
Foram oito (!!) anos de espera por um disco de inéditas de Chico Buarque. A expectativa - naturalmente grande - não foi satisfeita em maio com o lançamento de
Carioca, o primeiro de repertório novo do compositor desde
As Cidades, CD de 1998. Com tiragem inicial de 151 mil cópias, o álbum marcou a estréia de Chico
(em foto de Bruno Veiga para o encarte) na gravadora Biscoito Fino, que fabricou
Carioca no formato simples e em edição dupla que reuniu CD e o DVD
Desconstrução, com longo chato
making of da gravação. Mas, se o disco decepcionou, o mito continuou intacto - como provaram acirradas disputas pela compra de ingressos para o show da turnê que estreou em agosto, em São Paulo, e chega ao Rio em 4 de janeiro, para temporada de seis semanas no Canecão.
A rigor, quase todas as 12 músicas apresentadas nos 36 minutos e 51 segundos do CD
Carioca se revelaram tijolos menores da obra grandiosa construída por Chico há 40 anos. Houve raro requinte nos arranjos e nas harmonias, mas a impecável produção apenas disfarçou a triste ausência de músicas à altura de um compositor habitualmente magistral. Não saiu do disco um novo clássico do cancioneiro de Chico. E os elogios derramados de parte da crítica foram feitos mais pela reverência ao mestre do que pela genuína admiração das músicas. Como já vem acontecendo há tempos...
Os arranjos do fiel violonista Luiz Cláudio Ramos embalaram com sofisticação exemplar repertório irregular que tangenciou o atual Rio de Janeiro de forma mais ou menos explícita. O choro-canção
Subúrbio já abriu o CD mapeando sem romantismo sons, costumes e mazelas dos bairros da periferia da cidade. E as intervenções da flauta de Marcelo Bernardes e do clarinete de Paulo Sérgio Santos pontuaram música que chamou mais atenção pela letra engenhosa do que pela melodia. A propósito, em
Carioca, o Chico letrista superou, e muito, o melodista já menos inspirado. Quem te viu...
"Fala a língua do rap", propôs Chico em verso de
Subúrbio. Atento aos novos sons da cidade, o compositor inseriu até rap (intitulado
Embolada) e programações eletrônicas no baião
Ode aos Ratos - extraído da trilha do musical
Cambaio, composta em 2001 em parceria com Edu Lobo (o baião já tinha sido gravado por Chico em 2001 no CD que registrou a trilha sonora do musical). A levada nordestina ficou bem menos evidente no quase fox
Outros Sonhos, apesar da adição do acordeom de Dominguinhos. "De noite raiava o sol / Que todo mundo aplaudia / Maconha só se comprava na tabacaria", delirou o compositor na letra, reproduzida em jornais.
Sintomaticamente, as melhores músicas foram as mais antigas. O único samba do disco,
Dura na Queda, foi composto para a peça
Crioula, que contou a vida de Elza Soares. Na versão do autor, o bom samba ganhou sopros e clima de gafieira. Já a valsa
Imagina, criada por Tom Jobim em 1947 e letrada por Chico em 1983, se impôs naturalmente, adornada pela voz segura de Mônica Salmaso e pelo piano de Daniel Jobim, neto do maestro soberano de Chico. Ainda que
Imagina já tenha merecido registros mais inspirados…
As canções também não estiveram entre as mais arrebatadoras de Chico. A mais bonita -
Por que Era Ela, Por que Era Eu, o tema do filme
A Máquina - já tinha sido lançada na compilação
Chico no Cinema, editada no fim de 2005. Também envolvente,
As Atrizes combinou cordas e lirismo em tributo às divas do cinema francês que apareciam nuas na tela do cinema e da mente do compositor.
Ela Faz Cinema - destaque da safra irregular - evocou clima bossa-novista enquanto
Sempre - criada para um filme de Cacá Diegues,
O Maior Amor do Mundo – exibiu tom camerístico. Já
Renata Maria (primeira parceria de Chico com Ivan Lins) foi banhada pela atmosfera onírica que inexistiu na (mediana) gravação original de Leila Pinheiro.
Leve, samba-canção levemente abolerado, deveria ter permanecido nos discos de Dora Vergueiro e Carol Saboya...
Foi tudo harmônico e refinado (a exemplo do choro
Bolero Blues, a primeira parceria de Chico com seu baixista Jorge Helder), mas quase nenhuma música nova conquistou para valer no (bom) CD, aquém da genialidade ímpar de Chico Buarque. O abismo entre a produção antiga e a atual do compositor carioca ficou mais nítido com a reedição dos três primeiros discos do artista, gravados na extinta RGE - entre 1966 e 1968 - e embalados em
digipack pela Som Livre na caixa
Os Primeiros Anos. E principalmente com a chegada às lojas, em dezembro, da bela coleção
Chico Buarque Essencial, que repôs em catálogo, em edições avulsas, 17 discos do período 1970 - 1986. Mas o mito continuou intacto.
Carioca à parte, Chico Buarque ainda é e sempre será unanimidade nacional.