Joy Division

Resenha de documentário
Título: Joy Division
Direção: Grant Gee
Cotação: * * *
Em exibição no festival É Tudo Verdade
Rio de Janeiro: Unibanco Artplex (1º de abril, às 22h30m)
São Paulo: CineSesc (4 de abril, às 23h)

Joy Division, o documentário feito em 2006 pelo diretor Grant Gee sobre o grupo inglês que revelou Ian Curtis (1956 - 1980) e originou o New Order, reconta de forma linear e em tom oficial a breve, mas intensa, história da emblemática banda formada em 1976 em Manchester, a cinzenta cidade britânica. O valioso material de arquivo sustenta o documentário e impede que Joy Division apresente mera sucessão de depoimentos sobre fatos que, afinal, já são conhecidos pelos fãs do grupo e que geraram paralelo longa-metragem de ficção (Control, 2007) dirigido por Anton Corbijn em preto-e-branco com base no livro da mulher de Ian Curtis - Deborah - e já exibido no Brasil pelo Festival do Rio.
Trechos do livro de Deborah Curtis são projetados na tela, mas a autora não fala no filme, costurado por depoimentos dos três músicos oriundos do Joy Division (Bernard Summer, Stephen Morris e Peter Hook) e de Annik Honoré, a amante de Ian. Há uma tentativa do diretor - sobretudo no início e no fim do documentário - de fazer um paralelo entre a ascensão do Joy Division e a transformação de Manchester. Mas, no fim das contas, o que garante o interesse do filme é a trajetória atormentada de Ian Curtis, cujo suicídio, em maio de 1980, impôs fim abrupto ao Joy Division após dois cultuados álbuns (Unknown Pleasures - o LP de estréia de 1979 ao qual os músicos sobreviventes do grupo afirmam fazer restrições - e Closer, o mais bem-acabado segundo trabalho, editado em 1980 pouco antes da morte de Ian). A rigor, pouco ou nada é contado de novo. Mas a história oficial do Joy Division, sombria como o som do quarteto, é interessante.
Apresentado em primeira mão no Brasil na 13ª edição do festival É Tudo Verdade, o documentário Joy Division já tem garantida sua exibição em circuito nacional. As cenas em que o grupo de Ian Curtis pode ser visto ao vivo, tocando músicas como Love Will Tear Us Apart, redimem e minimizam a linearidade do filme - menos impactante do que o lendário grupo que fez história.

Produzido por Barros, Frejat grava terceiro solo

Frejat (em foto de Christian Gaul) prepara seu terceiro disco solo no estilo pop romântico. A produção foi confiada ao tecladista Maurício Barros, um dos fundadores do Barão Vermelho. Uma das faixas do disco de Frejat, Dois Lados, já pode ser ouvida na trilha sonora da novela Beleza Pura, recém-editada em CD pela Som Livre. Composta por Frejat sob encomenda para ser tema da personagem Norma, interpretada pela atriz Carolina Ferraz, a música sinaliza a linha pop do álbum, que vai ser lançado este ano. Dois Lados é parceria de Frejat com Maurício e Mauro Sta. Cecília.
E por falar em Maurício Barros, ele grava seu primeiro CD solo, Marraio. Uma música do repertório autoral é Horizonte Perdido.

Coração de Leonardo bate no compasso caipira

Resenha de CD
Título: Coração Bandido
Artista: Leonardo
Gravadora: Universal
Music
Cotação: * *

Ao entrar na Universal Music, em 2006, Leonardo foi induzido a gravar repertório ruim que ia além do universo sertanejo. Até inapropriado dueto com Zeca Pagodinho foi providenciado para turbinar o CD que marcou a estréia do artista na major. Mas o disco não reeditou o sucessos dos álbuns que Leonardo lançava pela Sony BMG. Não é à toa que, em Coração Bandido, ele remói suas dores de amores no compasso sertanejo em que bate o coração de parcela expressiva do povo brasileiro. O repertório alterna baladas sentimentais - como Porque É Tão Cruel o Amor, Dois Passarinhos (com direito a violinos e cellos orquestrados no típico tom caipira) e a faixa-título - com temas animados compostos para animar os bailões sertanejos. São os casos dos arrasta-pés Rodo de Borracha e Pega Fogo Cabaré, de Mentirosa (faixa que tenta em vão clonar a batida latina do calipso) e do forró Por Favor Reza por Nóis. A produção de César Augusto segue à risca a fórmula do sertanejo mais comercial. Dez anos depois da morte de Leandro, em junho de 1998, o coração de Leonardo parece ter fôlego para bombar este som padronizado que continua no gosto do Brasil popularesco. E gosto se discute...

Março 29, 2008

Olhar terno de Pillar desarma o caubói Waldick

Resenha de documentário
Título: Waldick - Sempre no meu Coração
Direção: Patrícia Pillar
Cotação: * * * *
Foto: Wellington Macedo
Em exibição no festival É Tudo Verdade
Rio de Janeiro: Ponto Cine Guadalupe (1 de abril, às 18h. 3 de abril, às 16h)
São Paulo: CineSesc (4 de abril, às 19h)
Brasília: Centro Cultural Banco do Brasil (19 de abril, às 20h)

"A vida é assim mesmo", resigna-se Waldick Soriano à certa altura do documentário que marca a feliz estréia da atriz Patrícia Pillar na direção cinematográfica. Exibido em primeira mão no festival É Tudo Verdade, o filme Waldick - Sempre no meu Coração foca o cantor de 74 anos com olhar terno, mas isento e até mesmo duro em alguns momentos. Ao assumir a câmera, Pillar se despiu do papel de fã assumida do cantor - muito popular nos anos 60 e 70 - para reapresentá-lo com fidelidade nessa fase crepuscular. E o que se vê na tela é um Waldick corroído pela solidão. "Durmo sozinho. Meu companheiro é o travesseiro", confidencia o astro resignado. A declaração é feito por Waldick em meio a depoimentos de mulheres magoadas (e ainda apaixonadas) que ajudam o espectador a entender as razões da solidão que acompanha Waldick na velhice. Sem nunca perder a ternura pelo personagem, Pillar vai construindo enredo que forma retrato sem retoques do ídolo formado na universidade da vida - como ele mesmo diz... O ponto fraco do filme é seu ralo material de arquivo.
Ex-garimpeiro e ex-engraxate, entre várias outras profissões desprezadas na escala social, Waldick se sagrou cantor e compositor das dores de amores - com pelo menos uma obra-prima no currículo, Tortura de Amor. Foi o ídolo de um Brasil que o Brasil finge ignorar. Mas que o filme de Pillar foca com generosos closes captados em cidades do interior da Bahia e do Ceará - locais em que Waldick volta e meia recupera a majestade ao subir em palcos pobres, quase improvisados, para cantar músicas como Vestida de Branco, Dama de Vermelho e Eu Também Sou Gente. Sim, o ex-garanhão Waldick Soriano não é cachorro, não. E o filme cresce quando Pillar consegue desarmar o caubói e fazê-lo sair da personagem que encarna como uma armadura. Em pungente entrevista, uma das últimas que concedeu para a cineasta estreante, Waldick abre o coração corroído por mágoas e desilusões familiares. E emociona o espectador ao se resignar diante da solidão, fiel companheira. Quando sobem os créditos finais, ao som de Cavalgada (Roberto e Erasmo Carlos) na voz de Waldick Soriano, está nu aquele que já foi o rei do Brasil interiorano. o Brasil tido como cafona (ou brega). E que sempre continuará rei no coração da (promissora) cineasta Patrícia Pillar.

Voz de Elis marcou a trilha dolorida dos amigos

Na já memorável minissérie Queridos Amigos, que teve seu último capítulo exibido pela Rede Globo na sexta-feira, 28 de março de 2008, a voz de Elis Regina (1945 - 1982) reinou soberana na trilha sonora que costurou os dramas dos personagens criados por Maria Adelaide Amaral. A trama estava situada em 1989 - emblemático ano da derrubada do Muro de Berlim, da vitória de Fernando Collor nas eleições diretas para Presidente do Brasil e da ascensão da música sertaneja nas paradas nacionais - mas a trilha focou a MPB gravada nos anos 70. Nada mais natural, aliás, pois o mote da história foi a ressaca existencial de uma turma de amigos que lutou pela democracia e pela liberdade de expressão durante o regime militar instaurado à força em 1964. E foi com extrema naturalidade que a voz de Elis foi ouvida na grande maioria dos 29 capítulos entre gravações de Milton Nascimento e Chico Buarque. Porque, entre todas as cantoras de sua época, Elis foi quem mais deu voz aos compositores (Milton Nascimento, Fernando Brant, Ivan Lins, Vítor Martins, João Bosco, Aldir Blanc, Belchior) que traduziram em notas e versos os anseios e sentimentos daquela geração. É uma trilha dolorida que pode ser sintetizada na letra sentida de Aos Nossos Filhos, escrita por Vitor Martins sobre música de Ivan Lins. Mesmo tendo gravado poucas músicas de Chico Buarque (o compositor mais engajado e, por isso mesmo, o mais censurado dos anos de chumbo), Elis foi a voz daquela geração. E é por isso que os telespectadores de Queridos Amigos ouviram Sabiá, O Bêbado e a Equilibrista e tantas outras músicas eternizadas na voz da Pimentinha. Essas músicas realçaram com maestria as dores, vitórias e derrotas das personagens da minissérie. Emocionante... Elis não foi a única porta-voz de sua geração, mas seu repertório sintetiza a história e o sentimento do Brasil e da MPB de sua época.
P.S.: Coube a Elis encerrar a trama com Mundo Novo, Vida Nova.

Marisa encarna a sereia no mar de Calcanhotto

Na mitologia grega, Calipso é uma deusa do mar. Em Porto Alegre (Nos Braços de Calipso), a música composta por Péricles Cavalcanti para o oitavo CD de Adriana Calcanhotto, Maré, nas lojas a partir de 18 de abril pela Sony BMG, quem encarna essa deusa é Marisa Monte, que evoca o canto das sereias citadas nos versos de Péricles. Eis a letra de Porto Alegre, cujo título alude à boa cidade natal da gaúcha Calcanhotto:
Porto Alegre
(Nos Braços de Calipso)
(Péricles Cavalcanti)

Amarrado num mastro
Tapando as orelhas
Eu resisti
Ao encanto das sereias
Eu não ouvi
O canto das sereias
Eu resisti

Mas chegando à praia
Não fiz nada disso
Então eu caí
Nos braços de Calipso
Eu sucumbi
Ao encanto de Calipso
Não resisti

Desde então eu não tive
Nenhum outro vício
Senão dançar
Ao ritmo de Calipso
Pois eu caí
Nas graças de Calipso
Não resisti
Ao encanto de Calipso
Só sei dançar
Ao ritmo de Calipso

CD infantil do Pensador agrega Herbert e Oyens

Já concluído desde meados de 2007, aguardando chance de ser distribuído por algum selo ou gravadora, o disco infantil do rapper Gabriel O Pensador conta com a participação de Herbert Vianna. Várias faixas têm a produção de Christiaan Oyens, o compositor e músico projetado em 1994 como fiel parceiro de Zélia Duncan. Enquanto decide como lançar seu CD para crianças, o Pensador finaliza álbum adulto, gravado de forma independente. A Sony BMG não renovou o contrato com o rapper.

Março 28, 2008

Torquato na maré tropicalista de Calcanhotto

Nas lojas em abril, o oitavo álbum de Adriana Calcanhotto, Maré, é tragado por referências poéticas e tropicalistas. Além de cantar denso poema do concretista Augusto de Campos (Sem Saída, musicado por Cid Campos), a artista gravou Um Dia Desses, singela canção de leve acento ruralista composta por Kassin com base no poema Um Dia Desses Eu me Caso com Você, de Torquato Neto (1944 - 1972). A compositora também arrastou Jards Macalé para sua maré tropicalista. Macalé toca violão em Teu Nome Mais Secreto, música feita por Calcanhotto a partir dos versos revoltos de Waly Salomão (1944 - 2003). Ícones e criadores da Tropicália, Caetano Veloso e Gilberto Gil também estão presentes no disco. Gil toca violão em Sargaço Mar, de Dorival Caymmi. Já Caetano é o parceiro do poeta Ferreira Gullar em Onde Andarás, tema que gravou em disco tropicalista de 1967 e que ganhou releitura de Calcanhotto em Maré. A foto da capa do álbum é de Gilda Midani.

Show de Bethânia e Omara é gravado em Minas

A gravação ao vivo do show de Maria Bethânia com Omara Portuondo, para edição em DVD pela gravadora Biscoito Fino, vai ser feita em Minas Gerais, durante as apresentações do espetáculo no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em 4 e 5 de abril. No roteiro do show, as cantoras (em cena na foto de Leonardo Aversa) vão além do repertório do disco, interpretando músicas como Cálix Bento (adaptação de Tavinho Moura do tema de domínio público), Começaria Tudo Outra Vez (Gonzaguinha), Cio da Terra (Chico Buarque e Milton Nascimento), O Que Será - À Flor da Terra (Chico Buarque) e o clássico cubano Guantanamera.

3naMassa pouco seduz com atrizes e cantoras

Na foto acima, o trio 3naMassa - formado por dois integrantes da banda Nação Zumbi (o baixista Dengue e o baterista Pupillo) e pelo produtor Rica Amabis (do coletivo Instituto) - posa com retratos do elenco de atrizes e cantoras que recrutou para seu primeiro álbum, Na Confraria das Sedutoras, recém-lançado pela Deckdisc. O time de cantoras inclui Céu, Nina Becker, Pitty e Thalma de Freitas. O elenco de atrizes reúne Alice Braga, Leandra Leal e Simone Spoladore. No disco, todas cantam ou recitam versos de cunho sensual. Mas, apesar de agregar tantos nomes incensados, o CD é bem pouco sedutor. Compostas por integrantes do trio, as melodias das 13 músicas são pouco inspiradas. A única música digna de nota é Tatuí, que - talvez por isso mesmo - inclui o hermano Rodrigo Amarante em seu time de autores. Dentre as letras, Pecadora merece destaque por evocar, na voz de Simone Spoladore, uma atmosfera típica dos textos de Nelson Rodrigues (1912 - 1980). Certeza abre o projeto na voz da atriz Leandra Leal.

Menos meloso, sax de Kenny sopra latinidade

Resenha de CD
Título: Rhythm &
Romance
Artista: Kenny G
Gravadora: Concord Music / Universal Music
Cotação: * 1/2

Meloso por natureza, o sopro do sax soprano de Kenny G soa menos açucarado neste álbum em que o músico passeia por temas embebidos em latinidade. Mas que ninguém espere ouvir registros efervescentes. Como já anuncia no título, Rhythm and Romance ameniza o clima caliente da música latina com o romantismo que também molda a música da região. Entre temas originais (Sax-o-Loco e Tango, entre outros) e clássicos boleros (Sabor a mi e Besame Mucho), há música dedicada ao Brasil. Em Brasília, Kenny sopra seu sax sobre suave e estilizada base de samba (o percussionista Paulinho da Costa toca na faixa). Mesmo a Salsa Kenny, que fecha o CD, soa sem o calor típico do ritmo. Enfim, trata-se de um disco de Kenny G e, como tal, haverá quem o ame e quem o odeie antes mesmo da audição. É disco para quem curte o samba de Brasília...

Março 27, 2008

Inclassificável e indomável, Ney volta à margem

Resenha de CD
Título: Inclassificáveis
Artista: Ney Matogrosso
Gravadora: EMI Music
Cotação: * * * 1/2

Citando a letra da música de Arnaldo Antunes que batiza os atuais show e disco de Ney Matogrosso, o ainda grande cantor é o que é: inclassificável. Ney quase nunca faz o que se espera dele. Em 1979, tirou a fantasia e encarou de cara limpa o disco e show Seu Tipo. Em 1987, quando os sintetizadores já (do)minavam a MPB, encarou um recital camerístico com o violonista Raphael Rabello (1962 - 1995). Em 1999, deu voz a novos compositores no álbum Olhos de Farol. Em 2004, se uniu a Pedro Luís e a Parede num disco Vagabundo que rendeu show explosivo. Inclassificáveis - o registro de estúdio do show que estreou em setembro de 2007 em Juiz de Fora (MG) e continua em turnê - é mais um trabalho que flagra Ney na contramão. A começar pelo fato de ser um registro de estúdio de um show numa era em que o mercado fonográfico saliva por DVDs e CDs ao vivo...
Inclassificáveis põe Ney de volta à margem. Basta citar alguns compositores relacionados na ficha técnica - Alice Ruiz, Alzira Espíndola, Dan Nakagawa, Iara Rennó, Itamar Assumpção (1949 - 2003), Cláudio Monjope e Robinson Borba - para ter uma idéia da atmosfera indie que molda o repertório. Há também músicas de Caetano Veloso (Divino Maravilhoso, parceria com Gilberto Gil) e Chico Buarque (Ode aos Ratos, pérola composta com Edu Lobo para o ótimo musical Cambaio). Contudo, definitivamente, Inclassificáveis não é um disco que privilegia o mainstream - ainda que a gravadora EMI Music tenha eleito o cover meio abolerado de Veja Bem, meu Bem (do justamente incensado Marcelo Camelo) para badalar o CD nos programas de rádio e TV.
Enquanto o DVD previsto para maio vai perpetuar a gravação ao vivo do show, o disco de estúdio registra 16 números de Inclassificáveis. Sem o peso da massa sonora do palco, é possível perceber mais nuances e detalhes dos arranjos e das músicas. O que também realça a maior ou menor inspiração melódica das composições. Mente, Mente (Robinson Borba), Sea (Jorge Drexler) e Um Pouco de Calor (Dan Nakagawa) estão entre as melhores da safra indie do roteiro. Em compensação, faixas como Leve (Iara Rennó e Alice Ruiz) e Lema (Lokua Kanza e Carlos Rennó) perdem parte do encanto sem o aparato cênico do show e sem o calor do palco. Mas é justo reconhecer que, no todo, o CD tem a energia (ainda que seja uma energia diferente da observada no palco) e a atmosfera roqueira do show. Guitarras pontuam os arranjos de músicas como Fraterno (Pedro Luis) e Por que a Gente É Assim? (Cazuza, Ezequiel Neves e Frejat). Mas Inclassificáveis nunca foi um show de rock no sentido mais ortodoxo do gênero. Logo não poderia gerar um disco de rock. Entre outros ritmos, Inclassificáveis tangencia o folk (em Existem Coisas na Vida, de Itamar Assumpção e Alzira Espíndola) e até a disco music (no refrão de Coragem, Coração - de Cláudio Monjope e Carlos Rennó). O fato é que Ney Matogrosso segue o lema imposto no refrão urgente de Divino Maravilhoso: é preciso estar atento e forte. E ele está. Aos 66 anos, Ney Matogrosso continua - além de inclassificável - indomável. Aplausos para ele!!!

Zizi pega o 'Trenzinho Caipira' ao lado de Alceu

Convidado de Zizi Possi no terceiro dos 12 shows da série Cantos e Contos, apresentado na casa Tom Jazz (SP) na terça-feira, 25 de março, Alceu Valença pegou o Trenzinho Caipira ao lado da anfitriã. O tema de Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959), letrado pelo poeta Ferreira Gullar, encerrou o show, cujo bis foi dado com Ciranda, em outro dueto de Zizi com Alceu (ambos em cena na foto de Ronaldo Aguiar). Falante, o compositor pernambucano contou histórias, revelou como criou algumas de suas músicas e cortou com Zizi sua Tesoura do Desejo. Eis o belo roteiro do show:

1. Beradero - Zizi Possi
2. Disparada - Zizi Possi
3. Sobre Todas as Coisas - Zizi Possi
4. Melodia Sentimental - Zizi Possi
5. Corsário - Zizi Possi
6. Filho de Santa Maria - Zizi Possi
7. Solidão - Zizi Possi
8. Estação da Luz - Alceu Valença
9. Anunciação - Alceu Valença
10. La Belle de Jour - Alceu Valença
11. Tesoura do Desejo - Alceu Valença e Zizi Possi
12. Como Dois Animais - Alceu Valença
13. Tomara - Zizi Possi
14. Na Primeira Manhã - Alceu Valença e Zizi Possi
15. Coração Bobo - Alceu Valença e Zizi Possi
16. Sabiá - Alceu Valença e Zizi Possi
17. Menino de Braçanã - Zizi Possi
18. Trenzinho Caipira - Alceu Valença e Zizi Possi
Bis:
19. Ciranda - Alceu Valença e Zizi Possi

Cazes transforma sambas de Cartola em choros

Pegando carona na presença de Cartola (1908 - 1980) na mídia por conta do centenário de nascimento do compositor, a Deckdisc vai lançar em junho o CD Cartola em Choro, produzido por Henrique Cazes. O título já anuncia a idéia do disco de revestir os sambas do compositor com uma típica ambiência de choro - como o próprio Cazes já fez com o cancioneiro dos Beatles. Mas a seleção vai além dos standards do mestre e inclui músicas pouco conhecidas de Cartola. Entre elas, Deixa (parceria com Nelson Sargento), Perdoa (com Paulo da Portela), Colombina, A Vila Emudeceu, Meu Primeiro Amor (com Aloisio Dias), Ingratidão (outra parceria com Aloisio Dias) e Desperta Querida. O time excepcional de músicos é formado por Carlos Malta (sax e flauta), Paulo Sérgio Santos (clarinete), Joel Nascimento (bandolim), Rildo Hora (gaita) e Marcelo Gonçalves (violão de sete cordas) - além dos violonistas do Quarteto Maogani e do próprio Cazes ao cavaquinho. Contratado da Deck, o cantor Moyseis Marques pôs sua voz em A Canção que Chegou, a única faixa cantada do álbum.

Lula Queiroga muda título do terceiro disco solo

Inicialmente intitulado Tudo Enzima, o terceiro disco solo de Lula Queiroga (à direita em foto de Marcelo Lyra) vai chegar às lojas com outro título: Tem Juízo Mas Não Usa, nome de parceria inédita do compositor com Pedro Luís. O repertório de 15 músicas é quase todo inédito. A exceção é Belo Estranho Dia de Amanhã, tema que inspirou o título do segundo CD solo de Roberta Sá, editado em 2007. Entre as músicas, há Agora Corra, Gelza (com Silvério Pessoa e Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado), Barulho da Gota e Você Não Disse. Sai este ano, com luxuoso time de convidados que agrega Sergio Dias Baptista e o conterrâneos Lenine, Pupillo (baterista da Nação Zumbi) e China.

Março 26, 2008

Especial 'Mulher 80' vai ganhar edição em DVD

Chega às lojas em abril, pela gravadora Biscoito Fino, o DVD que perpetua o especial Mulher 80, gravado pela Rede Globo em outubro de 1979, com direção de Daniel Filho, e exibido pela emissora em dezembro daquele mesmo ano, na carona do sucesso do série Malu Mulher. Protagonista da série de ficção, a atriz Regina Duarte se juntou ao elenco feminino que misturou cantoras projetadas nos anos 60 (Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Rita Lee) e em meados dos 70 (Simone, Fafá de Belém, Zezé Motta) com artistas que despontavam em 1979, ano fértil que viu despontar vozes de mulheres como Ângela RoRo, Marina Lima e Joanna. Eis o roteiro do bom programa, que teve direção musical de Guto Graça Mello:
1. Começar de Novo - Simone
2. Paula e Bebeto - Gal Costa
3. Que me Venha Este Homem - Fafá de Belém
4. Seu Corpo - Joanna
5. Feminina - Quarteto em Cy e Narjara Turetta
6. Pecado Original - Zezé Motta
7. Não Há Cabeça - Marina Lima e Ângela RoRo (piano)
8. Álibi - Maria Bethânia e Rosinha de Valença (violão)
9. Mania de Você - Rita Lee e Roberto de Carvalho
10. O Bêbado e a Equilibrista / Maria Maria - Elis Regina
11. Cantores do Rádio - Todo o elenco

'Tempo Quente' esfria voz de Marina Machado

Resenha de CD
Título: Tempo Quente
Artista: Marina Machado
Gravadora: Nascimento
Música / EMI Music
Cotação: * * 1/2

Para quem já ouviu a voz calorosa de Marina Machado, que até já transitou pelo rock, Tempo Quente é banho de água fria na discografia da cantora mineira. Em seu terceiro CD solo, a intérprete adota estilo cool em flerte com a new bossa que evoca o som de Bebel Gilberto já na primeira das 15 faixas do disco, Tempo Quente, inspirada composição do mineiro Anderson Guerra. Aliás, os conterrâneos da artista dominam a ficha técnica.

Ao mesmo tempo em que esfria o canto de Marina Machado, remetendo ao disco cool feito pela cantora com Flávio Henrique, Tempo Quente pode aquecer sua carreira, até então confinada aos limites de Minas Gerais - ainda que Marina tenha percorrido o Brasil e o mundo como convidada de Milton Nascimento na turnê internacional do show Pietá. Generoso, o padrinho aceitou editar o disco da afilhada por seu selo, Nascimento Música, e ainda pôs sua voz em Discovery, música do sempre antenado Lula Queiroga.

O álbum tem unidade e amarra repertório irregular com sua costura de new bossa, ora com altas doses de eletrônica (como em Assim, música de Moreno Veloso), ora num tom próximo do folk (como em Simplesmente, boa canção da lavra de Samuel Rosa com o letrista Chico Amaral). A propósito, o guitarrista do Skank dá o ar da graça, como vocalista convidado, em Grilos, um lado B da dupla Roberto e Erasmo Carlos que se ajusta bem ao conceito do disco. Outro convidado, Seu Jorge - além de assinar a derramada Seu Olhar - pôs voz suave em Otimismo num tom aveludado que realça a atmosfera cool do CD. A música é das melhores de um repertório que ainda inclui dois temas de Milton Nascimento, Lília (recordado com vocalises por Marina) e Unencounter, a versão em inglês de Canção da América que soa sem emoção e até inapropriada para um disco de sentimentos contidos. Também jogam contra as duas músicas do mineiro Affonsinho, Disco Voador e Vagalume, ambas insossas. No todo, Tempo Quente dá ar mais contemporâneo ao canto de Marina Machado. Mas contemporaneidade não é sinônimo de evolução... embora - justiça seja feita - o álbum tenha lá seus bons momentos.

Quinteto retorna fiel às cores do melhor samba

Resenha de CD
Título: Patrimônio da
Humanidade
Artista: Quinteto em
Branco e Preto
Gravadora: Trama
Cotação: * * * *

Enquanto o grupo carioca Fundo de Quintal permanece cedendo às duras pressões da indústria fonográfica para gravar redundantes discos ao vivo (com justa ressalva para o belo álbum de inéditas Pela Hora, de 2006), o Quinteto em Branco e Preto colhe os frutos por semear no quintal paulista o gosto pelo melhor samba. Avalizado por Beth Carvalho desde seu primeiro disco, Riqueza do Brasil (2000), o grupo chega ao terceiro CD, Patrimônio da Humanidade, fiel às cores do melhor samba. É o primeiro álbum do Quinteto em seis anos - e o sucessor de Sentimento Popular (2002) vai fazer jus à expectativa criada pelos admiradores dos sambistas, oriundos da periferia de São Paulo (SP). O padrão de qualidade do grupo é mantido em sambas como o melódico Mananciais - trunfo do CD.
Seja nos sambas românticos de tom dolente que nunca resvala na banalidade do pagode sentimental (Desejo, Coisas do Coração, Meu Pranto), seja nos sambas de balanço mais buliçoso (Cabrochinha é uma delícia), os principais compositores do grupo - Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira - mostram que estão entre os melhores criadores do gênero. No repertório quase todo inédito de Patrimônio da Humanidade, há belos sambas da dupla - como a faixa-título, que alude ao fato de o samba de roda da Bahia ter sido eleito patrimônio nacional pela Unesco. Fora da lavra de Magnu e Maurílio, há partidos de altíssimo quilate como Brisa da Colina e Carrapato Deu no Boi, unidos em contagiante medley. Outro destaque é Prisão Especial, parceria de Nei Lopes com o violonista e vocalista do quinteto, Everson Pessoa. Na sarcástica letra, a melhor do CD, o sempre afiado Nei Lopes alfineta o preconceito que ainda envolve os sambistas face às empresas e autoridades. Tema recorrente em Elemento Suspeito, que toca na ferida do racismo ao falar do preconceito sofrido pelos negros que moram em morros e favelas - com direito a efeitos sonoros. Enfim, Patrimônio da Humanidade é um grande disco de samba. Somente os preconceituosos e os cariocas bairristas vão fechar os ouvidos para a beleza do repertório gravado pelo Quinteto em Branco e Preto - ele próprio um patrimônio do samba. E do Brasil.

Jair esbanja vitalidade nos tons do Quinteto

Resenha de CD
Título: Jair Rodrigues em
Branco e Preto
Artista: Jair Rodrigues
Gravadora: Trama
Cotação: * * * 1/2

Já na introdução de Orquestra Popular, bom samba de Luis Vagner com Bedeu que abre o 46º disco de Jair Rodrigues, o artista sinaliza que mantém o tom esfuziante que caracteriza seu canto. E que reaparece em faixas como Eu Vou Só, pagode cuja letra remete ao samba Maracangalha, de Dorival Caymmi. Aos 69 anos, Jair esbanja vitalidade no CD Em Branco e Preto, cujo título alude ao fato de o álbum ter sido produzido pelo Quinteto em Branco e Preto, o melhor grupo de samba de São Paulo na atualidade. O repertório - dos melhores já gravados por Jair em sua passagem pela gravadora Trama - surpreeende por extrapolar o quintal do samba, incluindo choro (Vida em Sonho, de Jair Oliveira, filho do artista) e um sambaião, Migração, que reconta a saga dos retirantes nordestinos com o auxílio luxuoso da voz e da sanfona de Dominguinhos. O leque rítmico do CD é amplo e abre espaço para o samba de breque, representado por Baiano Capoeira, parceria de Jorge Costa e Geraldo Filme, propagada nos anos 50 por Germano Mathias. Ícone do samba paulista, Mathias faz esperto dueto com Jair na faixa. No quintal mais tradicional do samba, o cantor apresenta o partido alto Toda Maria e foge do óbvio. Seja tirando do baú uma jóia do repertório dos Originais do Samba (E Lá se Vão meus Anéis), seja apresentando um lado B de Nelson Cavaquinho (Caridade, parceria com Hermínio do Vale), seja cantando Almir Guineto em clima seresteiro (Madrugada Sorrindo de Novo), seja incluindo dois sambas-enredos de São Paulo, Marquesa de Santos e Independência ou Morte, no pot-pourri do gênero que fecha o CD e afirma o colorido da voz de Jair Rodrigues, ora realçado pelos tons do Quinteto em Branco e Preto.

Março 25, 2008

Daniel se comporta mal ao gravar Gonzaguinha

Resenha de CD
Título: Comportamento Geral
Artista: Daniel Gonzaga
Gravadora: Biscoito Fino
Cotação: * * *

Ao decidir fazer por conta própria um disco com regravações da obra de seu pai, Luiz Gonzaga do Nascimento Jr., o Gonzaguinha (1945 - 1991), Daniel Gonzaga se comportou exatamente como pede o mercado fonográfico, tão ávido de tributos e tão refratário em relação aos discos com músicas inéditas. Mas se comportou mal. Até porque vem de um belo álbum, Areia (2004), em que reafirmou o talento de compositor exibido desde seu primeiro CD, Sob o Sol (1996). Era a hora de dar continuidade à própria obra.
Quinto título da coerente discografia de Daniel Gonzaga, Comportamento Geral foi gravado no estúdio Verde (RJ), entre 28 e 31 de março de 2007, como se fosse ao vivo. Não é um disco ruim. Nem poderia ser, pois a obra de Gonzaguinha é das mais coesas da música brasileira. Só que já foi muito bem gravada pelo próprio compositor, o preferido de cantoras como Maria Bethânia e Simone na virada da década de 70 para a de 80. Além disso, Daniel Gonzaga tem timbre muito parecido com o do pai - fator genético que vem impedindo o merecido reconhecimento do valor de sua obra autoral (às vezes ácida como muitas músicas da fase inicial de seu pai, mas de identidade própria e distinta) e que, no caso específico deste disco, limita o artista e dilui qualquer intenção de dar um colorido novo a temas como Gás Neon (1974), João do Amor Divino (1979) e Da Vida (1980) - para citar somente três músicas menos batidas selecionadas por Daniel para o disco. Aliás, o repertório inclui uma música apresentada como inédita, Namorar (a rigor, gravada pelo grupo Chicas em 2006), que não faz jus ao nome de Gonzaguinha. Por mais que os arranjos sejam bons, e eles são, Comportamento Geral nada acrescenta à obra de Gonzaguinha (compositor ainda hoje recorrente nos repertórios de muitas cantoras) e à discografia de Daniel Gonzaga.

Mendes recorre a clichês tropicais em 'Encanto'

Resenha de CD
Título: Encanto
Artista: Sergio Mendes
Gravadora: Universal
Cotação: * *

Pela capa do 39º álbum de Sergio Mendes, Encanto, nas lojas do Brasil a partir de 8 de abril, já dá para perceber que o pianista de Niterói (RJ) mais uma vez recorre aos clichês do país tropical para explorar o suingue da música brasileira no exterior. Encanto repete a fórmula de Timeless, o álbum que rejuvenesceu o som e o público de Mendes graças à intervenção do rapper will.i.am - o onipresente líder e mentor do grupo Black Eyed Peas. Soa exótico.
Pois o will reaparece em Encanto já na produção da primeira faixa, The Look of Love, clássico de Burt Bacharach e Hal David regravado com o vocal de Fergie, a loura do Black Eyed Peas. A introdução da faixa - com o piano de Mendes - faz supor nos primeiros segundos uma leitura mais convencional do tema, mas logo a gravação cai no baticum estilizado que domina o disco. É uma batida de samba à moda estrangeira, com eventuais vocais de rap. Enfim, uma miscelânea tropical que agrega nomes como Carlinhos Brown, parceiro de will.i.am em Funky Bahia e autor e convidado de Odo-Ya, exemplo da miscigenação artificial do CD. Sobre uma batucada afro-brasileira, Brown diz versos politizados.
Gravado entre Rio, Bahia e Estados Unidos, Encanto consegue empobrecer com seu baticum tropical até uma obra-prima de Tom Jobim como Águas de Março, apresentada em inglês com o vocal de Ledisi e em francês com a intervenção de Zapa Mama, grupo belga de world music. Compositor recorrente no repertório de Encanto, Jobim também é evocado em Somewhere in the Hill ( O Morro Não Tem Vez, com Natalie Cole nos vocais), Dreamer (Vivo Sonhando, em clima bossa-novista com a voz de Lani Hall - vocalista original do conjunto Brazil' 66 - e o sublime trompete de Herb Alpert) e Água de Beber (com o rap até bacana de will.i.am).
No samba do gringo doido, até o suingue de João Donato se perde entre tanto exotismo. Lugar Comum, parceria de Donato com Gilberto Gil, entrelaça o discurso do rapper italiano Jovanotti com o canto do grupo japonês Dreams Come. Já Y Vamos Ya (E Vamos Lá) ganha o vocal em espanhol do cantor colombiano Juanes. O encanto se perde pela tentativa de forçar tom tropical - como acontece em Morning em Rio (samba de Toninho Horta em que Mendes procura simular um clima carioca) e em Catavento e Girassol (com inadequada cuíca ressoando ao fundo). Até a assinatura personalíssima da música de Vanessa da Mata, que participa da regravação de Acode, se perde entre tanto clichê. Pode ser que Encanto seduza ouvidos estrangeiros interessados na imagem e no som tropical do Brasil, mas, dentro do universo nacional, tudo o que a audição do álbum não provoca é... encanto.

Bom disco de Zabé evoca a riqueza do Nordeste

Resenha de CD
Título: Bom Todo
Artista: Zabé da Loca
Gravadora: Crioula Records
Cotação: * * * *

Confinada com seus filhos durante 25 anos numa gruta (ou loca, no típico linguajar popular dos habitantes do interior da Paraíba) depois que sua casa ruiu, Isabel Marques da Silva - a Zabé da Loca - chega ao segundo disco, Bom Todo, aos 83 anos. Desta vez, com produção à altura da riqueza evocada no toque intuitivo de seu pífano, a tradicional flauta inventada no Nordeste e propagada para todo o Brasil pela Banda de Pífanos de Caruaru. Coube ao flautista Carlos Malta pilotar este bom CD que inaugura a gravadora Crioula Records, criada pela produtora Lú Araújo para editar artistas brasileiros excluídos do cenário fonográfico por falta de opção e visibilidade.
Bom Todo expõe o talento natural de Zabé como compositora - ela assina sozinha temas como Queima, Limoeiro e Veja a Vida Como É - e como tocadora de pífano. Seu toque tem vivacidade. E o fato é que o disco se mostra interessante. Seja pela presença da rabeca de Maciel Salu em Pifada da Loca, seja pela incursão de Zabé no cancioneiro vivo de Luiz Gonzaga (Numa Sala de Reboco, parceria com José Marcolino). Até o Hino Nacional Brasileiro ganha toque bem mais alegre no pífano de Zabé da Loca. Tão moderno quanto tradicional. E - enfim - bem formatado em disco.

Queen faz primeiro CD de estúdio com Rodgers

O Queen vai lançar em setembro de 2008 um disco de músicas inéditas - o primeiro em 13 anos. Com os vocais de Paul Rodgers, cantor que se juntou ao grupo para turnê realizada entre 2005 e 2006, o Queen gravou seu primeiro álbum de estúdio desde a morte de Freddie Mercury, em 1991 (um disco póstumo, Made in Heaven, foi lançado em 1995 com as últimas gravações do cantor original da banda). Brian May, Roger Taylor e Paul Rodgers compuseram juntos o repertório e juntos produziram o CD, ainda sem título anunciado. A única faixa divulgada é Say It's Not True.

Março 24, 2008

Ana inaugura selo com DVD e badala faixa 'Vai'

Ana Carolina - à esquerda em foto de André Schiliró - inaugura o seu selo, Armazém, com o lançamento do CD e DVD Dois Quartos - Multishow ao Vivo, gravados em novembro de 2007 em show em São Paulo (SP). A distribuição deste registro ao vivo - nas lojas a partir de 4 de abril - será feita pela Sony BMG, gravadora à qual o selo da artista está vinculado. Aliás, a companhia já divulga o CD e o DVD a partir desta semana com a promoção nas rádios da faixa Vai. A canção integrou o repertório do disco duplo editado em 2006 sem a mesma repercussão dos anteriores trabalhos de estúdio de Ana.

CD de 'Shine a Light' sai no Brasil em 8 de abril

Chega às lojas do Brasil em 8 de abril o álbum duplo com a trilha sonora do documentário Shine a Light, em que o diretor Martin Scorsese enquadra os Rolling Stones a partir de dois shows realizados pelo grupo no New York's Beacon Theatre em 29 de outubro e 1º de novembro de 2006. O álbum duplo apresenta 24 gravações da banda - tiradas do áudio do show que gerou o filme - e conta com intervenções de Buddy Guy, Christina Aguilera e Jack White (da dupla White Stripes). Nos Estados Unidos, o CD com a trilha do incensado Shine a Light já será lançado em 1º de abril.

Calcanhotto explica a onda de seu álbum 'Maré'

No fluente texto intitulado Som É Onda, escrito por Adriana Calcanhotto para explicar o conceito de seu novo CD, Maré, nas lojas em abril, a artista - vista na foto acima no expressivo close feito por Gilda Midani para a capa do álbum - apresenta seu oitavo trabalho como a segunda parte de uma trilogia iniciada com o disco Maritmo (1998). "E, como segundo, este tem como mote o mar de volta, o mar "mais uma vez", maré. E talvez por ter ficado entre o primeiro e o terceiro é que ele tenha ficado tão entre a mulher e o peixe, entre a palavra e o emaranhamento quântico, entre a linguagem e o indizível. Ou entre Ferreira Gullar e Cazuza, entre Augusto de Campos e Dorival Caymmi, entre (Antonio) Cicero e Waly (Salomão)", contextualiza Calcanhotto, relacionando poetas e compositores presentes na ficha técnica como autores das 11 músicas do CD - produzido por Arto Lindsay.

No texto, a artista explica que já flertava há tempos com músicas como Mulher sem Razão (1986) e Onde Andarás (1967) e conta que o embrião de Maré é a turnê que fez no exterior em 2007 com os amigos e parceiros Moreno Veloso, Kassin e Domenico Lancellotti. Por sugestão do grupo, a turnê se chamou +Ela, numa referência aos discos assinados pelo trio como Moreno + 2, Kassin + 2 e Domenico + 2. Tal encontro-show não foi badalado no Brasil.

Com a trupe de músicos amigos, que inclui o baixista Dé Palmeira, Calcanhotto conta no texto que combinou tocar com alegria e prazer, esquecendo a produção - delegada a Arto Lindsay. "A gente tocou o que quis, interferindo conforme cada feeling, e eu foquei basicamente na escolha de pessoas, não de timbres ou instrumentação. Com exceção de Sem Saída (arranjada por Aldo Brizzi), as faixas foram sendo construídas à medida que íamos tocando. Diferente do que chamamos de "arranjo coletivo", no sentido do planejamento do que vai acontecer (e no jorro de idéias), trabalhei muito com o silêncio. Nunca disse como imaginava que as faixas deveriam ser e, no máximo, entre opções a escolher, fiquei com a mais bonita. Ou mais maluca. Arto entendeu tudo desde o início e contribuiu para a fluidez sendo um ouvidor atento e estimulador", relata Calcanhotto no texto. Mar É.

Adriana recebe Gil no 'Sargaço Mar' de Caymmi

Uma das últimas composições de Dorival Caymmi (lançada pelo autor em 1985), Sargaço Mar fecha o oitavo álbum de Adriana Calcanhotto, Maré, que chega às lojas em abril pela gravadora Sony BMG. A faixa conta com a participação de Gilberto Gil ao violão. Produzido por Arto Lindsay, Maré remete ao quarto álbum da compositora, Maritmo, editado em 1998 com a participação luxuosa do citado Dorival Caymmi em Quem Vem pra Beira do Mar (1954). Maré é o segundo CD da trilogia marítima da artista.
Com 11 músicas, M